Oficina recebe refugiado sírio

Oficina recebe refugiado sírio

Oficina do Estudante

25 Agosto 2017 | 14h46

Kamel, de casaco listrado, em meio a professores e alunos da Oficina

Por Raquel Valli
imprensa@oficinadoestudante.com.br

Como é fugir de uma guerra, ir para uma outra nação, sem ao menos saber a língua, e se adaptar – se estabelecendo em um continente completamente diferente – em tempo recorde? O refugiado sírio Kamel Zinou, de 22 anos, que conseguiu entrar em engenharia elétrica na Unicamp em 2015 e que mora em Campinas desde 2014, contou essa façanha aos alunos da Oficina durante um bate-papo esta semana.

O encontro foi intermediado pelos professores Juliano, de filosofia; e pelo Bruno, de atualidades. Ambos deram um panorama geral sobre a guerra que assola a Síria há 7 anos.

Zinou veio para o Brasil com o pai, a mãe e duas irmãs fugindo do confronto que já deixou pelo menos 4,8 milhões de refugiados. Afirmou que gosta tanto do Brasil, que pretende se estabelecer definitivamente por aqui.  A família dele não sabia falar português, mas aprendeu o idioma e abriu um restaurante de comida árabe.

Diferenças

Kamel contou que a mídia síria é toda controlada pela família de Bashar al-Assad e que ela faz propaganda do governo. Mídia livre só a internacional, citando a Al Jazira. Contou também que, desde cedo, nas escolas, as crianças são ensinadas a gostar e a admirar o presidente.

Relatou que o Estado Islâmico chega a ser muito mais violento que o ditador, e que o grupo terrorista mata as pessoas na rua por atos banais, como beber, por exemplo. Lembrou que as execuções são feitas com muita crueldade, como por degolamento. Disse que, por isso, ele quer que Assad permaneça no poder.

Entre os horrores da guerra, Kamel lembra de um ataque que matou cerca de 300 civis. O sobrevivente estava a um quilômetro da universidade bombardeada, mas ficou atemorizado com os ruídos das bombas. Lembrou que, durante esse bombardeio, um amigo dele perdeu o pai e que a mãe desse amigo ficou paralítica.

Vida nova

Kamel disse ainda que nunca sofreu preconceito no Brasil – nem por ser estrangeiro, nem por ser árabe ou tampouco muçulmano-, mas que os pais dele querem voltar para a Síria porque a adaptação deles no Brasil está sendo difícil. Eles não falam português tão bem quanto os filhos – Kamel, por exemplo, já domina o idioma.

O professor Juliano lembrou que para as gerações mais velhas, já estabelecidas previamente, o adaptar-se é muito mais sofrido.

Kamel, ao contrário dos pais, afirmou querer se estabelecer em Campinas – caso ele consiga, quando se formar, um emprego como engenheiro elétrico. O estrangeiro cursa o segundo ano da faculdade na Unicamp, e disse que é muito bem recebido na universidade.

Relatou que nos campos de refugiados, onde alguns dos amigos dele estão, o tratamento é muito ruim, e que eles sofrem muito preconceito.

No fim do encontro, o professor Juliano deixou uma reflexão: embora haja diferenças, todos nós somos iguais, porque todos somos seres humanos, que merecem respeito e dignidade.

Já o professor Bruno, lembrou aos alunos o quanto esse tipo de iniciativa da Oficina é enriquecedora para os estudantes, não apenas como conhecimento acadêmico, mas humano também.