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As crenças religiosas entraram nas eleições presidenciais de 2014

Nesse embate, citam-se cientistas como Einstein e Darwin, tanto para confirmar quanto para desqualificar a religião

Redação Estadão.edu

17 Setembro 2014 | 14h00

Desqualificações de candidatos, criacionistas (ou não), ajudam a levantar os fundamentos religiosos para embasar a argumentação sobre questões como o aborto e o consumo de drogas.

Nesse embate, citam-se cientistas como Einstein e Darwin, tanto para confirmar quanto para desqualificar a religião, e apelam para a importância da “opinião” de cientistas renomados para condução das questões que envolvem, inclusive, a moral e a ética.

Um Einstein “religioso” é citado repetidamente para mostrar que até o maior cientista da história tinha suas crenças, muitas vezes apoiando-se em frases atribuídas a ele (que nesse caso é verdadeira) como “Deus não joga dados”.

Os teístas asseguram que ela é uma clara manifestação da religiosidade do grande físico. Os ateus consideram a frase no sentido figurado, similar a “Deus me livre”, ou seja, sem compromisso com qualquer fé!

Como veremos, os primeiros estão mais próximos do pensamento de Einstein! Mas vamos com calma, porque vai “sobrar” muito para todas as religiões estabelecidas.

Na verdade, a leitura das manifestações de Einstein sobre a religião em sua correspondência e em seus livros permite vislumbrar seu entendimento da questão, em especial para quem não busca a defesa de um só lado.

Einstein, na verdade, desqualifica a religião baseada na visão de um Deus pessoal, um super-homem (ou seja, criado à imagem idealizada do ser humano) criador do universo que possui uma determinada personalidade e que mantém constante interação e interferência no que acontece com pessoas e outros seres. Ele repudia a religião autoritária e dogmática, os catecismos supersticiosos e oportunistas.

Para ele, Deus é algo superior que criou as leis do universo, que se mostra com uma beleza e uma organização que só uma mente superior poderia conceber. Isso para Einstein é tudo e nada, ao mesmo tempo. Entender, ainda que precariamente, essa mente superior é, para ele, compreender as leis que regem a natureza. E esse é o único contato possível que ele acredita que podemos ter.

Resumindo: Einstein repudiava ser rotulado como ateu, porque considerava que a ciência não se constrói sem acreditar em uma organização superior (sem a religião, a ciência é coxa e sem ciência, a religião é cega), mas repudiava talvez ainda mais a visão dogmática e ingênua de que Deus está presente como uma pessoa interferindo no dia a dia de nossas vidas, salvando, por exemplo – “Graças a Deus” – uma única pessoa de um grave acidente de trem onde centenas morreram carbonizadas.

Como ele mesmo se define, sua religiosidade está muito próxima de Spinoza. Escreveu Einstein (aqui resumo alguns trechos que esclarecem essa afinidade):

“Para mim, a religião judaica é, da mesma forma que todas as outras, uma encarnação das superstições mais infantis. A palavra Deus é uma expressão e um produto da fraqueza humana, e a Bíblia é uma coleção de honrosas, mas primitivas lendas que são bastante infantis”.

“Eu não acredito em um Deus pessoal. Nunca neguei isso. Expressei-o de forma clara. Se algo em mim pode ser chamado de religioso, é a minha ilimitada admiração pela estrutura do mundo que a ciência é capaz de revelar”.

“Parece-me que a ideia de um Deus pessoal é uma visão antropomórfica que não consigo levar a sério. Também não posso imaginar alguma vontade ou objetivo fora da esfera humana. Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza e crença na simplicidade lógica da ordem e na harmonia que só conseguimos vislumbrar de forma imperfeita.

Acredito que tenhamos que nos contentar com esse conhecimento precário e tratar valores e deveres morais como um problema puramente humano – mas o mais importante dos problemas.” “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia ordeira daquilo que existe, e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos atos dos seres humanos”.

A maioria dos cientistas que não se definem como ateus ou agnósticos, concordariam com Einstein.

Cabe a cada um julgar, diante de sua forma própria de entender a religião, se Einstein, tendo em vista suas posições, era ou não um homem religioso.