Dez Ações + 1 Para Baixar A Evasão No Ensino Superior
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dez Ações + 1 Para Baixar A Evasão No Ensino Superior

Roberto Lobo

12 Outubro 2017 | 23h50

Dez Ações + 1 Para Baixar A Evasão No Ensino Superior

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                              12 de outubro  2017

 


A evasão escolar é um fenômeno que, embora bastante estudado, não tem sido combatido com a importância que representa para o desempenho acadêmico, financeiro e de imagem de uma instituição de ensino superior (IES).

Uma faculdade que consiga baixar a evasão anual de 20% para 15%, por exemplo, é capaz de aumentar em 8% seu faturamento! Isso não é pouco!

O desperdício de recursos decorrente da evasão tanto nas IES públicas como privados são da ordem de mais de dez bilhões de reais. Muitas ações de combate à evasão têm tido sucesso, embora muitas vezes sejam abandonadas por várias causas, como mudança na direção da instituição, do pessoal responsável, ou de prioridades de alguma gestão.

Sem abandonar os “remédios” já conhecidos, não se deve ignorar que um bom um programa de combate à evasão precisa abranger toda a instituição e requer formas rápidas e eficazes de comunicação, e, para isso, o uso das novas tecnologias, como as mídias sociais, precisa ser priorizado.

Por essa razão, neste texto se mencionam 10 ações tradicionalmente bem-sucedidas no combate à evasão estudantil, acrescendo mais uma: um eficiente sistema interno de comunicação, onde se ressalta a importância dessa tecnologia para o combate ao problema de evasão, mas que, na verdade, representa um decisivo apoio ao aperfeiçoamento acadêmico e gerencial da instituição como um todo.

 

ESTUDOS INTERNACIONAIS DA EVASÃO ESTUDANTIL

Muitos são os estudos internacionais sobre as causas da evasão nas instituições de ensino superior, principalmente nos Estados Unidos.

Sugestões e levantamentos de boas práticas já compõem uma extensa bibliografia, embora ainda pouco aplicadas e, consequentemente, sem que se obtenha os resultados que seriam de se esperar se as instituições tivessem esse tema como uma prioridade em seu planejamento e atuação, porque tanto professores quanto gestores tendem a colocar o problema da evasão sob a responsabilidade de agentes externos à instituição.

Os estudos mais sérios e consistentes no mundo são do professor Vincent Tinto, o mais conhecido autor no tema e que trabalha no modelo de integração estudante-IES.

Para explicar as causas da evasão, ele expandiu o trabalho de Spady, incluindo na teoria do suicídio a teoria da troca: o ser humano evita comportamentos muito custosos e procura status, relacionamentos, interações e estados emocionais compensadores.

O estudante aplica a teoria da troca para determinar sua integração acadêmica e social. Se ele perceber que os benefícios que recebe são maiores do que os custos, ele permanece. Caso contrário, ele se vai”, afirma Tinto. Da mesma forma, ele indica: “Quanto maior o comprometimento do aluno, com a instituição e com os seus próprios objetivos, e elevado o seu nível de integração acadêmica e social, menor a probabilidade de evasão

Tinto nos dá, portanto, a grande pista, ainda pouco aproveitada pelas IES, especialmente no Brasil e demais países da América Latina e muitos da Europa.

PERDAS DE RECEITA PELA EVASÃO

No Brasil, as taxas de evasão vêm se mantendo aproximadamente constantes ao longo dos últimos 15 anos, com pequenas variações de ano para ano, ficando aproximadamente em 22%, menor para o setor público e maior para o privado.

Tomando como exemplo uma evasão anual de 20% é possível mensurar a perda das receitas de mensalidades ao longo do ano.

Isto porque uma evasão de 20% ao ano em turmas com ingressos de 100 estudantes para um curso de 4 anos, admitindo uma evasão constante em cada série, representará ao invés de 400 matrículas pagantes no total do curso, somente 297, o que significa uma perda de receita, só com mensalidades, de 27%. Ainda é preciso considerar, para o setor privado principalmente, a perda do investimento realizado para atrair o estudante para a instituição. Sem falar a perda social que a evasão representa e o risco desse indicador influir de forma relevante nas avaliações dos órgãos de fiscalização governamentais.

Já uma redução do coeficiente de evasão de 20% para 15% geraria uma receita adicional de 8% nesse mesmo curso. Se para reduzir a evasão a esse novo patamar a IES estivesse gastando 2% do valor das mensalidades por aluno, ainda assim teria um aumento do resultado líquido de 6%, além da melhoria de seus indicadores junto ao MEC e aos diferentes rankings acadêmicos.

DEZ MEDIDAS DE COMBATE À EVASÃO

Após mais de uma década de estudos sobre o tema e baseados nos estudos internacionais e nacionais levantados pelo Instituto Lobo, apontamos aqui as 10 medidas consideradas mais eficazes no combate á evasão no Ensino Superior:

1 – ESTABELECER UM GRUPO DE TRABALHO ENCARREGADO DE COMBATER A EVASÃO – levantar níveis de satisfação dos alunos e estabelecer estratégias e coleta de informação, de comunicação e de programas acadêmicos capazes de aumentar a integração e a recuperação dos alunos novos, criando grupos de estudo e tutorias.

2 – ANALISAR ESTATISTICAMENTE O FENÔMENO DA EVASÃO – levantar as principais razões enunciadas pelos estudantes, identificar as características das populações de risco e as épocas mais críticas da evasão, comparar prioridades dos alunos com avaliação dos serviços educacionais, administrativos e comunitários. Comparar com estudos semelhantes realizados em agências educacionais, consultorias, artigos acadêmicos e outras instituições – criar uma cultura do benchmarking (usando as melhores práticas).

3 – CRIAR PROGRAMA DE ACONSELHAMENTO E ORIENTAÇÃO DOS ALUNOS – pró ativo e permanente, atendendo ao aluno individualmente e coletivamente onde ele estiver, baseado em acompanhamento presencial e a distância, permanentemente, 7 dias-24 horas.

4 – ENVOLVER TODA A COMUNIDADE ACADÊMICA NO COMBATE À EVASÃO ESTIMULANDO A VISÃO CENTRADA NO ALUNO – a evasão é um prejuízo financeiro e acadêmico que afeta a todos sendo, portanto, da responsabilidade de todos se mobilizarem para minimizar o problema, aumentar o envolvimento de todos os segmentos, coordenadores, professores e funcionários tendo em vista o sucesso e bem-estar dos alunos. Criar uma estratégia para contar com a participação dos pais para redirecionar o estudante antes da tomada final de decisão de abandonar a instituição.

5 – CRIAR CONDIÇÕES QUE ATENDAM AOS OBJETIVOS QUE ATRAÍRAM OS ALUNOS E APRESENTAR CASOS POSITIVOS DE SATISFAÇÃO – criar um ambiente social e academicamente agradável, criando meios de comunicação que integrem os estudantes e os demais segmentos da IES, como professores, pais, ex-alunos, administradores em uma rede de comunicação que utilize os sistemas mais atuais, semelhantes ou superiores aos que os alunos dispõem em suas próprias casas. Divulgar casos de sucesso de ex-alunos.

6 – CRIAR UM SISTEMA DE INFORMAÇÃO SOBRE ATIVIDADES EXTRACURRICUARES NO CAMPUS – tornar as informações sobre oportunidades para atividades culturais, esportivas e acadêmicas facilmente accessíveis a todos por meio de um eficiente sistema de comunicação.

7 – FLEXIBILIZAR CURRÍCULOS AFIM DE ATENDER ÀS MOTIVAÇÕES E APTIDÕES PROFISSIONAIS DOS ESTUDANTES E FACILITAR TRANSFERÊNCIAS ENTRE CURSOS – a falta de motivação dos estudantes diante de um currículo rígido é sabidamente uma das causas da evasão estudantil. A descoberta de uma nova profissão para a qual o aluno não tem permissão de se transferir por razões burocráticas gera grande frustração nos estudantes.

8- MODERNIZAR A FORMA DE MINISTRAR CURSOS – os estudantes não mais aceitam permanecer passivamente durante horas assistindo sucessivas aulas em que ele não tem nenhuma participação. A mudanças de metodologia se tornou imperativa, com a utilização de diferentes modelos que vem sendo testados com sucesso, e forte utilização dos meios modernos de comunicação e coleta e análise de informação. Alocar professores experientes nos primeiros anos do curso.

9 – INTRODUZIR ATIVIDADES LIGADAS À PROFISSÃO DESDE O INÍCIO DO CURSO – a famosa fase das disciplinas básicas, totalmente desligadas das aplicações práticas ligadas à profissão escolhida pelos alunos por anos a fio, se esgotou.

10 – ESTIMULAR PARA O DESENVOLVIMENTO DE ATITUDES INOVADORAS E EMPREENDEDORAS NOS ESTUDANTES – as profissões tradicionais não são mais seguras, as empresas não são portos seguros para seus funcionários, e a nova geração de estudantes sente que precisa adquirir autonomia de pensamento e de ação, buscando com persistência novas soluções para problemas da sociedade e suas próprias vidas.

+ 1 – A COMUNICAÇÃO 

Ao se analisar os dez pontos anteriormente descritos, verifica-se que todos exigem uma ferramenta que represente a adoção de um moderno sistema de comunicação e de informação para atender aos objetivos descritos. Como estas soluções tecnológicas só recentemente se tornaram viáveis e não constam das tradicionais ações de combate à evasão estudantil analisadas por TINTO e tantos outros pesquisadores, nós a designamos como +1, pois vão além das iniciativas mais tradicionais e apoiam e aprimoram todas as outras dez ações, de várias formas.

+1.1 – UMA MÍDIA SOCIAL INSTITUCIONAL- Não é mais aceitável que uma instituição de ensino superior não ofereça à sua comunidade, e em particular a seus alunos, um meio de comunicação que adote uma tecnologia ao menos tão avançada quanto o que os estudantes usam em casa ou em seus celulares. Uma media social interna à instituição pode atender a todos os segmentos viabilizando de forma eficaz as ações de combate à evasão, além de poder atender a muitas outras exigências institucionais e deve atender e integrar, controladamente, os diferentes segmentos da instituição: alunos, professores, funcionários, administração, pais, ex-alunos, comunidade externa.

+1.2 – SISTEMAS  INTELIGENTES – adaptados a cada instituição, capazes de acompanhar o desempenho de alunos, professores e dos cursos, identificando pontos a melhorar, estudantes com dificuldades acadêmicas ou sociais, prováveis repetentes ou evadidos, professores com dificuldades de relacionamento com os estudantes ou com dificuldades pedagógicas. Esses programas aprendem com a própria experiência e dados coletados, daí serem denominados sistemas inteligentes.

+1.3 – LMS (Learning Management Systems), aplicações de software para a administração, documentação, acompanhamento, relatando e fornecendo tecnologia de informação eletrônica (e-learning) para cursos ou programas de treinamento. Cada vez mais importantes para os chamados cursos blended, onde o ensino totalmente presencial é substituído por atividades online, com o objetivo de aproveitar as vantagens de cada estilo de ensino. Sistemas inteligente tenderão a favorecer a criação de redes de aprendizagem na internet, como previsto pelo economista Clay Christensen, da Universidade de Harvard, e adaptando o mais possível a metodologia do ensino – aprendizagem às características de cada aluno. No ensino de Engenharia, Richard Felder já propunha, há muitos anos, o estudo dos estilos individuais de aprendizado de cada aluno para tornar a educação em Engenharia mais eficiente.