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‘Saber falar é mais importante que ter certificado de línguas’, diz CEO do Busuu

Redação Estadão.edu

05 Março 2013 | 01h11

* Por Carlos Lordelo, do Estadão.edu

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O austríaco Bernhard Niesner, de 34 anos, sempre gostou de idiomas. Enquanto crescia, em Viena, aprendeu inglês, espanhol e português. Mas volta e meia se perguntava por que o processo de adquirir uma nova língua era, para ele, “tão difícil”. Bernhard viu na dúvida uma oportunidade de negócio e, junto com o suíço Adrian Hilti, criou em 2008 o Busuu.com, site que combina rede social e conteúdo didático em 12 idiomas.

O Busuu nasceu como o projeto de Bernhard e Adrian para concluir o MBA da escola de negócios espanhola IE. A plataforma estreou com cursos de alemão, espanhol, francês e inglês. Hoje também oferece material nos níveis básico e intermediário em árabe, italiano, japonês, mandarim, polonês, português, russo e turco. Lidera seu nicho de mercado com 28 milhões de usuários ante 15 milhões de seu principal concorrente, o Livemocha (www.livemocha.com).

O Brasil é o país com o maior número de usuários registrados. Ao todo, 2,2 milhões de brasileiros acessam o serviço diretamente no site www.busuu.com ou por meio dos aplicativos móveis para os sistemas operacionais Android, do Google, e iOS, da Apple. A maioria (51%) aprende inglês.

“A demanda por cursos de línguas é muito forte, sobretudo nos países emergentes, porque as pessoas estão vendo a oportunidade de melhorar sua situação econômica”, disse Bernhard ao Estadão.edu nesta segunda-feira, 4, em São Paulo. Uma pesquisa feita pelo Busuu no ano passado com 4,6 mil usuários brasileiros mostrou que 28% dos entrevistados acham a internet a ferramenta mais eficiente para aprender idiomas, seguida por cursos no exterior.

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“Estamos vivendo uma mudança de método. Antes as pessoas iam para a escola ou cursinhos e compravam materiais didáticos. Agora elas aprendem online e por meio de dispositivos móveis”, afirmou o CEO do Busuu. “A internet permite que as pessoas aprendam o que é mais importante para elas, em cursos sob medida.”

Para o austríaco, as técnicas também são outras: a aprendizagem informal e interativa ganhou força em detrimento da figura do professor como único detentor de conhecimento.

Foi a partir da identificação das tendências no mercado de educação a distância que o Busuu montou sua estratégia. O site reúne duas possibilidades: o aluno aprende por conta própria navegando por 200 horas de conteúdo sobre cada idioma e acessando o material didático; e depois pode exercitar a língua participando de chats e videoconferências e enviando os textos para falantes nativos corrigirem.

O registro no Busuu é gratuito e dá acesso a uma quantidade limitada de conteúdo. Quem quiser ter direito a funcionalidades adicionais e mais material didático pode pagar uma assinatura que custa a partir de R$ 9,99 por mês.

Confira trechos da entrevista concedida por Bernhard, em um excelente portunhol.

O brasileiro é conhecido por adorar redes sociais. Como você avalia a participação na plataforma dos usuários daqui?
O brasileiro é mais ativo que os usuários de outros países. Gostam muito de participar, falar diretamente por meio de chats e videoconferências e de jogar. Não é um público que gosta muito de lições grandes e, às vezes, chatas. Acho o Busuu perfeito para o Brasil e isso explica nosso êxito aqui. Nosso sistema é bonito, colorido, tem sons e abre a possibilidade de conhecer novas pessoas. E as unidades são pequenas. Você pode investir 15 minutos por dia no metrô ou no trânsito e aprender. O brasileiro também ajuda muito quem quer aprender português. Às vezes eu envio um texto para correção e recebo 20, 30 comentários. É uma loucura.

Vocês já pensaram em remunerar os usuários que mais ajudam os outros a aprender um idioma?
Acho que esses professores que temos na plataforma gostam muito de ajudar. Eles recebem “busuu berries” (espécie de moeda de recompensa por uma atividade bem realizada) e criam árvores de idiomas muito bonitas (utilizada para indicar progresso nas diferentes línguas). Também são pessoas que recebem ajuda de outras pessoas. O sistema de educação via internet funciona porque há pessoas dispostas a ajudar e receber ajuda. O Busuu tem uma comunidade simpática e democrática. Se começássemos a dar dinheiro para as pessoas mudaria completamente o espírito do site.

Os conteúdos dos 12 idiomas são semelhantes? Seguem a mesma sistemática?
Ainda sim, mas estamos desenvolvendo material didático específico para cada idioma. A gramática muda, mas se você quer saber como se diz isso (aponta para um laptop) em alemão, por que não colocar uma foto de um laptop com a palavra na sua língua nativa e abaixo em alemão? Para vocabulário, faz muito sentido usar a mesma estrutura. Para gramática, não.

Quem prepara o material didático?
Temos um Departamento de Educação com especialistas dos diferentes idiomas e em ensino a distância. Fazemos todo o material na sede da empresa, em Londres. E também contratamos freelancers.

Vocês pretendem ampliar o número de idiomas oferecidos?
Prefiro ter menos idiomas mas com material de qualidade do que 25, 30 idiomas. Aumentaria a complexidade da produção. Temos de focar mais na diversificação do conteúdo. Depois podemos pensar em crescer. Agora queremos desenvolver explicações gramaticais específicas para ajudar os brasileiros, por exemplo. Um alemão tem mais facilidade com inglês porque muitas estruturas são parecidas.

Por que não oferecem cursos no nível avançado?
O nível avançado requer mais customização de conteúdo e funcionalidades específicas. Mas já temos aqui, por exemplo, a possibilidade de o aluno ver, ler e comentar fotos da National Geographic, vídeos da BBC e textos do The Guardian. O aluno pode escrever o que quiser, uma frase ou um texto enorme, e esperar a correção de seus pares.

Os cursos do Busuu têm algum tipo de certificação?
Facilmente você consegue uma certificação do Busuu para colocar no LinkedIn, dizendo o nível em que está no curso. Podemos dizer quantas palavras você aprendeu e quanto tempo passou estudando. Mas também estamos planejando oferecer a certificação dos cursos junto com um parceiro.

Aliás, você acha realmente importante a certificação?
Não. Pessoalmente, acho muito mais importante que as pessoas saibam falar do que ter um certificado. Muita gente tem certificado e não sabe falar. Por outro lado, sabemos que existe um mercado e há gente disposta a pagar (pelo certificado). Então, como empresário, vou oferecer essa possibilidade. Mas eu acho que o aluno deve conseguir falar. Meu português é muito ruim, mas falo e você entende mais ou menos. Mas não tem problema. Eu posso sair, conviver com as pessoas, conversar com o atendente do hotel. É importante dizer às pessoas que querem interagir com turistas, por exemplo, que não precisam falar como Shakespeare, ou com o melhor sotaque do inglês falado na Universidade de Cambridge.

Que dicas você dá para quem quer aprender um idioma?
A regularidade é fundamental. Todo dia você precisa investir pelo menos dois blocos de 30 minutos no aprendizado. A coisa tem de ser mais contínua, usando vários métodos ao mesmo tempo. Tem o aplicativo para smartphone, dá para ouvir rádio naquele idioma, assistir a filmes, ler notícias na internet. E o mais importante: não ter medo de praticar e errar. O sistema do Busuu mostra que os gringos cometem muitos erros de português. O brasileiro não tem que ter vergonha de falar inglês.

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