De Gulliver ao Facebook, a sociedade é a mesma

Estadão

26 Janeiro 2011 | 15h56

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Abri recentemente um artigo sobre o livro As Viagens de Gulliver na Wikipédia. Na parte superior, havia um curioso aviso em amarelo: “Cuidado, este artigo contém revelações sobre o enredo”. Já vou avisando que o post de hoje fala de algumas partes do enredo de Gulliver, mas que não vão estragar a graça, caso você queira ler depois.  Prometo que, caso venha a falar de alguma parte crucial da história, vou colocar uma aviso (não em amarelo) para o leitor pular para o próximo parágrafo…

Dadas essas coordenadas, vou explicar porque lembrei de Gulliver: um dia desses, fui ao cinema assistir ao genial filme A rede social após ter lido o também genial Bilionários por acaso: a criação do Facebook. Um dos trailers era o do filme As Viagens de Gulliver, o que me fez lembrar do livro homônimo, mais genial ainda, que li na 6.ª série. Encontrei-o em casa, com a minha ex-letra cursiva ainda redonda de oito anos atrás, e o li novamente.

Conforme prosseguia na leitura, percebi como esse livro de 1726 (não escrevi errado, é 1726 mesmo!) se faz tão atual e traça um retrato dos vícios e da prepotência da humanidade que parecem os mesmos, seja no livro de Gulliver ou no do Facebook, escrito mais de 200 anos depois.

Não é necessário criar 500 milhões de amigos para também acabar formando alguns inimigos. Afinal, como a primeira viagem de Gulliver revela, homenzinhos tão diminutos do tamanho dos bonequinhos de Lego, como os habitantes de Lilipute, fazem como seus inimigos mortais aqueles que não quebram os ovos da mesma maneira que eles, uns pela parte mais fina e outros, pela mais grossa. É aí que vemos a pequenez de nossas atitudes e sentimos até uma certa vontade, se tivéssemos o tamanho de Gulliver, de pisar nelas.

Vejo ainda, que a melhor descrição de nossa sociedade atual aparece na Ilha de Laputa, a terceira viagem de Gulliver. Nesse lugar flutuante, todos os habitantes têm um olho virado para o ponto mais alto do céu e o outro virado para dentro de si – qualquer semelhança entre eles e Mark Zuckerberg, criador do Facebook, é mera coincidência… Em Laputa, os homens andam com um criado que carrega um objeto que funciona mais ou menos como um chocalho. Quando duas ou mais pessoas estão reunidas, o empregado bate suavemente na boca de quem está para falar e na orelha de quem está para ouvir, pois parece que cada um está mergulhado nas suas investigações individuais e precisa ser despertado para conversar com o outro.

Hoje, as pessoas têm centenas de amigos adicionados no Facebook, são marcadas nas fotos deles, recebem mensagens de “Parabéns” no dia do aniversário (porque o Facebook as avisa) e muitas vezes estão tão distraídas que nem sabem o que é verdadeiramente falar e ser ouvido.

(Talvez o próximo parágrafo só quem leu o livro vai entender.)

Por ironia do destino, estou passando as férias numa cidade cheia de cavalos. Não, não é o país dos “Houyhnhnhms”. Confesso que, após a leitura do livro, passei a olhar os cavalos de uma maneira diferente, mas, não desisti da raça humana e da sua “pontinha” de razão. Na era do Facebook, eu ainda acredito no Yahoo.

Agora, se você não entendeu nada desse último parágrafo, dica para a última semana de férias: ler As Viagens de Gulliver e guardá-lo para daqui a 30 anos vermos se mudou alguma coisa.

Leandro está no 2º ano de Jornalismo na ECA-USP