Manifestantes impediram aulas na Faculdade de Letras
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Manifestantes impediram aulas na Faculdade de Letras

Redação

08 Novembro 2011 | 18h04

* Por Cedê Silva, especial para o Estadão.edu

Manifestantes bloquearam as duas entradas da Faculdade de Letras da USP nesta manhã. Não houve aulas, e apenas uns poucos alunos que chegaram mais cedo conseguiram fazer uma prova, de latim.

Dois estudantes de 20 anos, do 2º ano de Letras – um rapaz e uma moça – conversaram com o Estadão.edu sob a condição de anonimato. Ele, que à tarde dá aulas num curso de inglês, diz ter chegado à faculdade hoje por volta das 8h10, quando normalmente começam as aulas. Viu uma grande aglomeração em frente à entrada do 1º andar, trancada e bloqueada por mesas e carteiras. A única outra entrada, no térreo, também estava bloqueada por carteiras e até pela parte superior de um banco de concreto.

“Até assustei porque vi dois professores saindo”, contou o estudante. “Eu estava um pouco atrasado”. Quando chegou à multidão, conta, viu as duas entradas bloqueadas e ouviu as pessoas gritando. “Eram muitos alunos conversando, e ninguém sabia direito o que acontecia”, disse. Alguns representantes do Centro Acadêmico da Letras (Caell) gritavam “fora PM!” e convidavam os alunos para uma assembleia às 10h – que de fato ocorreu, a céu aberto, em frente à entrada do térreo.

“A maioria não entendia porque a faculdade estava trancada”, conta o estudante. “Perguntavam: e aí? Vai ter prova? Eu não teria prova hoje, mas muitos dos meus colegas sim”.

Houve empurra-empurra e estudantes afinal forçaram a entrada pelo 1º andar. O estudante aproveitou a oportunidade e entrou também. Visitou as duas salas de aula em que vai às terças (a segunda, de literatura brasileira) e encontrou ambas vazias e com a luz apagada, em ordem. Filas de carteiras escolares bloqueavam alguns corredores. Ele viu seus dois professores do dia reunidos na sala de professores, e foi embora.

Um manifestante entrou na sala onde já era aplicada uma prova de latim, e pediu ao professor que desocupasse a sala. O professor replicou que não poderia fazê-lo, já que a prova tinha começado. O manifestante então pediu ao professor que não deixasse entrar mais nenhum aluno. Diante da recusa do professor, o manifestante saiu da sala.

Ainda segundo o aluno, por volta das 10h quase todos os estudantes estavam na assembleia, afinal,  “não estava tendo aula mesmo”. Outros tantos deixaram a faculdade, porque não haveria a 2ª aula. Uma votação determinou a liberação dos acessos.

“Fui à assembleia”, contou o estudante. “Quem falava contra a PM era aplaudido, mas quem tinha ideia diferente era vaiado pela  maioria”. Um aluno criticou a inconveniência de uma manifestação bem no fim de semestre, quando há provas. Foi vaiado. Uma integrante do Caell, na mesa da assembleia, protestou a vaia, dizendo que todos tinham o direito de se manifestar. Foi obedecida: o estudante encerrou o discurso sem maiores incidentes.

“A situação é complicada”, diz o aluno. “A USP não é uma bolha. Muitos manifestantes, que são de extrema esquerda, falam de 1968, mas isso não se aplica, não vivemos numa ditadura. Por outro lado, a polícia não é solução, não vai acabar com os estupros e roubos. O ideal seria investir em infra-estrutura, mais iluminação no câmpus e mais ônibus circulares. Tem lugares muito escuros na USP. O reitor não está fazendo isso e resolveu chamar a PM”.

Já a estudante ouvida pelo Estadão.edu disse que “parece que estão criando uma guerra civil na USP”. Ela chegou à Letras por volta de 7h e viu estudantes montando os obstáculos com carteiras. “Não faziam barulho, e por isso me surpreendi quando vi as barricadas”, contou. Ela tinha prova hoje e conversou com seu professor, que disse “vamos ter de remarcar”. Ela viu, do lado de dentro da faculdade, uma briga entre dois estudantes, um deles querendo desobstruir a passagem no 1º andar e outro que queria manter o bloqueio. “Vi uma carteira voando, não sei quem arremessou”, disse. A briga foi apartada e com isso o acesso foi liberado.

“Estou no meio – sou a favor da PM mas também de uma Guarda Universitária muito bem preparada”, contou a estudante. Ela disse que inicialmente era totalmente a favor da presença da PM, mas reviu a posição após ver muitos alunos xingando os ocupantes. “Chamam eles de maconheiros, vagabundos; e eles mesmos são chamados de reacionários, burgueses. Acho que ninguém tem direito de falar assim, você não sabe como é o cotidiano da pessoa”.