Altruísmo e pensamento a longo prazo

Estadão

19 Janeiro 2011 | 14h23

Depois de quatro longos anos, esta é a primeira vez que voltei a ter férias tranquilas, sem preocupações com listas e resultados – afinal, desde o 1º colegial, vinha prestando as provas da Fuvest.

Porém, mesmo em férias e distante alguns bons quilômetros de São Paulo, não deixei de ter a curiosidade de espiar o tema de redação para conferir se a Fuvest surpreendeu, ou não, mais uma vez.

“Altruísmo e pensamento a longo prazo”. Fiquei contente com essa proposta e mais ainda com o questionamento suscitado: “eles ainda têm lugar no mundo contemporâneo?”

Ao pensar nesse tema, o associei muito a algo que reparei nessas férias: estive observando essa moda que pegou de colar adesivos representando a família no porta-malas do carro.
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Nesses dias em que meu itinerário deixou um pouco de ser casa-Cidade Universitária, Cidade Universitária-casa, notei as mais diversas famílias estampadas: além das tradicionais do “American way of life”, havia composições com famílias sem pai, mas com cachorro, outras com mais gatos do que filhos, outra que era só uma menina com seu animal de estimação, e por aí vai. Porém, decepcionei-me por não ter encontrado um determinado tipo de pessoa representado em praticamente nenhum carro: as pessoas com deficiência.

Num tempo em que vivemos num “mundo por imagens” (tema de redação da Fuvest 2010), é triste não encontrar uma representação digna para as pessoas com deficiência nem no adesivo do porta-malas do carro.

Ao pesquisar na web, consultando diversas cartelas de adesivos, encontrei representações de meninos e meninas de todos os tipos e tribos, rockeiros, emos e até black power. Com muito custo, encontrei uma pessoa numa cadeira de rodas – porém era uma velha senhora com um semblante triste.

Por que não representar um deficiente feliz, jovem e sorridente e insistir em associá-lo a alguém com doença e depressão? Eles é que são o maior símbolo de altruísmo com seus exemplos de vida. A grande pena é que eles não podem contar com o altruísmo dos outros tendo muitas vezes que esperar um longo, longuíssimo prazo para o reconhecimento.

Prova disso está no fato de a Fuvest ter explicado na proposta o significado da palavra “altruísmo” segundo o Houaiss. Se essa atitude fosse comum, não haveria razão para explicá-la como um verbete de dicionário que ninguém sabe o que é.

Vou registrar, então, esse significado mais uma vez, para que em nossas redações diárias não o esqueçamos mais de inclui-lo para a “descatracalização” da vida:

Altruísmo = s.m. Tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro.

“Onde não há pensamento a longo prazo, dificilmente pode haver um senso de destino compartilhado, um sentimento de irmandade, um impulso de cerrar fileiras, ficar ombro a ombro ou marchar no mesmo passo.” (Z. Bauman. Vidas desperdiçadas – Texto 3, Fuvest 2011)

Leandro está no 2º ano de Jornalismo na ECA-USP

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