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A Evasão No Ensino Superior Brasileiro – Novos Dados

São apresentados os novos dados de evasão no ensino superior brasileiro até o ano 2015, baseados no Censo do Ensino Superior publicado anualmente pelo INEP/MEC. São feitos vários recortes para permitir uma visão mais completa do problema da evasão.

Roberto Lobo

07 Outubro 2017 | 11h27

 

A Evasão No Ensino Superior Brasileiro – Novos Dados

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                                          7 de outubro de 2017

 

 

O Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia tem sido considerado uma referência no tratamento da evasão no ensino superior brasileiro. Os artigos que publicamos, inclusive em revistas indexadas sobre o tema, as inúmeras citações dos artigos em outros artigos científicos, matérias em jornais de grande circulação, nossos cursos e consultorias na área nos tornaram quase uma unanimidade nesse tema no Brasil.

Mesmo depois do Instituto encerrar suas atividades, uma vez que viemos viver nos EUA, ainda recebemos inúmeras consultas sobre o assunto, solicitando desde orientação bibliográfica e metodológica até insistentes pedidos de atualização dos dados publicados anteriormente pelo.

Diante dessas solicitações resolvi atualizar os cálculos relativos à evasão no ensino superior brasileiro, desta vez separando inicialmente: pelo tipo de graduação: bacharelado, licenciatura e tecnologia, pela modalidade de ensino, se presencial ou a distância, pela categoria administrativa, se instituição pública ou privada.

Agregamos nas IES públicas as estaduais, federais e municipais e nas privadas as com fins e sem fins lucrativos, para evitar grandes quadros que podem vir a confundir mais do que esclarecer.

A categoria administrativa denominada Especial foi agregada às privadas, uma vez que cobram mensalidades e possuem grande autonomia em relação às políticas governamentais para a educação.

O cálculo das taxas de evasão anual apresentadas aqui segue o mesmo critério de nossos trabalhos anteriores, isto é, considera-se a evasão anual de matrículas, dividindo o número de matrículas que foram efetivadas por estudantes já matriculados no ano anterior (M(2015)–I(2015)) pelo número de estudantes que poderiam ter-se matriculado, (M (2014) – C (2014). (M=matrículas. I=ingressantes, C=concluintes).

O que se observa ao analisar as tabelas é que, no geral, não houve muitas alterações nos últimos dez anos, isto é, não vencemos a luta contra a evasão. Continuamos na faixa dos vinte e poucos por cento ao ano, o que é muito!

Interessante também é observar dois comportamentos diametralmente opostos entre o setor público e o setor privado: no setor público a evasão anual indicaria uma taxa de graduação (porcentagem de formados em relação aos ingressantes que se formariam naquele ano) menor do que a evasão anual indicaria, o que significa que os estudantes estão levando mais tempo para se formar do que o esperado, enquanto no setor privado a taxa de graduação é muito maior do que se esperaria pelos índices anuais de evasão, indicando que nelas o papel das transferências ao longo do curso deve ser significativa, e paralelamente ou adicionalmente, que a evasão significativa se dá no primeiro ano do curso somente, caindo daí para a frente drasticamente.

Os cursos a distância apresentam evasão maior que os presenciais, fato internacionalmente reconhecido, mas que não invalida a importância crescente dessa modalidade de ensino, principalmente se combinada com algumas atividades presenciais.

Novas formas de acompanhamento dos alunos e sistemas inteligentes que preveem os grupos de risco de estudantes e identificam suas necessidades e carências estão cada vez mais penetrando a gestão acadêmica na área de formação. O problema é que estes sistemas devem ser integrados nos bancos de dados acadêmicos institucionais, e isso nem sempre acontece satisfatoriamente.

Ainda consideramos que as reconhecidas boas práticas de combate à evasão ainda não se efetivaram na maioria das IES.

No Brasil, na verdade, as taxas de evasão vêm se mantendo aproximadamente constantes ao longo dos últimos 15 anos, com pequenas variações de ano para ano, ficando aproximadamente em 22%, menor para o setor público e maior para o privado.

Tomando como exemplo uma evasão anual de 20% é possível mensurar a perda das receitas de mensalidades ao longo do ano.

Isto porque uma evasão de 20% ao ano em turmas com ingressos de 100 estudantes para um curso de 4 anos, admitindo uma evasão constante em cada série, representará ao invés de 400 matrículas pagantes no total de um curso de quatro anos, somente 297, o que significa uma perda de receita, só com mensalidades, de 27%. Ainda é preciso considerar, para o setor privado principalmente, a perda do investimento realizado para atrair o estudante para a instituição. Sem falar a perda social que a evasão representa e o risco desse indicador influir de forma relevante nas avaliações dos órgãos de fiscalização governamentais.

Já uma redução do coeficiente de evasão de 20% para 15% geraria uma receita adicional de 8% nesse mesmo curso. Se para reduzir a evasão a esse novo patamar a IES estivesse gastando 2% do valor das mensalidades por aluno, ainda assim teria um aumento do resultado líquido de 6%, além da melhoria de seus indicadores junto ao MEC e aos diferentes rankings acadêmicos.

Neste texto são apresentadas várias tabelas com o propósito de servirem de fonte de consulta aos leitores interessados no assunto.

A evasão calculada de 2011 a 2015 está apresentada na Tabela I

Outro dado importante relativo à eficiência do sistema de ensino superior de um país, região ou instituição, é o que se refere às taxas de titulação, que medem aproximadamente o percentual de alunos que se forma em relação ao número de ingressantes nos anos de ingresso correspondentes. Esses dados são apresentados na Tabela I.

Na Tabela II foi adotada a forma mais aceita de relacionar nos cursos de bacharelado e licenciatura os formados de 2015 em relação aos ingressantes de 2011, e para os cursos Tecnológicos, os formados de 2015 em relação aos ingressantes de 2013. Outro dado importante sobre a educação superior é a distribuição de matrículas. Para os cursos presenciais de graduação essa distribuição é apresentada na Tabela III.

Verifica-se na Tabela III que 4 áreas são responsáveis por 62% das matrículas (Comércio e Administração, Direito, Formação de Professores e Saúde) no ensino superior brasileiro e 6 áreas englobam 80% de todas as matrículas, as quatro anteriores mais Arquitetura e Engenharia. Já a Matemática e Ciências reunidas chegam somente a 3% das matrículas. Se somarmos a Computação, esse número chega a 5%. Na Alemanha e Reino Unido estas percentagens atingem 14% e 17% respectivamente

As taxas anuais de evasão por área foram também calculadas para as áreas específicas de formação segundo a definição da OCDE, e são apresentadas na Tabela IV, separadas entre os setores público e privado, para cursos com um número significativo de matrículas.

Na Tabela IV pode-se verificar que os cursos que no setor público tem menores índices de evasão são: Artes (4%), Direito (5%), Saúde e Veterinária (6%) e Arquitetura (7%). No setor privado o de menor evasão é Direito (18%), seguido de Agricultura (19%), Serviço Social e Veterinária (21%), sendo as maiores taxas de evasão no setor privado se dão nos cursos de Matemática e Estatística (39%), Jornalismo (34%), Serviços Pessoais (33%) e Computação (31%). No setor público, Matemática (30%) e Computação (22%) são os que apresentam maiores taxas de evasão.

O curso de Medicina, que apresenta geralmente baixos índices de evasão, está, como ocorre na OCDE, junto com a Saúde.

Observação em 15  de outubro: Utilizamos nesse documento a classificação da OCDE para facilitar comparações internacionais. no entanto, tradicionalmente temos utilizado, juntamente com outros estudiosos do assunto, o número de estudantes de engenharia os que estão matriculados em cursos com o título contendo engenharia (exceto na área agronômica). Na OCDE Engenharia Civil, por exemplo, está classificada juntamente com Arquitetura, sob título dessa última área, o que distorce a realidade da formação em Engenharia no Brasil. Se levarmos em conta os critérios anteriormente adotados, isto é, estudantes em cursos denominados Engenharia presenciais, teremos os seguintes números: 

Matrículas: 998.501, Concluintes: 78.108, Ingressantes: 339.546