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Fredric Litto

02 Janeiro 2013 | 08h01

KHAN ACADEMY – FRENTE E VERSO Parte 2

Quais são as críticas que têm sido lançadas contra a Khan Academy, e que podem servir como um aviso para cautela àqueles que querem aproveitar o material, mas não querem arriscar consequências negativas posteriormente? Em vez de “reinventar a roda”, prefiro repetir as mais sucintas expressões de ressalvas com respeito à Khan Academia que encontrei até agora. O blog “Math Learning” (Aprendizagem de Matemática) é de Robert Talbert, professor de matemática na Universidade Estadual Grand Valley, em Allendale, Michigan [http://chronicle.com/blognetwork/castingoutnines/2012/07/03/the-trouble-with-khan-academy/].

No blog do dia 3 de julho de 2012, intitulado “The Trouble with Khan Academy” (O Problema com a Academia Khan), Talbert afirma que não odeia a Academia Khan, nem sente ciúme dela, nem se sente ameaçada por ela. Ele acha que vídeos on-line representam um ideia importante para a educação, mas não se considera “um fã acrítico” da abordagem, e acredita ser obrigatório estudá-la antes de adotá-la como “o futuro da educação”.

Talbert observa que: “Academia Khan não é um substituto para um curso real de estudo da matemática. Não é substituto para um professor vivo. E não é um currículo coerente de estudo que engaja os estudantes em todos os níveis cognitivos nos quais eles deveriam ser engajados. Está satisfatório que não é essas coisas mencionadas. Não entramos num restaurante Mexicano para criticá-lo por não servir macarrão. Eu não critíco Academia Khan por não ser um recurso educacional completo, pois não foi planejada para tal propósito. De novo, Academia Khan é um ótimo recurso para o nicho para o qual foi desenhada. Mas quando você tenta estendê-la fora desse nicho–como Bill Gates e outros muito gostariam de fazer–todo tipo de coisas desanda.”

Ele continua: “Academia Khan é uma coleção de palestras em forma de vídeos que fazem demonstrações de processos mecânicos….em geral, são bem feitos. Sal Khan é a causa principal; ele é simpático e tem um jeito para fazer com que processos mecânicos pareçam compreensíveis….Seus vídeos não são perfeitos. Ele tende a divagar e a ser dispersivo; não usa apoios visuais com eficácia tanto quanto poderia; frequentemente é descuidado e às vezes absolutamente errado no seu uso da matemática; e eventualmente é omisso quando se trata de incluir tópicos que certamente deveriam estar lá (por exemplo, decomposição LU em álgebra linear)….Quando dizemos que alguém tem “aprendido” uma matéria, tipicamente queremos dizer que foram apresentados evidências de competência não apenas de processos cognitivos básicos (como a recordação fatual e a solução de exercícios mecânicos), mas também tarefas de mais alto nível, como a aplicação de conceitos a novo problemas, além do julgamento entre conceitos equivalentes. Um estudante aprendendo cálculo, por exemplo, precisa demonstrar que consegue executar ações como tomar derivativos de polimoniais e usar a Regra da Cadéia. Mas, se for apenas isso que o/a estudante pode demonstrar, então é um exagero dizer que o/a aluno/a tem aprendido cálculo, porque cálculo é muito mais do que meramente executar processos mecânicos corretamente e com rapidez….[Dizer isso] é adotar uma definição empobrecida do assunto, que torna uma grande busca intelectual uma coleção de truques de festa.”

Talbert conclui: “Academia Khan pode fazer um papel útil na aprendizagem de cálculo ou de outro assunto. Não nego que habilidade mecânica é importante para chegar até as tarefas cognitivas de mais alta ordem. Mas habilidade mecânica é apenas um subconjunto do conjunto de todas as tarefas que um estudante precisa dominar para realmente aprender uma matéria. E uma palestra, quando bem feita, pode ensinar a aprendizes novatos a maneira de pensar como aprendizes experts; mas, na minha experiência com os vídeos da Academia Khan, não é isso que acontece–os vídeos são demonstrações sobre como executar exercícios de matemática, com pouca modelação das habilidades de pensamento de mais alto nível, que são tão importantes para o uso da matemática no mundo real….Os tipos de objetivos de aprendizagem focalizados nos vídeos da Academia Khan são importantes–mas não são suficientes. E fico preocupado quando dizem que são suficientes, que os vídeos da Academia Khan são ótimos porque “funcionam”, e redefinem matemática como o estudo de procedimentos para executar cálculos-a-mão e ser aprovado em exames de matemática.”

Um outro comentarista agudo, Justin Reich, professor do MIT, oferece ainda outras observações que merecem consideração

[http://blogs.edweek.org/edweek/edtechresearcher/2012/08/khan_critiques_we_were_promised_jetpacks_got_lectures.html?cmp=SOC-SHR-TW]:

“Fomos Prometidos Jetpacks [propulsores a jato, vestidos sobre a roupa, permitindo o usuário a voar] e Recebemos [Apenas] Palestras….Minha lamentação principal era esta: Estamos numa época revolucionário de produção de mídia de baixo custo e de compartilhamento. Gates e Google tem dado milhões e milhões de dólares à Academia Khan, e o que eles a mostrar em troca são versões on-line de palestras, gabaritos [templates] e dispositivos adesivos [badges]. Puxa! Fomos prometidos propulsores a jato! A mídia disse que isso era o futuro da educação….No seu formato atual, a Academia Khan aceita a premissa segundo a qual os principais “blocos de construção” de educação matemática são: 1) palestras didáticas, 2) gabaritos [espaço destinado à solução on-line de problemas práticos] para demonstrar proficiência e avaliar estudantes, 3) adesivos (estrelas, pontos) para motivar estudantes, e 4) professores para entrar em ação como técnicos [coaches] quando os estudantes se embaralham….Esses elementos são comuns na educação matemática….e, por serem imediatamente reconhecidos a todos, facilitam o sucesso da Academia Khan….mas não representam uma revolução”.

Reich cita muitos críticos das estratégias usadas nos vídeos produzidos pela Academia, os quais, coletivamente, sugerem que Khan ignora uma vasta literatura científica sobre o ensino de matemática e repete os conhecidos erros dos métodos americanos para a matéria, que enfatizam a aprendizagem de algoritmos [procedimentos], em vez das abordagens comuns no Japão, Finlândia e em outros países que se destacam favoravelmente nos exames internacionais. Nestes,

“….a instrução começa com perguntas em vez de instrução em procedimentos….e procuram desenvolver a disposição de solução de problemas, a capacidade de identificar informação relevante e de prever resultados, de testar hipóteses, e, em geral, de engajar a curiosidade inata dos estudantes sobre o mundo em torno deles….Será que estamos usando a tecnologia para fazer coisas antigas apenas com maior eficiência, e não procurando fazer coisas novas?….Embora a comunidade de educadores de matemática tem uma riqueza incrível de conhecimento, com nuanças, dos tipos de mal ententidos [misconceptions] que estudantes frequentemente encontram, e dos tipos de erros instrucionais que professores novatos cometem nos primeiros dias da sua instrução….a Academia Khan não se apropriou dessa experiência, e caiu em erros pedagógicos banais….Desenvolver essas estratégias, com nuanças, leva tempo; e se Khan tivesse gasto as horas necessárias estudando a pedagogia de matemática, talvez não tivesse tido o tempo para produzir seus 3.000 vídeos”.

Reich conclui criticando o seguinte argumento: “Muitas pessoas gostam desses vídeos [187 milhões de ´aulas´ realizadas], então devem ser bons”. A primera e mais simples resposta seria: “quantidade ou popularidade não são iguais a qualidade”. Mas ele cita outras pesquisas demonstrando que vídeos “simples, digestivos e populares” não necessariamente são aqueles que instruem melhor, levando à compreensão conceitual mais profunda”.

Reconhecendo que o conteúdo da Academia Khan “não é um produto acabado”, Reich torce que o feedback que recebe ajuda Khan a melhorar cada vez mais seu trabalho. Ele elogia Khan por seu espírito filantrópico (não vendendo seu ONG para interesses comerciais, e mantendo uma retirada pessoal modesta, apesar das grandes doações regularmente recebidas pela Academia).

Além das fontes de informação citadas até aqui, os curiosos podem obter ainda mais detalhes sobre esses assuntos educacionais tão importantes e que extrapolam o caso da Academia Khan, nos seguintes sites:

1. http://larryferlazzo.edublogs.org/2011/11/20/the-best-posts-about-the-khan-academy/

2. http://www.washingtonpost.com/blogs/answer-sheet/post/khan-academy-the-hype-and-the-reality/2012/07/23/gJQAuw4J3W_blog.html

Talvez alguns se lembram de história da tecnologia educacional: no início do século XX, Thomas Edison sugeriu que o advento do cinema iria modificar para sempre a aprendizagem nas escolas, pelo seu poder de “levar” os alunos a lugares distantes no tempo e no espaço. Ele tinha razão em parte: hoje, com vídeos e a web, temos a capacidade de levar os alunos para além do seu confinamento na sala de aula convencional; mas, em parte, sua previsão não frutificou: parece que ainda não descobrimos o jeito certo de fazer a confluência desses suportes para a aquisição de conhecimento junto com outros meios já em uso e de comprovada eficácia. Não há “balas mágicas” [soluções simples e arrasadoras], ou soluções estanques garantidas. Mas não podemos parar de procurar parciais para os nossos problemas relacionadas à aprendizagem. Ficar com os braços cruzados, vítimas de uma “paralisia paradigmática”, aguardando “a solução integrada perfeita”, também não!

Até a próxima!

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