Revisores

Estadão

22 Março 2012 | 14h25

Quando se manda um trabalho científico para publicação, o editor verifica se ele se encaixa no tema de publicações da revista. Se a resposta for afirmativa, o trabalho vai para a mão de um editor acadêmico – senão, você receberá uma resposta lhe contando que seu trabalho foi recusado, mas que a revista está sempre aberta a futuras contribuições suas (às vezes isso vem junto com sugestões de onde publicar).

Chegando no revisor acadêmico esse escolherá de dois a cinco (normalmente doisou três) revisores. Eles lerão o seu trabalho com cuidado e farão críticas (construtivas ou não), e dirão ao editor acadêmico o que acham sobre a publicação. Os editores acadêmicos e os revisores, em geral, são especialistas na área da publicação ou tem muita afinidade com ela- por isso, serão críticos vorazes.

Entre diversos pontos que os revisores devem ser atentar estão o de verificar se as conclusões do paper são fundamentadas pelos dados apresentados, se as literatura foi citada de maneira correta e justa (e se não faltaram referências importantes), se o texto está escrito corretamente e é compreensível ao público leitor, e,  em algumas revistas, se essa descoberta é relevante o suficiente.

Após a leitura do paper, os revisores encaminham para o editor acadêmico um texto falando sobre o que acham que falta ou quais são os problemas. Em geral, aqui aparecem críticas à metodologia, a afirmações incorretas no texto e até pedido de novos experimentos para que esclarecer alguns pontos. Após esse texto, o revisor ainda deve informar ao editor se acha que o paper deve a) ser aceito; b) sofrer revisões pequenas; c) sofrer revisão significativa; d) ser rejeitado.

Se seu artigo não for for rejeitado você tem, em geral, um prazo de três meses para fazer as modificações necessárias e reenviar o paper para  a consideração dos revisores. Se for aceito, ou forem pedidas somente revisões menores, em geral o editor já aceita após essas mudanças pequenas, sem reenviar aos revisores.

Em muitas revistas, o necessário para ser um revisor é conhecer um editor – algumas pagam pela revisão, mas a maior parte não. Eu sou revisor da PlosOne, e não recebo nada para tal, mas em compensação você tem o privilégio de ler alguns trabalhos antes de eles serem publicados, e o dever de não deixar trabalhos ruins serem publicados.

Aqui cabe uma ressalva. Muitos revisores, em vez de julgar o trabalho que está lá escrito, obrigma os autores a fazerem praticamente um trabalho novo. Muitos exigem tantos experimentos que muitas vezes consomem os três meses de tempo de revisão e infelizmente nem sempre acrescentam muito ao que já tinha sido escrito. E isso acontece por um infeliz ciclo vicioso: os autores são muito exigidos dos revisores, e quando é a sua vez de ser um revisor ele o faz da mesma maneira, quase como vingança para o que fizeram com ele. O que no fim torna um processo que deveria ser amigável e somente de verificação ou pequenas melhorias um inferno para os autores. Eu evito propagar esse ciclo e faço propaganda entre meus colegas para fazermos o mesmo! Vamos se quebramos esse ciclo.

Bruno Queliconi é doutorando no Instituto de Química da USP

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