SP suspende Residência Educacional para estagiários em escolas do Estado

Dois mil estudantes terão contratos cancelados e trabalho será encerrado na segunda-feira; Aviso chegou anteontem e surpreendeu escolas

Paulo Saldaña

14 Novembro 2014 | 03h00

COM VICTOR VIEIRA

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo suspendeu repentinamente o programa Residência Educacional e vai finalizar o contrato com cerca de 2 mil estagiários que participavam do projeto. Iniciado no meio do ano passado, o programa será interrompido na segunda-feira, dia 17.

Até as escolas foram pegas de surpresa. Um comunicado foi encaminhado no meio da tarde de anteontem pelas Diretorias de Ensino. “O Estado acabou do nada e avisou bem em cima, foi complicado até para avisar”, disse uma funcionária de uma das diretorias, que pediu para não ser identificada.

No texto, a suspensão do programa teria acontecido por causa de uma “avaliação de impacto” por parte da secretaria. Nas escolas, fala-se que o motivo foi corte de custos. Questionada ontem, a pasta ressaltou que o motivo seria a avaliação de impacto, mas não informou por que não aguardou o fim do ano letivo para fazer isso. Também não indicou a razão de o comunicado ter sido feito às escolas com pouca antecedência.

Inspirado nas residências médicas, o programa era voltado para escolas de maior vulnerabilidade. Além de colaborar com as unidades, ainda havia o objetivo de aproximar os estudantes de licenciaturas da realidade das salas de aulas e das unidades escolares. O modelo era apontado pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) como “inovador” e “pioneiro no País” para incentivar a carreira docente.

Bolsa. A residência foi iniciada no ano passado em 1.392 escolas estaduais. Os bolsistas recebiam R$ 600. Para participar, era preciso ser aprovado em uma prova. Houve seleção para 9 mil estudantes neste ano, conforme anunciado pela própria secretaria. No ano passado, foram abertas 10 mil vagas. Apesar da oferta de vagas, a assessoria de Imprensa da Secretaria informou que somente 2 mil estagiários fazem parte do projeto atualmente.

O selecionado atuava por 12 meses na escola e o prazo podia ser renovado por mais um ano. Aluna de História, Flavia de Lima Souza, de 19 anos, havia começado em março deste ano na Escola Estadual Ruth Neves Santanna, em Ribeirão Pires, Região Metropolitana. Ficou sabendo ontem que seu contrato seria finalizado. “Além de conhecer a realidade da escola, tinha contato com professor na sala, aprendia didática, como abordar os temas. É um aprendizado que não podia ser rompido assim.”

Flavia dependia do dinheiro da bolsa para pagar a mensalidade da faculdade. “Havia aberto mão da bolsa do Pibid (programa federal de iniciação à docência para fazer a residência).” Antes de conseguir o estágio, a estudante vendia doces na faculdade para conseguir pagar as mensalidades e teme ter de voltar a fazer isso.

A professora Juliana Roncon, há oito anos na rede, conta que ficou surpresa com a interrupção abrupta do programa. “Eles auxiliavam os alunos com as dúvidas e davam um feedback das aulas para o professor titular”, diz ela. “Um programa que visa a incentivar a carreira não pode ser interrompido de repente.”

A estudante de Educação Física Ellen Rosa, de 21 anos, começou o estágio no meio do ano passado e teve o contrato renovado em agosto.” Ficaria até dezembro. Mas avisaram na escola que acabaria e não deram nenhuma explicação”, diz ela.

A Secretaria de Educação também não informou se há planos de retomar do programa. Segundo o aviso que chegou às escolas, a decisão foi realizada por determinação da Coordenadoria de Gestão da Educação Básica da Secretaria e da Coordenação Central do Programa Residência Educacional.

Reportagem original publicada no jornal O Estado de S. Paulo do dia 14/11. Aqui, o texto foi ampliado.