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Por autonomia e ‘amor próprio’, USP precisa de gestão e austeridade

Não é a primeira vez que as universidades passam por crises financeiras. Só que depois da autonomia, elas perderam a perspectiva de recorrer ao “pai rico”, no caso o Estado de São Paulo, porque estouraram o cartão de crédito

Redação Estadão.edu

20 Junho 2014 | 19h41

A Universidade de São Paulo (USP) e suas coirmãs estão passando por séria crise financeira. Gastam mais do que o orçamento estadual, ou quase, dependendo do caso, com salários. Não é a primeira vez que as universidades passam por crises financeiras. Só que depois da autonomia, elas perderam a perspectiva de recorrer ao “pai rico”, no caso o Estado de São Paulo, porque estouraram o cartão de crédito. Ou ao menos deveriam desconsiderar essa perspectiva, se desejarem manter um mínimo de autonomia e amor próprio.

Crises financeiras em entidades públicas decorrem de crises macroeconômicas nacionais ou por má gestão e planejamento equivocado. Quando assumi a reitoria em 1990 tivemos uma forte crise conjuntural com a posse do presidente Fernando Collor de Mello e o congelamento das poupanças, seguido de uma forte recessão. Caiu o ICMS e a USP perdeu importante receita financeira, chegando a ter que atrasar o pagamento de salários – experiência terrível para todos, especialmente para quem tinha a responsabilidade de gerir a universidade. Mas medidas foram tomadas, inclusive duras medidas, e em três anos a USP estava saudável e com capacidade de iniciar um fundo de poupança.

A outra receita para a crise financeira parece ser a que presenciamos agora: distribuição de benesses, aumentos acima da inflação sem lastro financeiro, planejamento inconsequente que compromete verbas de custeio e investimento com pessoal. A reitoria, recém empossada, recebeu essa herança difícil.

Propostas surgem, como surgiram em 1990, para resolver o problema e vão desde suspender o corte da grama (grande economia!) até pedir mais orçamento ao governo. Fala-se novamente em pedir aumento do orçamento em troca de um aumento das vagas, o que não vai resolver o problema e ainda resulta no inchamento das universidades, sem um planejamento acadêmico compatível, na mera tentativa de cobrir os rombos de caixa (leia mais aqui). Receitas mirabolantes rondam os corredores, até mesmo uma torcida pela volta da inflação, que prejudicaria os assalariados do país inteiro! É como torcer por um terremoto que enterrasse seu credor!


Para manter a dignidade e a autonomia a duras penas conquistada, a USP precisa fazer um planejamento de engenharia financeira, duro mas justo, cortando desperdícios e avaliando gastos que podem ser postergados, suspender novas contratações e promoções, entre outras medidas que só quem tiver à mão os dados financeiros da universidade será capaz de definir.

São medidas desgastantes, sim. Mas é responsabilidade das lideranças assumirem inclusive o desgaste político de medidas impopulares. Afinal, não foram indicados, mas se candidataram aos cargos e esses são alguns dos ossos do ofício.

Confio que a atual reitoria tem a disposição e a competência para superar mais essa crise.