‘Papéis Dilma’ valorizam com recuo sobre o Fies; Entenda

‘Papéis Dilma’ valorizam com recuo sobre o Fies; Entenda

Paulo Saldaña

24 Fevereiro 2015 | 12h43

Bastou o MEC recuar com uma regra que afetava o fluxo de caixa dos grandes grupos educacionais que essas empresas decolaram na Bolsa de Valores. Reportagem do autor deste blog com os repórteres José Roberto de Toledo e Rodrigo Burgarelli, publicada pelo Estadão nesta terça-feira, 24, mostram que Kroton e Estácio seguiram tendência inversa do Índice Bovespa.

Os papéis da Kroton-Anhanguera foram os mais negociados ontem na Bolsa. Tiveram pico de 10,34% e fecharam com alta de 7,07%. Foi o segundo melhor desempenho do Índice Bovespa, só atrás da Souza Cruz, que vai fechar o capital.

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A Estácio chegou a subir 11,67% e fechou a 5,21%, depois da realização de lucros. Foi o terceiro melhor resultado do dia. Já o Anima, que não faz parte do Ibovespa, teve alta ainda maior: subiu 18,92%, fechando a 12,49%. Enquanto isso, a maior alta do Ibovespa foi de 0,86%. Fechou estável a 0,08%.

Nesta terça, a Estácio subia 2,31% às 12h28. A Kroton, 1,95% e a Anima, queda de 1,65% – mas registrado o maior preço da ação entre as três, de R$ 23,21.

Entenda o que houve:

No dia em que o sistema para novos contratos do Financiamento Estudantil (Fies) foi reaberto, segunda-feira, 23, o MEC recuou de alteração que impactava os pagamentos das mensalidades às instituições de ensino superior. A portaria publicada no Diário Oficial da União de ontem limitou ao ano de 2015 regras que regulavam os pagamentos do Fies em menos parcelas do que o comum – editada em dezembro do ano passado, a norma não tinha data final. A nova decisão atende à pressão das empresas, que reclamavam de que a alteração de 2014 causava forte impacto no fluxo de caixa.
Questionado sobre o recuo, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do MEC que gerencia o Fies, informou que “análises técnicas” motivaram a decisão.

Reportagens publicadas neste mês pelo Estado mostraram que, apesar de os gastos públicos com o Fies decolarem de 2010 para cá, o ritmo de matrículas no ensino superior privado caiu. As empresas têm levado para o Fies os alunos que pagavam suas mensalidades (Leia aqui o material completo). A Kroton-Anhanguera, por exemplo, ganhou de Fies mais de R$ 2 bilhões no ano passado. No ano passado, o Fies custou R$ 13,4 bilhões aos cofres públicos.

Na portaria de ontem, o MEC estabelece que critérios de qualidade ainda serão levados em conta, mas não detalhou quais – o que turbinou a valorização das empresas. O sistema de novos contratos, fechado desde dezembro, ficará aberto até 30 de abril.

Além de alterar o fluxo de pagamentos do Fies, o MEC também colocou nota mínima no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) para quem quer o financiamento. As empresas não gostaram da mudança, informando que

Entenda ainda mais com a reportagem publicada pela mesma equipe no dia 15 de fevereiro:

No período eleitoral do ano passado, tornou-se comum atribuir um aumento das intenções de voto na presidente Dilma Rousseff a quedas em ações na Bolsa de Valores de São Paulo. Um seleto grupo de companhias, no entanto, fugiu dessa regra: os grandes conglomerados do ensino superior privado. Conforme confidenciaram operadores e analistas ao Estado, essas ações eram conhecidas no mercado financeiro como “papéis Dilma” durante a campanha – se a presidente subisse nas pesquisas, eles também subiam na bolsa.

A valorização das ações de alguns desses grupos durante o primeiro governo Dilma foi recorde. A Kroton, que incorporou a Anhanguera em 2013, foi a líder de crescimento na Bolsa por dois anos seguidos, em 2013 e 2014. Entre agosto de 2011 até o começo deste ano, seus papéis tiveram valorização de 827%. A empresa chegou a ser listada como a 17.ª mais valiosa da BM&FBovespa no meio do ano passado, com valor de mercado de R$ 25 bilhões.

Nos relatórios de analistas do mercado de ações, o bom momento do setor estava intrinsecamente ligado às políticas de financiamento estudantil que vigoraram durante toda a gestão passada de Dilma. Por esse mesmo motivo, elas foram as empresas que mais perderam valor de mercado desde que a nova equipe econômica da presidente anunciou restrições a financiamentos, no fim de 2014.

A queda superou até a da Petrobrás, envolta em um mar de denúncias de corrupção. De novembro do ano passado a quarta-feira passada, as ações da Kroton caíram 41%. A Anima Educação, que controla a São Judas Tadeu em São Paulo e a UNI-BH em Minas, entre outras, caiu 54%. Já os papéis da Petrobrás tiveram queda de 31%. Na sexta-feira, as ações acumularam ligeira recuperação, de 10% a 14%, após o Ministério da Educação (MEC) reabrir inscrições para novos contratos.

Um dos poucos informes negativos envolvendo o setor no período veio em relatório do Morgan Stanley de setembro passado. Os analistas previram um colapso do Fundo Garantidor, uma espécie de poupança que substitui o fiador em parte dos financiamentos – para licenciaturas e estudantes com renda mensal per capita de até um salário mínimo e meio.

A previsão é de alta na inadimplência – o que poderá obrigar o uso do fundo. Hoje, os atrasos acima de um ano estão em 10%. Para o banco, a taxa pode saltar a 27% em 2017.

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