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Uma experiência bem-sucedida com adolescentes

Em um ano, os participantes do Macth, em Chicago, reduziram a um terço a diferença entre o desempenho deles e dos estudante brancos

Roberto Lobo

09 Fevereiro 2015 | 14h32

Artigo publicado no The New York TImes no dia 1.º de fevereiro mostra uma experiência realizada em Chicago da qual se pode tirar várias lições. O texto começa descrevendo que, em uma determinada tarde, um grupo de adolescentes em uma High School (ensino médio) fazia barulho no corredor, mas que uma das salas estava silenciosa.

Esse grupo de estudantes é parte do conjunto (os de origem afro-americana e latina) que está entre os mais mal avaliados nos exames nacionais. Eles tiveram desempenho durante a 8.ª série semelhante aos brancos da quarta série. Além disso, as taxas de evasão são alarmantes para o padrão americano: somente 60% dos estudantes dessas etnias se formam no tempo esperado, contra 80% dos estudantes brancos.

Apesar das várias tentativas para melhorar esses índices, nada parecia dar certo. Até agora.
Estudantes que passaram por esse programa, chamado “Match”, são os que estavam justamente naquela sala silenciosa que o artigo descreve. Nela, 16 adolescentes da 9.ª e 10.ª séries do ensino básico de origem afro-americana e latina trabalhavam em silêncio divididos em grupos de dois. Para cada grupo havia um tutor. Há em Chicago mais de dois mil estudantes recebendo essa educação especial em Matemática, todo o dia, durante uma hora.

Por causa do “Match”, em um ano os participantes reduziram a um terço a diferença entre o desempenho deles e dos estudante brancos. Esse sucesso foi transplantado para outras disciplinas, onde o desempenho também melhorou.

Diferentemente de países no norte europeu, com populações muito menores, homogêneas e com uma renda mais bem distribuída, os EUA – apesar da alta produtividade e renda per capita – apresentam uma desigualdade econômica muito maior que a daqueles países (embora menor que a brasileira), devido à herança escravagista e à imigração mais recente.

Nesse sentido, os EUA estão mais próximos de nós e suas boas experiências podem nos servir de inspiração. A maior diferença, em minha opinião, é que nos EUA os pais se preocupam muito mais com a educação de seus filhos, havendo grandes diferenças até nos valores dos imóveis se a região tem uma escola pública de excelência, algo muito distante do que ocorre na realidade dos bairros de quase todas as cidades brasileiras.

A experiência de Chicago mostra que a obsessão voltada para o real sucesso dos alunos – mesmo que seja necessária a priorização orçamentária para a educação por meio do sacrifício de outras prioridades – pode ajudar de fato a resolver problemas considerados antes como insolúveis.
Duas teses se tornam questionáveis diante dessa experiência:

1- Não é verdade que estudantes com problemas graves de deficiência de aprendizagem estejam condenados a optar por profissões ligadas ao trabalho mais prático e serem formados para um mercado de trabalho menos sofisticado. A formação técnica deve continuar para os que têm essa vocação, e merecem o mesmo respeito que os demais – não por falta de oportunidade para prosseguirem em estudos mais acadêmicos.

2- Estudos recentes mostram que o aprendizado continuo e mudanças na forma de aprender podem ser adotadas para adolescentes, tanto quanto em crianças mais jovens, e ajuda a levar alunos antes com mal desempenho a terem grande sucesso. Recentemente, neurocientistas demonstraram que essa fase da vida tem alta neuroplastia, durante a qual o cérebro tem grande capacidade de aprendizado. Não é portanto verdade que depois de certa idade o adolescente terá sempre dificuldade de reduzir seu “gap” educacional.
Esse tipo de experiência (e muitas outras que representam real esforço de todos os envolvidos com o aprendizado e os resultados concretos dos alunos) justifica o investimento na educação em todos os níveis e mostra que se o Estado decidir trabalhar obsessivamente nessa direção, ganhos extraordinários podem ser alcançados em pouco tempo. Embora a experiência tenha escala limitada e necessite de uma análise de mais longo prazo, ela merece e nos leva a uma reflexão.

Projeto semelhante poderia ser implantado no Brasil se pudesse, por exemplo, contar com o apoio de nossos estudantes universitários, como um serviço à sociedade.

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