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O Básico Do Básico Parece Que Ainda Não É Prioridade Máxima No Ensino Superior Brasileiro

Roberto Lobo

21 Janeiro 2018 | 23h15

 

O Básico Do Básico Parece Que Ainda Não É Prioridade Máxima No Ensino Superior Brasileiro

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                                                         21 de janeiro de 2018

 

Em reportagem da Folha de São Paulo de 21/1/2018, o presidente da HP Brasil, Claudio Raupp, afirma que programar e falar inglês são competências básicas para profissionais capazes de promover a transformação das indústrias brasileiras. Não poderia estar mais certo.

No Brasil esses profissionais ainda têm pouca demanda devido à pequena ambição em alcançarmos uma competitividade internacional. Quando, há mais de vinte anos, ao fazermos o planejamento acadêmico da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC)nos perguntamos: “Se um empresário quiser saber porquê ele deveria contratar um profissional formado na UMC, o que poderemos responder em uma frase?”, depois de semanas de discussão definimos que a resposta seria: “Porque todo egresso da UMC domina as três linguagens essenciais: o português, a informática e o inglês” e foi incorporado a todos os projetos pedagógicos de cursos.

Criou-se para isso um programa especial o “PLPI”, para ensinar de forma prática e objetiva estas linguagens para uso técnico. Houve mudanças na UMC e este projeto não teve continuidade, o que foi pena, mas pior é que esse programa mínimo não faz parte, até hoje, do que seria o núcleo essencial do ensino superior, não somente na área tecnológica, mas em todas as áreas que tem âmbito global.

Há uma acomodação e uma preguiça de forçar os estudantes a aprenderem estas linguagens para valer, utilizando-as no seu dia a dia acadêmico. Vinte anos de atraso, no mínimo.

Quem tiver a coragem de incorporar essa formação básica em seus programas de graduação sairá muito na frente de suas concorrentes e estará fazendo um grande benefício para o Brasil, como exemplo a ser seguido. Não é simples, exige muito planejamento e obstinação, incluindo a particpação docente, mas é uma necessidade inescapável.

Até quando vamos esperar por isso?

Transcrevo abaixo a matéria da Folha pela sua importância para a Educação Superior brasileira.

 

“Programar e falar inglês é o básico, diz presidente da HP

TATIANA VAZ

DE SÃO PAULO

21/01/2018 02h00

O presidente da HP Brasil, Claudio Raupp, conta que nos Estados Unidos e na Europa já há falta de especialistas em robótica. “Novas áreas tecnológicas são a base da transformação de diversas indústrias, e faltam profissionais”, diz ele.

No Brasil, isso não ocorre. Não porque o país esteja formando um número adequado de trabalhadores na área, mas por estar tão atrasado que não está criando vagas em robótica.

“O risco de o Brasil não ter uma agenda orientada para o desenvolvimento da manufatura avançada é que os melhores postos vão migrar para fora do país”, diz Raupp, em entrevista sobre como a tecnologia está mudando as empresas e os trabalhadores.*

Revolução digital

O que está acontecendo hoje é a mudança no eixo dos polos de manufatura. No passado, houve a migração de fábricas para países que tinham infraestrutura e mão de obra mais barata. O que importava era diminuir custos.

Vimos, então, uma imensa migração de negócios para a Ásia, incentivada por ações governamentais. China e Índia se desenvolveram muito com isso.

Porém, à medida que a era digital amadurece, novos elementos entram na equação dos negócios: automação industrial, big data, inteligência artificial, impressão 3D. Não é apenas uma questão de custos, mas de que tipo de relação as empresas terão com os consumidores. As companhias querem, precisam de pessoas que saibam trabalhar com essas novas tecnologias.

 

Habilidades essenciais

Vão se destacar os profissionais que entreguem o que as máquinas não conseguem: análises e questionamentos. Vão desaparecer as funções baseadas em buscar e organizar dados.

Essa revolução já começou. Temos hoje call centers atendidos por robôs e bancos totalmente digitais, um conceito impensável no passado. Como sociedade, é preciso investir na educação e questionar se os cursos que as pessoas frequentam estão voltados para o mercado de anos atrás ou olhando para a frente.

O presidente-executivo da Apple, Tim Cook, afirmou que aprender a programar é mais importante que ter um segundo idioma. Concordo com ele. Para os brasileiros, é preciso saber inglês e programação.

Riscos para o Brasil

Ao contrário do que ocorria antes, os profissionais não precisam estar ao lado das máquinas nas fábricas para criar ou operar. Eles podem trabalhar de qualquer lugar do mundo. O risco de o Brasil não ter uma agenda orientada para o desenvolvimento da manufatura avançada é que os melhores postos de trabalho, nesse contexto, vão migrar para fora do país, o que seria ruim para todos. O Brasil precisa pensar nas questões educacionais, regulatórias, tributárias e de propriedade intelectual que emergem dessa nova era.

Hoje, a peça original de um carro, por exemplo, é feita na linha de produção de uma fábrica. Se um cliente precisa trocá-la, vai a uma concessionária. Com a impressão 3D, será possível baixar um software com o desenho industrial da peça e imprimir em casa. Esse, aliás, é um tipo de serviço que já está disponível às montadoras. Como proteger a autoria da peça?

Escassez profissional

Nos mercados que já estão mais avançados nessa transformação digital, como Estados Unidos e Europa, já há carência de profissionais especializados. Isso porque essas novas áreas tecnológicas são a base da transformação de diversas indústrias, como a automobilística, a aeronáutica, a aeroespacial, a de bens de consumo e a médica.

No Brasil, não temos falta de especialistas em robotização e automação porque estamos muito atrás da Europa, da Coreia do Sul e da Alemanha na corrida da manufatura avançada. Ou seja, como país, não estamos avançando na devida velocidade para tirar proveito da oportunidade e, principalmente, evitar o risco de perder profissionais.

Menos distração

O Brasil tem um grande parque industrial e uma grande oportunidade de ser mais competitivo. Infelizmente está muito distraído há alguns anos com questões políticas, de corrupção, de troca de governo… precisamos de estabilidade para o tema ser colocado numa agenda mais forte, com vários movimentos feitos de forma coordenada por governo, sociedade e empresas.”