Poema de Prêmio Nobel foge à memória dos vestibulandos
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Poema de Prêmio Nobel foge à memória dos vestibulandos

Redação

08 Janeiro 2012 | 17h14

* Por Cedê Silva, especial para o Estadão.edu

Foto: Mariusz Kubik / Wikimedia

SÃO PAULO – Pouco após a prova, os candidatos da Fuvest conseguiam se lembrar facilmente de todos os textos que embasaram a redação, menos um. Apenas algumas palavras do poema ‘Os filhos da época’, da polonesa Wis?awa Szymborska, vencedora do Nobel de Literatura de 1996, eram lembrados, especialmente as palavras “época” e “política”. Outros vestibulandos mencionavam as palavras “sangue” ou “olho”, que não aparecem no texto. Vários estudantes juravam que o autor do poema era brasileiro. Outros lembravam-se que havia um “W” em algum lugar.

Eis o poema na íntegra:

Os filhos da época

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas – minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra – político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já nao dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.
Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.