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KHAN ACADEMY – FRENTE E VERSO Parte 1

Fredric Litto

09 Novembro 2012 | 02h05

A turbulência atual no mundo de aprendizagem a distância afetará áreas geográficas, e terá consequências mais duradoras do que furacões e tsunamis. Como os MOOCs (Massive Open On-line Courses – Cursos On-line Macissos e Abertos), já temos cursos baseados na web com mais de 150.000 aprendizes inscritos numa única disciplina; essencialmente, todo o processo é gerenciado automaticamente por computadores, incluindo a parte de avaliação dos alunos. Por esse sistema instituições educacionais oferecem créditos acadêmicos de nível superior para aprendizes que estudaram através de Recursos Educacionais Abertos. O sucesso cada vez maior no mercado de ONGs e empresas está em oferecer aprendizagem (especialmente de línguas estrangeiras) on-line com automação total da interface, e sem a interferência de um professor ao vivo. Essas são apenas algumas das novidades circulando na área; as demais serão tratado futuramente.

A verbete na Wikipedia em inglês focalizando a Khan Academy é precedido por um aviso dos organizadores que o conteúdo da verbete tem viés de publicidade, isto é, de só falar de aspectos positivos da Academy. A versão em português não tem esse aviso e é mais enxuta:
The Khan Academy é uma ONG educacional criada e sustentada por Salman Khan. Com a missão de “fornecer educação de alta qualidade para qualquer um, em qualquer lugar”, oferece uma coleção grátis de mais de 3.300 vídeos de matemática, história, medicina e saúde, finanças, física, química, biologia, astronomia, economia, ciência da computação, entre outras matérias.
O fundadador da organização, Salman Khan, nasceu e cresceu em New Orleans, Luisiana, Estados Unidos.[2] Formado em matemática, ciências da computação e engenharia elétrica pelo MIT, Khan começou a ensinar matemática para a sua prima Nadia em 2004 com serviços do Yahoo![3]. Logo, outros parentes e amigos procuraram sua ajuda, tornando-se mais prático distribuir suas aulas pelo YouTube. Os vídeos se tornaram mais populares, saindo de seu trabalho em 2009 para se focar integralmente no Khan Academy[4].Os vídeos de Salman Khan podem ser assistidos em Português pelo site da Fundação Lemann, que realizou a tradução juntamente com a Intel. http://www.fundacaolemann.org.br/khanportugues/

Os vídeos em inglês podem ser acessados no site http://www.khanacademy.org/

Muito similar às guerras, nas décadas de 1980 e 1990, entre os fãs da Apple e do IBMWindows, hoje se digladiam na web aqueles que acreditam que tanto a abordagem quanto a qualidade dos materiais do Salman Khan e sua equipe (agora incrementada com doações das fundações de Bill Gates e do Google) representam “o caminho” para a educação do futuro e para aqueles que manifestam reservas quanto a essas variantes tecnológicos.
Em primeiro lugar é bom relembrar o contexto da educação formal no passado: menos alunos matriculados, professores vindo de famílias da elite, um “cânone” de conhecimento a ser aprendido (pouco sujeito a mudanças no tempo), bem menos complexidade, e sem representar as visões pluralistas da sociedade. Naquele contexto, havia tempo, na sala de aula (mesmo com uma jornada acadêmica de apenas 4 horas) para o professor dar detalhadas explicações e exemplos a fim de assegurar a compreensão dos alunos. Minha esposa, que era professora do ensino primário numa cidade pequena no interior de Minas Gerais na década de 1950, afirma que era costume para a professora não ir para sua casa até ter a convição de que todos os alunos entenderam as matérias daquele dia. Atualmente, todas essas condições mudaram para seus contrários: enquanto, no passado, era possível ao o aprendiz adquirir, indiretamente, através das disciplinas clássicas (como matemática, ciência, história, línguas e literatura), habilidades como pensamento e expressão claros, hoje, devido ao crescimento de conteúdo em todas as matérias, não há tempo para explicações demoradas; precisamos criar novas disciplinas que não só ensinem como pensar, como interpretar e julgar evidência, mas como tirar conclusões e relatá-las adequademente.


Talvez tenha sido o aumento de complexidade das matérias que resultou no aumento da dificuldade para ensinar e aprender. Foi por isso que a National Science Foundation (equivalente ao nosso CNPq) nos EUA financiou, na década de 1990, uma série de projetos em CD-ROM e em laserdiscs, contendo experiências/demonstrações em Física, captadas em vídeo e reproduzíveis em sala de aula pelo professor ou pelos próprios alunos. Várias empresas, seguras de que a tecnologia de laserdisc (12 polegadas, cada um com centenas de breves demonstrações em ciências, ou com “programas” de uma hora de televisão analógica (embora gravados digitalmente) sobre assuntos apropriados para escolas e universidades (O Sistema Solar, Enciclopédia de Animais, Dinossauros, entre muitos outros). Alguns até vieram companhados de livretos com código de barras e um aparelho leitora para que o professor ou aluno pudesse selecionar e ordenar uma apresentação específica a partir do enorme acervo visual/auditivo em cada disco.

Mas a tecnologia captou a imaginação apenas dos educadores norte-americanos e não avançou no resto do mundo. A empresa Pioneer, fabricante das máquinas para ler esses laserdiscs, douou uma dezena delas, com discos educativos, para a Escola do Futuro da USP, que, por sua vez, as distribuiu para escolas públicas e privadas em São Paulo e Santa Catarina; mas nenhuma delas se encantou o suficiente para adotá-las efetivamente nos seus currículos.
A estratégia da Khan Academy não é revolucionária como muitos dizem–é, sim, uma continuação desse esforço na década de 1990 para colocar nas mãos dos próprios alunos “episódios” de ilustração ou de simulação de fenômenos da natureza, além de explicações de processos em matemática, computação, saúde e qualquer outro assunto considerado de extrema complexidade, mas que exige compreensão. É, também, uma continuação do movimento político-educacional de REA-Recursos Educacionais Abertos (Open Educational Resources), que começou, na prática, em 2001, quando a Foundation Hewlett deu o primeiro dinheiro para MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts) para começar a colocar essencialmente toda a sua informação gratuitamente na web. O raciocínio para tal determina que com a digitalização de textos, sons e imagens, fazendo com que a milionésima cópia fosse igual à primeira, nós não poderíamos continuar pensando que estávamos numa sociedade de escassez, mas, sim, numa de abundância, na qual era uma obrigação social mundial, para aumentar o nível de informação e cultura em todos os cantos, disponibilizar conhecimento gratuitamente. Num futuro blog, pretendo mergulhar no assunto de REAs – esse, sim, a revolução paradigmática na qual o trabalho do Khan se insere — porque o Brasil não se empenhou adequadamente até agora.

Quais são os claros benefícios de uso dos materiais da Khan Academy?
1. Podem ser manipulado diretamente pelo próprio aprendiz;

2. Não exigem equipa mentos novos: apenas um computador, tablet ou telefone com acesso à web, preferencialmente via banda larga;

3. Não separam a informação em categorias de discutível utilidade (como, por exemplo, “para ensino médio”);

4. Estão disponíveis 365/7/24 (o ano todo; a semana toda; em todos os horários);

5. Estão oferecidos gratuitamente (pelos menos por enquanto; na semana passada, um serviço similar, Flat World Knowledge, trocou sua política de gratuidade, e agora cobra de usuários);

6. Estão disponíveis em português (graças ao apoio da Fundação Lehman no Brasil), e em inglês para aqueles brasileiros que querem aperfeiçoar seu domínio da língua inglesa comparando as similaridades e diferenças da expressão das mesmas ideias em duas línguas diferentes;

7. Oferecem aos aprendizes a possibilidade de participar em “tutoria por pares”, isto é, cada aluno usando o sistema, combinado com mídias sociais, pode ter seu trabalho corrigido/comentado por outros alunos e corrigir/comentar os trabalhos dos demais;
Quais são as críticas que têm sido lançados contra a Khan Academy, e que podem servir como um aviso para cautela àqueles que querem aproveitar o material, mas não querem arriscar consequências negativas posteriormente? A resposta a esta pergunta será dada na continuação desse texto no próximo post.

Até lá!