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Educação

Aprendizagem nas ondas do rádio

Fredric Litto

31 Agosto 2012 | 12h48

“Quando eu era menino lá em Barbacena…” (brincadeira, gente; era no Brooklyn, Nova Iorque), deve ter sido em 1945, quando eu me encontrava, como todas as crianças do bairro que também estavam com seis anos de idade, na Escola Pública 134, sentadas nas salas da primeira série do primeiro grau. De vez em quando, a professora entrava na sala de aula com uma grande caixa de madeira, um verdadeiro trambolho, debaixo do braço. Era um rádio de freqüência modulada (FM), que servia para enriquecimento das aulas. A Secretaria Munícipal da Educação de Nova York tinha uma emissora de FM própria, que tinha a missão de ir além do conteúdo dos livros-texto e das apresentações de conhecimento dos professores, transmitindo programas de rádio com bons atores, música, efeitos sonoros, tudo organizado na forma de dramatizações de episódios da história, de explicações de matemática e geografia, repetindo e reforçando os conceitos já oferecidos pelo professor na sala de aula.

O rádio, como mídia, estava no seu auge na época — a televisão ainda não estava funcionando como serviço público — e, como tecnologia econômica, tanto para a emissora como para os ouvintes. Mesmo assim, cada lar normalmente tinha apenas um aparelho, servindo aos membros da família assim: de manhã bem cedo, o pai escutava as notícias enquanto tomava café, e antes de sair para o trabalho, com um jornal impresso em baixo do braço para ler no metrô; a mãe e eventuais avôs, depois de despachar os meninos para a escola, escutavam as radionovelas de manhã e à tarde; a partir das 17h, quando a meninada estava cansada de brincar na rua, a programação de rádio era dirigida às crianças e adolescentes (seriados de faroeste, de ficção científica, e de super-heróis); à noite, toda a família se reunia em volta do rádio para ouvir programas de comediantes, radioteatro, documentários sobre a guerra que passou e a guerra fria que estava no horizonte.

Tanto na escola quanto em casa, o rádio exercitava a imaginação dos ouvintes de todas as idades. Televisão, que adicionava imagens aos sons já presentes, acabou deixando a imaginação dos ouvintes em “banho Maria”, sem função, sem ter que fazer força com a mente para transferir os sons de grilos para “ver” um cenário visual da noite num camps virtual/imaginário, sem criar a sua personalizada visão da fisionomia da fisíque do falante.

Assim como Sócrates militava contra a introdução da escrita que, afirmava, ia destruir nossa valiosa capacidade de memória, assim também, a introdução da televisão reduziu a possibilidade de “esticar” a mente do ser humano, de ir além do literal, do batido, do corriqueiro….enfim, de participar ativamente da comunicação, criando, por conta própria, imagens mentais e a movimentação de pessoas e objetos, no cenário virtual da sua mente.

Alguns ano mais tarde, por volta de 1957/1958, eu era aluno do curso de rádio e televisão na Escola de Belas Artes da Universidade de California, Los Angeles (UCLA), onde, como parte das minhas atividades curriculares, tive que servir como ator e técnico de efeitos sonoros na produção de programas educativos de rádio para as escolas públicas de Los Angeles, onde a Secretaria Municipal de Educação também, tinha uma emissora FM. Eu estava construindo minha carreira profissional através da produção de programas que, usando conteúdo de qualidade exemplar e nobre, servia para fortalecer e enriquecer a aprendizagem de jovens, aqueles que iriam tomar conta da sociedade quando a minha geração passasse adiante.

Aqui no Brasil, com a exceção do excelente Projeto Minerva do MEC na década de 1970, e da mais recente programação “A Gente Sabe, A Gente Faz” do Sebrae, não tenho conhecimento de exemplos do uso de rádio para fins especificamente educacionais. Três ou quatro anos atrás, dando palestra para uma conferência de dirigentes brasileiros de “televisão universitária”, perguntei aos vinte e tantos presentes quantos tinham uma programação verdadeiramente educativa — isto é, não essencialmente jornalística ou meramente cultural. Confirmando minha suspeita, todos confessaram que nada ofereceram diretamente com propósito educativo—optavam apenas por jornalismo ou “experimentação artístico-cultural”. Fiquei triste com isso, um caso claro de falta de bom senso na preparação de futuros profissionais de rádio e televisão através do esquema “sejam excêntricos, mesmo antes de ter desenvolvido um “centro”, de prepará-los, como “bucha de canhão”, para se submeterem ao tipo de programação imitativa, redundante, banal, antieducativa que caracteriza o conteúdo predominante do rádio e da televisão brasileira de hoje.

Onde estão as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação, as universidades, as ONGs, as fundações dedicadas à educação, neste cenário melancólico que é a educação básica em nosso país? Depois de quarenta e dois anos de morada nessa terrinha amada, ainda não descobri! Até o próximo!

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