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O Brasil não fala inglês

Cristiane Nascimento

27 Julho 2012 | 16h09

Um dos problemas que o Brasil enfrenta para participar da sociedade globalizada do século 21 é o nosso gritante despreparo no domínio do idioma universal de hoje, o inglês. A imprensa vem relatando como a falta do domínio do inglês está dificultando nossos programas de intercâmbio, como o Ciência Sem Fronteiras do governo federal. Duas pequenas histórias vividas por mim recentemente ilustram esta realidade.

Em abril deste ano estive visitando a Universidade de Miami e conversava com um importante gestor da instituição sobre a ampliação do intercâmbio da universidade com o Brasil, uma vez que Miami é a principal porta de entrada de brasileiros nos EUA. Ele se mostrou pouco interessado e explicou que a barreira da língua fazia com que o Brasil não fosse colocado entre as prioridades da universidade: os estudantes que vinham dos EUA não encontravam quase colegas ou professores que falam inglês, não havia cursos dados em inglês por aqui e a população tinha enorme dificuldade em entendê-los.

Embora esse comentário soe como a voz do império comentando a província, uma vez que a recíproca também é verdadeira e não inviabiliza nosso desejo de intercâmbio, é preciso reconhecer que em um mundo competitivo em que as universidades americanas (e outras em que o inglês é a língua majoritária) são muito procuradas, a visão delas é de priorizar as soluções com maior probabilidade de sucesso. Para esse gestor, a cooperação de uma via, do Brasil para os EUA, é a única que suscita o interesse daquela universidade. O resto fica, então, por conta de relações individuais entre pesquisadores.

Segunda história: conversando recentemente com uma jovem filha de brasileira que reside na Suécia, indaguei quantas pessoas de sua classe de 2º grau na Suécia não falavam o inglês correntemente. Ela me respondeu que nenhuma. Não foi surpresa, porque já sabia que o mesmo ocorria em muitos outros países europeus. Quis saber como isso acontecia, uma vez que no Brasil os estudantes têm a disciplina de inglês por vários anos e não sabem nada ao final. A explicação da diferença veio logo: “Nós temos uma parte das atividades escolares, inclusive jogos, feitas em inglês desde que ingressamos no colégio. Em pouco tempo todos falam o inglês coloquial correntemente e lêem inglês sem problemas.”


Uma das características das universidades de classe mundial, aquelas que são reconhecidas internacionalmente como a elite acadêmica do mundo, é ter na comunidade acadêmica um grande componente de internacionalização, seja de professores ou de alunos. Vários cursos são dados em inglês. O inglês é língua corrente nessas instituições.

Enquanto o Brasil não se convencer de que o conhecimento do inglês pela sua população é um enorme obstáculo, qualquer programa de inserção e competitividade internacional vai ficar incompleto.

Isso vale também para quem não quer estudar no exterior, mas ter um bom emprego. As empresas hoje já estão até exigindo uma terceira língua, pois o inglês já é considerado requisito obrigatório e básico.

Melhorar nosso inglês não significa, é claro, desvalorizar a língua portuguesa que esperamos que um dia, quiçá, possa ter a mesma influência que o inglês tem hoje (como já foi o grego, o latim, o francês, o alemão, etc). Mas atualmente, sem o inglês, nós seremos preteridos como parceiros prioritários. É um problema de Estado.