José Pacheco: ‘Poderemos incluir o Rubem Alves no rol do românticos-conspiradores’

"A sua vida é coerente com o que escreve, e a sua obra – extensa, diversificada e pautada por uma complexa simplicidade – suscita-me múltiplas leituras."

Paulo Saldaña

19 Julho 2014 | 19h25

Após nove dias de internação, o escritor e educador Rubem Alves faleceu neste sábado, dia 19, em CampinasO educador português José Pacheco*, escreveu sobre Rubem Alves especialmente para o blog. Confira:

Era eu o privilegiado diretor da Escola da Ponte, quando da visita do Rubem Alves. Não sei se é por acasos que há acasos, mas a visita do Rubem coincidiu com um momento de viragem no projeto e em mim. Estou grato ao Rubem pela oportunidade que me abriu de conhecer a educação que se faz no Brasil e me possibilitar o enfrentamento de novos desafios. Quase quinze anos decorridos sobre a visita à escola, é maior a minha admiração pela obra e vida do meu amigo Rubem. A sua vida é coerente com o que escreve, e a sua obra – extensa, diversificada e pautada por uma complexa simplicidade – suscita-me múltiplas leituras. A sua visão sobre o Brasil das escolas instiga-me a penetrar mais fundo em contraditórias realidades, observadas por um desarmado olhar europeu, que se surpreende perante o ostracismo a que alguns pedagogos brasileiros são remetidos.

O meu mestre Rubem conduziu-me à descoberta de Anísio Teixeira, que, nos anos 30, defendia a necessidade de mudar a escola, para que esta se tornasse um instrumento de mudança social; ao encontrar Lauro Lima, que, na década de 60, fez a reinterpretação brasileira do pensamento de Piaget; a recuperar contributos de Paulo Freire, sobre cuja integração na ortodoxa universidade o Rubem escreveu um “não-parecer”…

Durante o período negro dos governos militares, o Rubem e outros brilhantes pensadores exilaram-se, muitos projetos pereceram. Mas uma nova geração de educadores emerge, uma ruptura paradigmática se anuncia, que não prescinde do património que o Rubem e outros pedagogos nos legaram


Há seres inspirados, que vivem “na contramão da História”, aprendendo a surfar o dilúvio de lixo cultural em que a sociedade e a Escola se afundaram. Poderemos incluir o Rubem no rol desses “românticos-conspiradores”. O próprio Rubem me confirmou a existência desses seres (que o Brecht diria serem indispensáveis), numa carta, de que ouso transcrever um pequeno excerto: “o bom é sentir que a “pia conspiratio” é muito maior do que se imagina. Há milhares de irmãos e irmãs desconhecidos sonhando o mesmo sonho…”

Nas minhas deambulações pelo Brasil das escolas, verifiquei que Rubem Alves é inspiração para muitos anônimos educadores, que não desistem do sonho das suas vidas e tecem uma rede de fraternidade, fonte de esperança, num Brasil condenado a acreditar que, pela Educação, há-de chegar ao exercício de uma cidadania plena.

* José Pacheco é um educador português que idealizou a Escola da Ponte, localizada em Vila das Aves, próximo da cidade do Porto, Portugal. Educador renomado, professor e escritor, é um dos responsáveis no Brasil do projeto Âncora, em Cotia, que trabalha com os mesmos princípios de gestão democrática e de autonomia dos alunos – os quais fizeram da Escola da Ponte uma referência internacional. Entre suas obras mais recentes está Dicionário de Valores.

 

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