Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Estadão

24 Janeiro 2011 | 08h02

O movimento global em busca da segurança e da qualidade nos serviços de saúde não é nem de longe um fato novo. Oferecer boa assistência, equitativa à população e com custos reduzidos, é tema prioritário e grande desafio à sociedade.

Então, essa semana, que para mim representa a dolorosa travessia do portal entre as férias e a volta ao trabalho, iniciei uma breve revisão dos eventos adversos (para quem ainda não acompanhava o blog, em meu primeiro post esclareci o que são os EAs… dá uma lidinha, vale a pena!) que me lembrou de um assunto que há tempos venho querendo discutir aqui.

Em 1859, uma enfermeira chamada Florence Nightingale dizia: “ Talvez pareça estranho enunciar como primeiro dever de um hospital não causar mal ao paciente”. A frase de Florence nunca me pareceu tão contemporânea. E durante a análise de casos atuais que venho estudando, ainda pude notar uma frequência impressionante de erros no cenário hospitalar.

Como, por exemplo, o da auxiliar de enfermagem que acidentalmente injetou uma solução de vaselina em uma garotinha de 12 anos. A revolta imediata que sentimos nessa ocasião é completamente justificada, afinal, somos irmãos, primos, pais, avós… fato que torna inevitável o sentimento de empatia pelo sofrimento da vítima e de sua família.

No entanto, nossa revolta deve ser abrandada e perpassar as raias da acusação individual para alcançar todo o leque de equívocos dentro do processo do CUIDAR que, no caso da garota, foi fatal.

Faz parte da nossa obrigação como seres humanos, olhar para a outra margem do rio! A terceira margem do rio, como escrevera Guimarães Rosa (estou incluindo os profissionais da saúde na categoria humanos, às vezes, a gente até pensa que é Deus!). Devemos extrapolar o binômio acusado – vítima.

Pensemos nas condições de trabalho oferecidas àquela auxiliar de enfermagem, nos fatores simples, como a cor de um frasco, que se alterados poderiam mudar o rumo dessa e de outras histórias.

A única falha não foi a da profissional. Naquele breve instante apenas um ciclo de falhas fechou-se, infelizmente, junto com os olhos de Stephanie. Que essa tragédia, como tantas outras, sirva para nos abrir os olhos e perceber a dimensão muito maior que envolve o delicado trabalho dos profissionais de saúde.

Ao ouvir um depoimento choroso da acusada, lembrei de um texto do Chaplin que fica em uma das paredes aqui de casa: “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. (…) Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Não sois máquina! Homens é que sois!” –  Charles Chaplin, em O Grande Ditador

Experimentemos seguir alguns ensinamento desse homem que nunca quis ser um ditador, mas ditou normas de bom comportamento humano, de suavidade, de brandura e de amor ao próximo em qualquer situação.

Mariana é enfermeira e pós-graduanda da USP