Um ano de USP: de outsider a estabelecido?

Estadão

15 Dezembro 2010 | 15h00

Ao fazer um paralelo entre o meu primeiro dia de aula na Universidade de São Paulo e agora, já em vias de férias depois do primeiro ano de estudos, percebi mudanças significativas no meu modo de enxergar vários assuntos relacionados ao jornalismo, à imprensa, à comunicação e às relações sociais.

Um dos primeiros despertares surgiu em uma aula sobre o livro “Os estabelecidos e os outsiders”, do sociólogo alemão Norbert Elias. O assunto tratado no livro é a questão das dificuldades de integração e comunicação, em qualquer ambiente, entre aqueles que já antes habitavam e pertenciam ao local, os estabelecidos, com aqueles que chegavam depois, considerados “outsiders”. Esse assunto é daqueles que todos sabem, todos têm noção, todos convivem diariamente com a questão, mas que até então ninguém tinha resumido a  problemática num título tão abrangente e interessante como “os estabelecidos e os outsiders”. A partir de então, no decorrer do ano, vários alunos, inclusive eu, passavam a enxergar em contextos completamente diferentes a questão do livro e todos resumiam sempre a situação: “ah… aqui também é o problema dos estabelecidos e outsiders”, virou quase um bordão.

Além desse exemplo, frases como “age de tal maneira que trates a humanidade sempre como um fim e nunca como um meio” e “age como se a máxima de tua ação devesse servir de lei universal para todos os seres racionais”, de Kant (um desconhecido até 2009), apareciam várias vezes em minha mente (e até, de certa forma, me perseguiam) quando tinha que tomar decisões. Um outro grande despertar,  surgiu quando passei a entender a Ética como “ a escolha entre o certo e o certo” e não entre o certo e o errado. Havia momentos em que achava que estava ficando paranoico: assistia a reportagens na TV pensando “aqui o cinegrafista não enquadrou direito”, “a repórter passou o microfone antes de terminar a pergunta” e “essa entrevista foi muito óbvia”.

Em outros momentos fazia mentalmente (e até involuntariamente) a análise dos discursos de várias pessoas, notícias e anúncios  publicitários. Certas vezes, em situações exteriores ao jornalismo, vinha a seguinte ideia em minha mente: “poxa, bem que um infográfico esclareceria perfeitamente essa questão” e, pior, eu mesmo fazia infográficos para me organizar. Não, eu não estava no USPício… Depois de um ano nessa rotina, não me considero um “estabelecido” na rotina universitária. Como disse Sócrates, “só sei que nada sei” e tenho muito a aprender nos próximos três anos.

Leandro é aluno do 1º ano de Jornalismo da ECA-USP

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