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A Inutilidade de Promover Inovação em Educação no Brasil

Cristiane Nascimento

25 Setembro 2012 | 09h18

Nem quero pensar em quantos milhões estamos gastando na promoção de “inovação” no Brasil hoje: empregos apadrinhados, novos centros de atuação aparelhados, conferências e publicações que são uma mistura de ideias de emprendedorismo e autoajuda. Mas posso garantir que tudo será inútil devido ao ambiente cultural hostil à inovação que reina, e sempre reinou, no País.

Para entender bem essa questão é importante distinguir “criatividade” e “inovação”. A primeira é limitada na sua aplicação, restringindo-se a uma nova maneira de ver, conceber ou interpretar algo; a segunda é ainda mais limitada, confinada apenas àqueles produtos ou processos que obrigatoriamente transformam, para um número grande de pessoas, a maneira de trabalhar ou de viver. A inovação é um atributo que só pode ser afixado a um produto ou processo depois da verificação de sua originalidade e eficácia. É discutível investir milhões para acompanhar sofisticadas pesquisas espaciais quando ainda não dominamos a tecnologia de fazer estradas e ruas sem irregularidades e buracos.

Não tem sentido criar campanhas motivadoras exortando os cidadãos a serem “mais inovadores”, como não teria resultados significativos encorajar jovens que estudam a prática de instrumentos musicais a serem mais “criativos”. O erro é ter expectativas excessivas; ficar desesperado para obter sucesso externo; atribuir o termo “histórico” a qualquer evento corriqueiro; elaborar uma lista de 275 “prioridades”, ignorando o fato de que querer tantas significa não ter nenhuma.

Inovações no Brasil, em geral, são raras porque embutidos na nossa cultura existem valores conservadores, parte da nossa herança portuguesa, permeando todos os setores da atividade humana, procurando manter o “status quo” acima de qualquer outra ação. Cartorialismo. corporativismo, arrogância do Estado com relação a seus cidadãos, a falta do espírito de procura por excelência e, talvez o mais determinante de tudo quando falamos de “inovação”, o conceito de isonomia— não distinguindo indivíduos inovadores (e produtivos) acima dos demais. Em vez de gastar, inutilmente, vastas somas para estimular a inovação, deveríamos usar esses recursos para programas e projetos para diminuir os “muros culturais” que impossibilitam a inovação.

E tem mais: um amigo recentemente contou que, certa vez, jantando com um cientísta norueguês, membro da Comissão Julgadora do Prêmio Nobel, perguntou por que o Brasil ainda não tinha sido laureado. Recebeu a seguinte resposta: “A comissão recebe anualmente numerosas indicações impressionantes de brasileiros de excepcional valor, mas simultaneamente recebe comunicações de outros brasileiros denunciando o caráter duvidoso, ou outra falha de natureza pessoal ou profissional; na dúvida, os membros da comissão acham mais prudente não se arriscar.”

Inovar para ser derrubado por seu colega ou conterrâneo? Para quê? “Mentes Inovadoras Não Pensam do Mesmo Jeito” (“Innovative Minds Don´t Think Alike”) é o título de uma interessante matéria publicada no New York Times de 30 de dezembro de 2007. A autora, Janet Era-Dupree, cita a paradoxal “maldição de conhecimento”: “Na medida em que nosso conhecimento e expertise aumenta, nossa criatividade e capacidade para inovar tendem a diminuir….porque os muros da caixa proverbial dentro da qual pensamos engrossam acompanhando a nossa experiência.” Ela apresenta, também, a aguda observação de Andrew S. Grove, co-fundador da empresa Intel: “É quase impossível olhar além daquilo que você já conhece, e pensar ´fora´ da caixa que você construiu em torno de si mesmo.”.

Em Os Mitos da Inovação (The Myths of Innovation; Sebastopol, Califórnia: O´Reilly, 2007), Scott Berkun desmascara as ideias mais populares sobre as inovações que ocorrem a indivíduos trabalhando em isolamento, as quais chegam na forma de uma epifania, isto é, “da manifestação abrupta da essência ou sentido de algo”, quase uma experiência religiosa. Ele demonstra que inovações na realidade são descobertas resultando do trabalho duro, frequentemente colaborativo, envolvendo riscos e sacrifícios além do ordinário; é necessariamente um ambiente que conduza à mudança, ao progresso.

Inovação em educação? Logo a educação, que, em teoria, está visceralmente comprometida com o conhecimento e ideias, mas tem demonstrado, durante décadas, resistência feroz quando oferecidas oportunidades para experimentar novas tecnologias, novos conceitos baseados nas comprovadas ciências cognitivas?

Deveríamos esperar na educação, que prepara para o futuro, maior disposição para inovação, quando é exatamente nela onde está a menor abertura. É resultado da “maldição do conhecimento”, ou outra causa? Inovação em Educação? Como disse o velho e rabugento Ebenezer Scrooge (no celebrado romance de Charles Dickens, O Conto do Natal, de 1843), ao encontrar algo fraudulento ou uma farsa: “Ora!! Tapeação!!”

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