Ensaio sobre a rotina

Estadão

29 Setembro 2011 | 10h22

Rotina…Ando cansada da minha. A velha história de que rotina de vestibulando é sempre a mesma. E é mesmo.

O próprio nome já diz: rotina, segundo o dicionário: “Hábito de fazer uma coisa sempre do mesmo modo, mecanicamente […]”.

Ando tão enjoada da minha rotina, tão desgastada psicologicamente e com a setembrite tão em alta que quando me perguntam como estão os estudos, apenas digo “indo. Como sempre”. Porque é isso, não dá pra dizer que os estudos estão de outra forma. Continuo seguindo o cronograma que me impus. Todos os dias gasto as mesmas horas no cursinho.

Toda semana acho que deveria ter estudado mais.

Então, os estudos vão indo; como sempre. Dizer o que estou estudando? Ninguém se interessa de fato, senão aqueles que também estão estudando. Arrisco dizer que me perguntar “como estão os estudos?” é parte da rotina das outras pessoas; já o fazem por costume.

Mas não posso simplesmente largar tudo porque me cansei. Obvio que não. Tenho um objetivo, uma meta. E o vestibular logo vem bater na porta. No entanto, o cansaço vai acumulando e chega em um ponto no qual o desgaste é tanto que a concentração vai embora; quando nos damos conta, estamos lendo um mesmo parágrafo cinco vezes para entender o que está escrito; ou lendo tantas vezes quantas forem possíveis para reter informação. Nesses momentos é preciso abandonar o cronograma por pelo menos 15 minutos e se dedicar a fazer nada. Isso mesmo, nada! Sair, respirar. Abstrair.

Não é exagero dizer que as horas seguidas de estudo, a ansiedade, tensão, preocupação, medo, má alimentação e tantos outros problemas e sentimentos/sensações que venham preencher essa lista culminam em um cansaço psicológico extremo.

E então nos aparecem pessoas que perguntam: “Você está cansado de quê? Você só estuda”.

Há muito que se tem essa visão de que estudante não faz nada da vida, se for de cursinho então…Aí que as pessoas acham que são ociosos mesmo. Não é assim. Conheço muito aluno que dorme quatro horas por noite; passa dia e madrugada estudando e conciliam o tempo de estudo com seus trabalhos cotidianos. E há ainda os que, mesmo que tenham boas
horas de sono, estudam suas nove horas por dia.

Analisemos o ultimo caso: (em hipótese) oito horas de sono e mais nove horas de estudo, totalizando dezessete horas; restam sete horas, que são distribuídas entre alimentação, higiene, trabalho diário e, claro, o tempo que gastam para ir de um lugar ao outro; se considerarmos a cidade de São Paulo, onde o trânsito é absurdo e se gasta em média uma hora e meia para chegar ao destino desejado, sete horas parecem suficiente para essas atividades? Creio que não. Então pensemos agora no primeiro caso, onde (novamente em hipótese) os estudantes dormem quatro horas, estudam de treze a quatorze e utilizam as mesmas sete (ou seis) horas para todo o restante necessário. Parece cansativo, não?

Como costumam dizer os vestibulandos: dormir para quê? Se não fazemos nada da vida durante o dia, é preciso aproveitar a noite para fazer alguma coisa. E essa coisa é justamente adquirir conhecimento.

De fato, a vida de estudante é fácil. Não temos mesmo do que reclamar!

***

Não desmereço a rotina de qualquer outra pessoa, que fique bem claro. Há tantos trabalhadores que também mal dormem. Escravos de uma rotina tão pior.

Apenas creio que se deve quebrar o mito de que estudante é um ser vadio.

Luiza Nunes é aluna do Cursinho da Poli