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‘A confusão da juventude é linda!’

Redação

10 Novembro 2011 | 13h11

* Por Bruno Paes Manso, repórter do ‘Metrópole’

1.
A assembleia de alunos na terça-feira está lotada. O vão livre da Faculdade de História e Geografia completamente tomado, assim como as escadas e corredores. Há um forte clima de comoção por causa da invasão da Tropa de Choque no câmpus e da prisão dos estudantes. Um dos diretores do DCE, Thiago Aguiar, esbanja liderança e habilidade para conduzir a massa. Na votação da greve, os cerca de 2 mil alunos estão divididos. Metade quer greve estudantil imediata, outra metade quer somente indicativo de greve.

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Como é impossível contar os votos na multidão de braços erguidos, Thiago pede que os favoráveis à greve imediata se levantem e caminhem para o lado direito do vão livre. Os favoráveis ao indicativo, para o lado esquerdo. Durante cinco minutos, milhares de estudantes em lento movimento pelo prédio. Cada um vai se posicionando em seu canto. Só assim foi possível concluir que uma pequena maioria da Assembleia era favorável à greve imediata. Foi um belo exercício físico-democrático, que também lembrou a ação de um pastor comandando seus rebanhos, com manadas para lá e para cá.

2.
A greve era defendida pelos mais afoitos. Foi, inclusive, a proposta sugerida pelos “70 presos políticos da USP” que deliberaram de dentro do ônibus na delegacia. Depois a enviaram por um emissário. Seria difícil sair derrotada. Mas era obviamente uma decisão equivocada, combatida também pelos diretores do DCE que comandavam a mesa. Como eles explicavam ao povo, de nada adiantaria greve imediata sem que os centros acadêmicos tivessem deliberado em seus cursos e aderido ao movimento. Seria melhor primeiro “conquistar as bases”, com o indicativo de greve, para só depois decretar a greve. A fraca adesão ao movimento grevista mostra que eles estavam certos.

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3.
Em meio a todas essas votações e disputas, uma menina se levanta, colocando os dedos da mão direita na palma da mão esquerda, gesto que em um assembleia serve para pedir uma “questão de ordem”. É atendida pelo presidente da mesa. Muito brava, passa a gritar indignada ao microfone, acusando o teor “machista e homofóbico” de um grande cartaz de 6 metros quadrados que estava no canto da passarela do prédio da História. Na peça, lia-se: “democracia de c* é…”, com o desenho daquela parte do corpo masculino que a reportagem deixa para o leitor imaginar. Segundo a oradora, o cartaz era ofensivo e punha por terra décadas de lutas das feministas e de gays no Brasil. Depois de esbravejar, lança um desafio à multidão: “Eu quero que o responsável assuma aqui no meio e diga por que fez isso”.

No meio da plateia, um jovem franzino, mas corajoso, aceita a intimação. Caminha solitário no meio da multidão até alcançar o microfone. E começa: “Fui eu que fiz o cartaz. Eu discordo que seja machista ou homofóbico”, diz, com seu fio de voz frágil e melódico. Não precisou que ele saísse do armário na assembleia, porque já nas primeiras palavras ao microfone ficou claro que ele próprio, um dos autores do cartaz, era gay. O menino defendeu que se tratava de uma mensagem lúdica, nada para ser levado muito a sério. Mas as estudantes estavam bravas. Tomaram-lhe o microfone da mão e avisaram: “Não quero saber o que você acha ou o que essa assembleia vai votar. Nós vamos rasgar esse cartaz”, anunciaram. A Tropa Rosa Choque subiu a rampa, diante do olhar atônito de 2 mil estudantes e, num ritual tribal, rasgou o cartaz aos urros. Choviam pedaços de cartolina sobre os estudantes.

Inconformado, provavelmente com a arbitrariedade daquela emancipação feminina, outro estudante subiu a rampa correndo. Ato contínuo, passou a rasgar aleatoriamente os demais cartazes “politicamente adequados” da faculdade, com frases mais politizadas e citações que iam de Walter Benjamin a Raul Seixas, passando por Paulo Freire e Geraldo Vandré. Voltou a chover cartolina na multidão. Tudo isso no meio da assembleia, que continuava seus encaminhamentos. Panela de pressão. Outros jovens estudantes, provavelmente em defesa do direito de se manifestar de forma “politicamente adequada” e da preservação dos demais cartazes, passaram a perseguir o sabotador revoltado. Alcançaram. Ele tomou uma surra, coitado. Levou mais tapa do que qualquer outro estudante, incluindo os que enfrentaram a Tropa de Choque da PM. A reportagem, que testemunhou todos os capítulos da cena, sempre muito influenciada pelo mestre Caetano Veloso, refletia: “A confusão da juventude é linda!”

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