ENEM – Veja a forma de estudar que aumenta a sua nota.

Mateus Prado

07 Setembro 2015 | 08h35

A partir de erros e acertos em provas anteriores do exame é possível traçar estratégia de estudos. Veja como desvendar os segredos para uma prova bem feita e com boa pontuação

 

Há estratégias de estudo para o Enem?
Sim. Com uma estratégia bem feita, o aluno terá uma nota maior no Enem. É preciso estar claro que estudar conteúdo demais não é a melhor opção do ponto de vista do custo/benefício.

Os alunos tendem a estudar mais o que sabem muito bem ou estudar mais mais o que não sabem nada. Só dá para saber se esta é a qual é a melhor opção depois de estarem claros os seus objetivos. E não,nunca dá tempo de aprender tudo, mesmo no ENEM onde o conteúdo que cai é bem menor do que o conteúdo cobrado nos vestibulares convencionais.

Existem alguns cursos mais difíceis de passar em universidades públicas, como Medicina, em todas as Universidades, e Direito e Engenharia nas Universidades mais tradicionais,em que o aluno realmente precisa saber QUASE todo o conteúdo cobrado pelo exame para garantir sua vaga. Mas também há outros cursos, que podem dar ao aluno uma boa carreira, como Biologia, Enfermagem, Psicologia, Pedagogia, Historia, Administração Pública, entre outros, que exigem uma nota bem menor nas provas. Para esses cursos, é necessário que os alunos saibam bastante para passar, mas não precisam saber tudo.


Então, nossa primeira lição deste guia é que nem tudo que está nos livros didáticos e nas apostilas de cursinhos aparece na prova do Enem. É preciso descobrir o que é cobrado e o que não é cobrado, e isso é bastante simples.

O primeiro passo para quem vai estudar para o Enem é resolver as provas dos anos anteriores – há testes desde 2009, quando o Enem começou a selecionar candidatos para universidades públicas (veja os links abaixo). Resolvê-las é como preparar-se para uma prova esportiva, como MotoCross, em que você precisa saber anteriormente os detalhes do percurso para se sair bem. No Enem também é assim. Como a prova é muito parecida de um ano para o outro, sabendo os detalhes do “percurso”, você irá melhor do que quem nunca teve contato com a prova.

 

Como faço a minha estratégia?
Primeiramente, este é um Guia de Estudos para o ENEM. E um guia não é como um manual. Em um manual há uma só forma de como alcançar um objetivo. Por exemplo, para montar um guarda-roupa, você recebe um manual que indica a única forma de fazer com que ele fique em pé. Em um guia, devemos imaginar que as pessoas preferem, ou sentem-se melhor, seguindo caminhos diferentes para chegar a seus objetivos, considerando até mesmo diferentes objetivos e diferentes historias de vida. Se, por exemplo, para o aluno que quer cursar Medicina não há outro caminho além de dominar toda a matriz de competências do exame, para quem quer um curso em que a nota cobrada não é tão alta, este caminho pode ser mais leve, mais curto e mais tranquilo. Porém, para os dois, é necessário não pegar atalhos que os façam sair do caminho. Estudar o que o Enem não irá cobrar é realmente desperdício de tempo para quem tem como objetivo conseguir, no menor prazo de tempo, uma boa nota no exame.

Mãos à obra. A primeira coisa a fazer é resolver, sem a ajuda de livros e/ou computadores, amigos e professores, as últimas provas do Enem. Ao resolvê-las, o aluno já começará a se acostumar com o “jeitão” delas.

Desde 2009, incluindo a prova convencional, as provas de presídios, a prova que vazou e outras provas extras, tivemos 15 diferentes provas do ENEM. São cerca de 3000 questões em seis anos (desde que o ENEM mudou de formato e, simultaneamente, começo a selecionar para vagas em Universidades e Públicas e por Institutos Federais).

Se não der tempo de resolver todas selecione algumas delas, privilegiando as de anos mais próximos. para resolver as provas você irá precisar imprimi-las. Imprimi as provas utilizando só um lado da folha para a impressão. Deixe o outro lado em branco ( ou vazio se sua folha for reciclada ou de outra cor, rsrrs).

Resolvi as últimas provas do Enem. E agora, o que eu faço?
Agora que você resolveu as provas, será necessário um pouco de trabalho para ter a clareza do quanto já está preparado para o exame e o que precisa estudar. Confira o gabarito e anote na própria prova as questões que você acertou e as questões que errou. É hora de definir, prova a prova,  a qual competência pertence cada uma das questões. Você pode fazer isso com a ajuda da matriz de competências do Enem. Vamos trabalhar com a matriz de 2009. Você encontra ela em um site de buscas procurando por “Matriz de Competências do ENEM 2009”. Não iremos dar muita atenção para a “Matriz de Conteúdos para o ENEM”.  Alguns conteúdos (na verdade muitos) que estão ali não devem cair na prova simplesmente porque o examinador tem que obedecer primeiro à matriz de competências, e depois à de conteúdos. Todo conteúdo que não tiver relação com as competências e habilidades cobradas pelo Enem tem probabilidade muito pequena de aparecer na prova.

Como os textos que explicam as competências geralmente são um pouco complicados para quem não é da área da educação, em nosso Guia, cada uma das competências recebe um título que facilita sua compreensão do que será cobrado pelo Enem. Colocamos abaixo uma tabela com os títulos para ajudar na separação das questões de cada competência. É normal que em algumas questões haja dúvida sobre a competência. Neste caso, marque a competência que você considera mais próxima dos textos da matriz.

Ciências da Natureza e suas Tecnologias
– Competência 1: A Ciência no Dia-a-dia
– Competência 2: Circuitos Elétricos ou Consumo Racional
– Competência 3: Degradação, Conservação Ambiental e Ciclo da Água
– Competência 4: Genética e Saúde Pública
– Competência 5: As Ciências Naturais na Vida Cotidiana
– Competência 6: Fenômenos Físicos
– Competência 7: Fenômenos Químicos
– Competência 8: Biodiversidade, Ética em Pesquisa e Saúde Pública

Ciências Humanas e suas Tecnologias
– Competência 1: Cultura e Identidade
– Competência 2: Geopolítica
– Competência 3: O Estado e o Direito
– Competência 4: Evolução Tecnológica, Revolução Comportamental
– Competência 5: Cidadania e Democracia
– Competência 6: O que estamos fazendo com a Terra ?

Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
– Competência 1: Palavras e Imagens
– Competência 2: Língua Estrangeira Moderna
– Competência 3: Linguagem Corporal
– Competência 4: A Arte Expressando Ideias e Emoções
– Competência 5: Literatura
– Competência 6: O Texto, seu Contexto e sua Função
– Competência 7: Opiniões e Pontos de Vista
– Competência 8: Diversidade Linguística
– Competência 9: Tecnologias da Comunicação

Matemática e suas Tecnologias
– Competência 1: A Matemática na Vida dos Povos (não coloque questões nesta competência).
– Competência 2: Geometria da Vida
– Competência 3: Medidas da Realidade
– Competência 4: Variação de Grandeza, Porcentagem e Juros
– Competência 5: Álgebra
– Competência 6: Gráficos e Tabelas
– Competência 7: Estatística

Tudo resolvido e depois separado ? Então já sabemos qual competência o Enem exige em cada questão

Muito bom. Deu bastante trabalho, mas você conseguiu separar de que competência era cada questão. Essa seleção, além da resolução das provas anteriores, já ajudou muito na sua preparação para o Enem. Agora, certamente, você já está acostumado com o tipo de questão que cai na prova.

Se prestar atenção, vai ver que a maioria dos conteúdos, como, por exemplo, média, moda, mediana, metro cúbico, eletricidade básica, radiação, ciclos biogeoquímicos, geração de energia, evolução industrial, revolução russa, regra de três, porcentagem, probabilidade, república oligárquica,  república liberal, período militar, era vargas, pós guerra, ondas, correntes e potencia elétrica, hidrocarbonetos, soluções químicas, uso de mapas, modernismo, problemas ambientais, ambiente e sociedade, entre poucos outros, repetem-se, e muito, em todas as provas. Também vai notar que muito (a maioria) do que está nos livros de ensino médio e nas apostilas de cursinhos não aparece em nenhuma das questões do ENEM, ou aparece muito pouco.

O mesmo acontece com a avaliação de suas capacidades cognitivas e de sua visão ética da sociedade. Reparando bem, você verá que a valorização do meio ambiente sustentável, da democracia, da diversidade cultural e linguística, das conquistas sociais, do uso da ciência em prol da melhoria da qualidade de vida, da defesa do consumidor, das novas tecnologias da informação, da análise de gráfico e tabelas, do entendimento de que mudanças econômicas trazem mudanças comportamentais, do respeito à diversidade linguística, da compreensão que as várias formas de expressão artísticas são representação da identidade dos povos e de que sofrem influências de seu tempo e espaço, entre outras questões, estão em todas as provas do Enem.

Quem passa por este processo, de resolver a prova e depois separar as questões por competências, já ‘navega’ com muito mais facilidade pelo exame. Ele passa a ser conhecido do aluno, e muitas vezes o aluno já olha pra questão e sabe o que o examinador queria avaliar quando elaborou aquela pergunta.

Mas ainda tem mais. Agora é a hora de, em cada prova, você separar o que errou e o que acertou. Faça tabelas de cada prova listando as competências que você errou e as que você acertou. Por exemplo, em Matemática, que tem sete competências cobradas, coloque na tabela quantas você acertou e quantas errou de ‘Gráficos e Tabelas’, de ‘Geometria’, e assim por diante, nas quatro provas.

ENEM – Como a nota é calculada e como saber disto pode te ajudar.

Seus erros e acertos no Enem nestas provas anteriores do ENEM são o ponto de partido para a próxima parte de sue plano de estudos (sim, cada pessoa precisa ter um plano de estudos diferente. Planos ou cronogramas de estudo feitos para os “alunos em geral ajudam pouco, na verdade chegam atrapalhar).  A partir deles você pode fazer sua estratégia para a prova. Ela é diferente para cada um dos participantes e depende dos objetivos dos candidatos. Como já disse na primeira coluna, se você quer Medicina, não tem jeito, terá que estudar todas as competências indicadas pelo exame (menos aquelas em que já acerta tudo, claro). Agora, quem quer entrar em cursos em que a nota de corte é menor ou mesmo apenas a certificação do ensino médio, pode escolher apenas alguns conteúdos e competências para estudar até o dia da prova.

ENEM – O que escolher para estudar ?
Temos algumas dicas para quem não vai disputar os cursos que exigem as notas mais altas. Naquelas competências em que você acertou tudo, ou quase tudo, sua capacidade de resolução das questões que estarão na prova já é alta. Cada hora dedicada ao estudo delas trará um acréscimo menor ao número de questões que você acertará. Aquelas competências em que você acerta boa parte das questões, uma porcentagem próxima ou um pouco acima de 50%, são competências que você tem mais facilidade de aprender e que a probabilidade de acertar mais questões, se você estudá-las, é muito maior. Vale a pena dedicar seus estudos a elas. Mas cuidado para não emperrar os estudos em um único conteúdo/competência.

Já as competências em que você acerta menos de 30% ou mesmo não acerta nada são as que têm mais dificuldades de aprender. Se o seu curso não tem uma nota de corte muito alta ou se você, mesmo em cursos de maior nota de corte,  tem só uma ou duas competências em que seu rendimento é não está muito bom, não tem problema deixá-las de lado, afinal de contas você não precisará acertar toda a prova para ter a nota que precisa no Enem e cada hora estudada nessas competências também trará pouco retorno na relação custo/benefício. Estas competências que voce acerta pouco só compensam ser estudas depois de você estar acertando muito (mais de 80%) nas outras competências.

Caso seu curso não exija uma nota muito alta, mas você tenha localizado muitas competências em que vai mal, é hora de fazer as contas e selecionar, entre as competências que não domina, quais você elegerá para estudar (somando o estudo das competências em que você tem domínio razoável).
O Guia Enem deste bolg/coluna do Estadão vai ajudar você a decidir o que colocar e o que deixar de lado na sua Estratégia de Estudos. Em um texto próximo iremos colocar a relação entre o  número de acertos relacionados com as notas de alguns dos alunos que fizeram o Enem de 2014. Estes dados são de uma pesquisa realizada por esta coluna/blog do IG com alunos do Brasil todo e que tem sido referencia para quem quer entender melhor como é a nota do Enem. Fazendo a prova de 2011 e comparando seus acertos em cada uma das provas com os dos alunos de 2011, você terá, comparando, uma nota aproximada de quanto pontuaria se tivesse feito tal prova.

A prova tem divisão entre questões fáceis, médias e difíceis?
Sim e não. É evidente que algumas questões são mais difíceis que outras, mas não existe, até hoje, uma proporção claramente definida por quem organiza a prova. O motivo mais evidente disso é que não são todas as questões que estão no Enem que são previamente testadas, informação que consta na resposta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e do Ministério da Educação (MEC) ao processo em que o Ministério Público do Ceará questiona o vazamento das questões de 2011. Lá está escrito que não necessariamente todas as questões do Enem foram previamente testadas. Por exemplo, se você pegar a prova qualquer prova do ENEM verá que várias questões foram feitas de fragmentos de textos publicados na imprensa poucos dias antes da prova. Não daria tempo de testá-las. É o caso, por exemplo, da própria redação da maior parte das Redações do ENEM.

Esse documento também diz que o método de TRI (Teoria de Resposta ao Item) utilizado é o método Bayesiano Expected a Posteriori (EPA), o que significa que a definição de uma questão como fácil ou difícil acontece só depois que a prova de todos os alunos concluintes do ensino médio é corrigida e que, provavelmente, até as questões testadas ganham peso só depois dessa correção.

Se acerto uma questão difícil e erro uma fácil, o método ‘anti-chute’ cancela meu acerto?
Apesar de o MEC e quase toda a imprensa afirmar que sim, a questão é um pouco mais complicada. Na verdade, a nota do Enem não é dada ao caminho que você percorreu em cada uma das quatro provas . E nem o erro de uma questão cancela o acerto de outra. A nota do Enem é dada, em cada uma das quatro provas objetivas, é sempre dada ao caminho que cada aluno percorreu. Sendo assim, dois alunos, por exemplo, com 30 acertos em matemática, terão notas diferentes se não tiverem acertado as mesmas 30 questões. Um aluno com 29 ou 28 acertos pode ter uma nota maior do que aquele que acertou 30, desde que quem acertou 28 questões tenha feito um caminho mais coerente do que estes dois outros que acertam 29 e 30.

Como é feito esse cálculo? Simples. Se um aluno acertou 30 questões e foram as mesmas 30 que milhares de outros alunos, a TRI entende que ele teve um caminho mais consistente do que um aluno que acertou sozinho um conjunto de 30 questões. Milhares de alunos com os mesmos 29 acertos terão uma nota maior do que o aluno que acertou sozinho um conjunto de 30 questões. O que o Inep/MEC chama de método ‘anti-chute’ está relacionado ao caminho que o aluno escolheu, e não a cada questão respondida.

Por que a nota do Enem nunca é zero e nem 1000?
A nota que o Enem divulga em cada uma das quatro provas objetivas é bem diferente das notas que estamos acostumados a ver no dia-a-dia porque não é em escala decimal (0 a 10, a 100, a 1000, etc.). É uma nota divulgada em uma escala diferente, chamada de desvio padrão. Esta escala de desvio padrão do Enem tem como média 500 e 100 pontos a mais ou a menos a cada desvio padrão que o aluno tiver em relação à média dos alunos concluintes do ensino médio (quando o caminho do aluno não completa um desvio padrão inteiro, o Enem coloca este caminho na curva de desvio padrão dos alunos concluintes do ensino médio e atribui uma nota fracionada). É uma conta bastante difícil de fazer, sobretudo para milhões de provas, e ela só é possível graças a modernos programas de computadores.

Para tentar facilitar o entendimento, vamos imaginar que a nota não fosse dada ao caminho, e sim ao número de acertos de questões. Vamos usar como exemplo as provas de matemática do Enem. O caminho médio de matemática ( a nota 500 ) foi recebido por alunos que acertaram algo entre 9 e 10 questões das 45, dependendo quais foram as 9 ou 10 questões acertadas. A esse aluno que representava exatamente a média, foi dada a nota 500. Vamos agora fazer de conta que nem as questões e nem o caminho tenham importância para a nota. Imagine que a média de acertos em matemática, dos alunos concluintes do Ensino Médio, tenha sido 10 acertos. E, para facilitar nossas contas, que, dos milhões de pessoas que fizeram a prova de 2011, exatamente um dois milhões e um eram concluintes do Ensino Médio. Para fazer o cálculo do desvio padrão, teríamos que  colocar todos estes alunos, pela ordem de coerência de sues acertos, em um eixo x. O aluno mediana recebe nota 500.

Para definir o desvio padrão, o computador faz um cálculo que confere a diferença de acertos de cada aluno em relação à mediana .  A sua nota no Enem é dada para sua distância da mediana. É por isso que as maiores notas do Enem, divulgadas pelo Inep/MEC, sempre estão em matemática. Como os alunos acertam em média menos questões dessa área, quem acerta tudo fica a uma distância maior da média do que quem acerta tudo em Linguagens, onde a média da quantidade de acertos é bem maior. Devemos lembrar, como explicado antes, que essas notas são dadas considerando os caminhos dos alunos, e não pura e simplesmente o número de acertos totais.

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