As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Alguns Comentários, Preocupações e Sugestões sobre a Reforma do Ensino Médio

Roberto Lobo

18 Setembro 2017 | 14h21

Alguns Comentários, Preocupações e Sugestões sobre a Reforma do Ensino Médio

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                                                 18 de setembro de 2017

 

 

Aguardei a evolução da discussão sobre a reforma do ensino médio. Esperei para ver se alguns problemas que me preocuparam seriam atacados. Creio que pouco de substancial mudou no projeto original e, por isso, decidi trazer minha opinião sobre o tema, mesmo não sendo especialista nesse nível de ensino, mas como um professor universitário que lidou por muitos anos com jovens recém-saídos do ensino médio.

O ensino médio brasileiro sofre de vários males, já diagnosticados, como:

– a péssima formação básica os estudantes, como se pode verificar nos resultados dos exames PISA, realizados periodicamente pela OCDE, apesar da simpatia demonstrada pelo órgão em seus relatórios aos medíocres progressos alcançados pelo Brasil, sugerindo uma visão mais ideológica do que baseada nos indicadores por eles mesmos levantados.

– a formação deficiente dos professores de ensino médio, em sua maioria originários de famílias de baixa renda, que não puderam dar a seus filhos uma formação cultural adequada e cuja opção pelo magistério se deveu, na imensa maioria das vezes, à falta de competitividade para o engajamento em outra profissão de nível superior. O magistério, com baixos salários e condições de trabalho extremamente precárias, de modo geral não representa há tempos uma alternativa viável a estudantes que tiveram a oportunidade de obter uma boa formação básica.

– a ideologização das Faculdades de Educação, que adquiriram a vocação de educar seus egressos para utilizarem suas cátedras a fim de influenciar a sociedade para uma mobilização radical em favor de uma revolução social, com muito pouca preocupação na transmissão de conteúdos acadêmicos e dos novos conhecimentos e tecnologias. Percebe-se mesmo uma posição ideológica contra o uso das novas tecnologias, das ciências e da matemática (considerados instrumentos e conhecimentos a serviço do “neoliberalismo”…)

– a uniformidade curricular e pouco estímulo para as alternativas de formação em carreiras técnicas, ao contrário do que acontece na Europa, em grande proporção, e nos Estados Unidos, embora de forma menos estruturada, em que o estudante tem flexibilidade para escolher sue currículo, com a orientação de professores, para atender sua vocação. No Brasil, o Estado decide pelo estudante todas as disciplinas a serem cursadas, independentemente da vocação e da motivação do aluno. É claro que a flexibilidade curricular impõe custos maiores para o ensino da mesma forma que o mediocriza.

A Reforma do Ensino Médio procura, dentro do seu âmbito naturalmente restrito, uma vez que recebe alunos, professores e recursos precários, flexibilizar os currículos e ampliar o espectro de formação dos professores, além de ampliar, no médio prazo, o ensino em tempo integral. Todos esses objetivos são louváveis.

Há, porém, a meu ver, sérios obstáculos à sua execução e uma omissão essencial que levará o projeto a se tornar mais uma tentativa frustrada de melhorar a educação brasileira.

A reforma mantém, apesar de aumentar a flexibilidade curricular, propostas que vêm de cima para baixo, estabelecendo quais as disciplinas afins de cada modelo oferecido. Por que não gostar de matemática, música e história ao mesmo tempo?

Parece claro que a precariedade de recursos para o ensino público justificou a proposta de que as instituições não precisem oferecer todas as opções curriculares, podendo oferecer até uma só. A emenda, nesse caso, é pior que o soneto. Se é para oferecer somente uma modalidade curricular, é melhor que ele seja abrangente e semelhante ao atual. A opção deveria ser no mínimo três ofertas de sequencias curriculares distintas, ou uma abrangente.

Pode-se imaginar que nas escolas pequenas públicas do interior os estudantes provavelmente nunca poderão optar por uma formação matemática.

Mais grave, porém, pode ser a omissão do papel e da formação do docente no novo plano. Sem docentes qualificados, apoiados, estimulados e avaliados não se consegue ter um bom ensino – isto precisa de uma carreira correspondente. Dos gabinetes de Brasília podem surgir boas ideias, mas que só serão bem executadas se houver um corpo docente competente e engajado. Não se fala disso na Reforma.

No entanto, essa foi a base para as reformas de ensino na Europa, nos EUA e em Singapura, por exemplo.

A valorização da carreira docente, com salários compatíveis, passa pela contrapartida de exigências de formação, seleção para ingresso, avaliação e programas permanentes de aperfeiçoamento. Isso não significa simplesmente aumentar os salários dos atuais docentes, medida que comprovadamente não tem eficácia.

É preciso valorizar a profissão oferecendo uma perspectiva estimulante para atrair candidatos competentes para os cursos de formação de professores e para mantê-los na carreira e nas escolas públicas, aperfeiçoando-se permanentemente.

A carreira do magistério precisaria ser profundamente modificada, provavelmente sujeita, num primeiro momento, a críticas acirradas dos sindicatos de professores.

Além disso, merecia ser estudada a conveniência de se criar centros específicos de formação de professores, possivelmente fora das universidades que não valorizam devidamente essas atividades e que já se mostraram ideologicamente comprometidas.

Acredito que falta um modelo desse tipo de instituição construída a partir do enfrentamento corajoso de todos os gargalos existentes nas atuais escolas de formação, que tivesse autonomia e financiamento para servir de exemplo e de laboratório de estudos a fim de permitir sua replicação. O projeto já existe, feito no Brasil para o Brasil, sem perder de vista as melhores práticas colhidas ao redor do mundo, mas falta a coragem de um setor, público ou privado, capaz de abraçar corajosamente essa empreitada.

Para mudar a educação, urge que saibamos formar o professor capaz de fazer essa transformação e ser o pilar onde a escola apoiará sua mudança, por ser o professor um dos pilares necessários para que se atinja os patamares internacionais desejáveis para nos tornarmos mais competitivos.

É preciso ir mais longe nas mudanças!