ENEM erra e todos podem pedir pra fazer uma nova prova

Mateus Prado

03 Dezembro 2015 | 02h21

Santa Rita do Sapucaí é uma simpática cidade no interior de Minas Gerais. Em outubro, nos dias da aplicação das provas do ENEM, em uma das escolas em que houve ENEM na cidade os fiscais ofereceram aos candidatos uma hora a mais de prova. Todo candidato que solicitou uma hora a mais, naquela escola, pode contar com este “direito”. Vale lembrar que  isto não está previsto no edital do ENEM 2015. Somente candidatos com necessidades especiais podem ter uma hora a mais de prova e mesmo assim precisam indicar isto no dia de inscrição no ENEM e apresentar o laudo se solicitado pela organização do exame.

E não bastasse isto ter acontecido no primeiro dia  de prova, no segundo dia aconteceu a mesma coisa. Todos que pediram tiveram uma hora a mais de prova. A imprensa local denunciou, o MEC e o INEP fez que não era com eles e os alunos que fizeram o ENEM nesta escola passaram mais de um mês com dúvidas. A prova seria anulada ? Eles seriam desclassificados ?  Ou poderiam fazer outra prova ? Se pudessem fazer outra prova isto valeria para todos que fizeram prova naquela escola ou somente quem teve tempo a mais para fazer a prova ? E aqueles que fizeram a prova no tempo normal mas foram obrigados a ficar em sala de aula até que o último da sala terminasse a prova ? (os três últimos precisam ficar em sala até o fim da prova para “fiscalizarem” se os fiscais fizeram tudo de forma correta até o final do processo de aplicação do ENEM em sua sala).

A imprensa local denunciou e o MEC, na época, negou tanto que tivesse tido algum erro na aplicação como negou que a prova teria que ser aplicada pela segunda vez na cidade de Santa Rita de Sapucaí.

Neste final de semana alguns destes alunos começaram a receber telegramas do MEC/INEP com a convocação para fazerem a prova. 5 foram chamados para fazer a prova dia 01/12 e 96 foram chamados para fazer a prova no dia 02/12. E no dia 30 de novembro estes alunos receberam ligações do MEC/INEP.

Nos dias 01 e 02 de Dezembro foram aplicadas as provas do ENEM PPL (para pessoas privadas de liberdade) e em cidades que tiveram problemas no dia da primeira aplicação (por exemplo as duas cidades de Santa Catarina que não fizeram o primeiro ENEM de 2015 por causa das enchentes).

Nesta terça feira, a convite da TV Globo local (EPTV), estive em Santa Rita do Sapucaí para acompanhar o caso de perto. A aplicação no dia, apesar de muito cuidadosa e dedicada em afastar a imprensa, não seguiu todos procedimentos normais em dia de aplicação do ENEM. A lista com quem deveria fazer a prova não foi afixada em local de fácil acesso, como deve ser. E no mesmo Centro Educacional (com ensino superior e ensino médio) que foi aplicada a prova acontecia, no prédio ao lado, provas para alunos do Ensino Médio daquela escola. Na portaria uma fita amarela e preta dividia quem poderia ir  para um prédio ou para o outro. E os fiscais que apareceram na porta do local de prova estavam bem mal humorados. Por algum motivo a presença da imprensa incomodava muito eles.

Em conversas com vários alunos que fariam(fizeram) a prova no dia 02 de Dezembro descobri que os erros do MEC/INEP continuaram na segunda aplicação da prova na cidade. Alguns alunos que NÃO usaram uma hora a mais de prova no segundo dia foram convocados para fazer a prova. Ora, se para alguns fazer mais uma vez o ENEM pode ser visto como um maleficio, como mais um dia de desgaste psicológico e físico, para outros fazer de novo a prova do segundo dia do ENEM pode ser visto como uma nova oportunidade.

Eis ai a abertura jurídica que o erro do ENEM provocou. Foram convocados para a segunda aplicação do ENEM alunos que não usaram uma hora a mais para fazer a prova em outubro. Teoricamente, agora, qualquer pessoa pode requerer, judicialmente, que este direito seja estendido também  para ele. É importante destacar que a isonomia entre os candidatos que fizeram o ENEM foi quebrada quando alunos que não tiveram esta hora a mais em Minas Gerais tiveram uma segunda chance. É esta quebra de isonomia que faz com que qualquer pessoa possa pedir que a isonomia seja restabelecida. A questão de dificuldade entre as duas provas dificilmente seria aceita em um tribunal como quebra de isonomia (apesar de ser). Esta segunda tese é muito difícil de sustentar, ainda mais quando o MEC afirma que só o uso da TRI resolve qualquer problema relacionado à diferenças de dificuldades (nem sempre resolve).

E não são poucos os alunos que se enrolaram em um dia com pouco tempo para fazer a prova e tendo pela frente a Redação, os textos longos de Linguagens e as contas da prova de Matemática. A ampla maioria de quem fez o ENEM certamente não quer passar por uma nova prova neste ano (ainda mais sabendo que terá que ficar com a nota da segunda prova, mesmo que ela seja menor que a nota da primeira). Mas com certeza temos algumas milhares de pessoas que gostariam de fazer novamente a prova do segundo dia do ENEM.

Redação e prova mais fácil

O tema da Redação da segunda aplicação da prova do ENEM foi “O histórico desafio de se valorizar o professor”.  Quem fez a prova afirmou que tanto Linguagens como Matemática foi mais fácil que que na prova aplicada em Outubro. Em 2015 o ENEM teve a prova mais difícil de todos os anos desde que começou a selecionar para Universidades Públicas (em 2009), principalmente em Natureza.

MEC, por favor, escute os alunos 

Continuamos nossa jornada para que conquistemos mais uma hora no segundo dia de provas no ENEM. MEC, INEP ou qualquer outra pessoa de bom senso e de influência no governo, escutem : No segundo dia É IMPOSSÍVEL FAZER BEM TODA A PROVA DO ENEM COM SOMENTE 5H30Min. Os alunos que fazem ENEM possuem outras demandas, mas esta é a principal, é a maior de todas. Não custa nada dar uma hora  a mais de prova, isto irá beneficiar alunos dedicados e não prejudica quem não quer usar uma hora a mais. O que é desnecessário é meia hora a mais, sem fazer nada, antes do inicio das provas.

Não perceberam que na escola que foi oferecido uma hora a mais de prova só 5 pessoas foram chamadas para o primeiro dia de provas e 96 foram chamadas para o segundo dia ? Isto não indica nada para os técnicos do MEC/INEP ? E tem técnico do MEC/INEP sentando nas cadeiras nos dias de prova para ver se conseguem resolver tudo e fazer a Redação em apenas 5h30min ? Tentem isto, eu duvido que qualquer pessoa que saiba toda a prova e que faça uma boa Redação consiga fazer isto em apenas 5h30min.

Não é razoável que o pré teste, quando é feito (não são todas questões que são pré testadas), aplique 48 questões em 4h e que no segundo dia do ENEM os alunos tenham que resolver 90 itens (questões) e fazer uma boa Redação em apenas 5h30mim.

Aplicar a prova de uma forma em que boa parte dos alunos precisam chutar, no segundo dia, 10, 15 ou 20 questões, mesmo sabendo resolver parte delas, prejudica inclusive o cálculo da nota em TRI/Desvio Padrão. A nota que sai acaba não refletindo a verdadeira proficiência do aluno.

Prova de Natureza

Como pedido por vários de nossos seguidores tentei contato, nesta terça feira, com o Chico, que é presidente do INEP. O contato era para marcar uma conversa técnica sobre o que foi a prova de Natureza deste ano. Ela foi uma anomalia, um desvio de percurso, ou nos próximos anos é isto que deveremos esperar de Natureza ?

Os dados de nossos seguidores indicam que quem acertava muitas questões de Natureza no ENEM (mais de 40) continuou acertando muitas questões. Quem acertava poucas questões (12 ou menos) continuou acertando poucas questões. Mas aqueles que acertavam 20, 25, 30 questões tiveram um número de acertos, em 2015, muito menor.

Para simplificar, o que aconteceu foi que as questões difíceis vieram, e em 2015 em maior quantidade, as questões fáceis vieram, mas desta vez foi esquecida as questões de dificuldade média. E o que isto prejudica a prova e depois o SISU e PROUNI ? Simples, as pessoas de proficiência média em Natureza não foram bem discriminadas e ficarão com notas que não correspondem ao que são. Também devem ser prejudicadas por o ENEM não conseguir captar que eles possuem proficiência média em Natureza e isto não refletir-se no cálculo da nota para o SISU e/ou PROUNI e/ou FIES. INEP, quem faz isto é o vestibular tradicional. O ENEM não nasceu pra ser assim. Com 10 ou 15 questões de dificuldade alta já da pra encontrar quem tem alta proficiência. As questões precisam ter uma melhor divisão entre as várias dificuldades.

O Chico é um cara muito competente e muito dedicado. Sempre admirei muito o trabalho dele, desde antes de sua indicação para dirigir o INEP. Mas, não sei por qual motivo, uma de suas secretarias pegou meus contatos, garantiu que eu iria ter um retorno breve para meu pedido de agenda com ele e isto não aconteceu. Gostaria de lembrar o INEP que minha preocupação é com a Educação Brasileira e que o ENEM cumpra bem sua missão de induzir as mudanças necessárias no Ensino Médio. Ensino Médio conteudista demais até pode parecer  que ajuda os alunos, mas não faz isto. O conteudismo exagerado atende principalmente o interesse dos Sistemas de Ensino (Sistemas de Ensino são uma anomalia de alguns países como Brasil, México e Venezuela).  Precisamos dar um sinal claro para a sociedade que as próximas provas de Natureza não serão como a de 2015. Se não fizermos isto estaremos beneficiando Sistemas de Ensino, Cursinhos e Escolas de Elite. Continuo aguardando seu contato Chico.

Vejam mais :

Neste link você encontra uma reportagem com um aluno que não teve uma hora a mais de prova em Outubro e mesmo assim fez mais uma vez ENEM em Santa Rita do Sapucaí, na sua segunda aplicação. Quem quiser mais informações pode me acompanhar na minha Fan Page “Entenda o ENEM“.

Amo vcs. Não vou abandonar ninguém até que passem em uma Universidade Pública ou no PROUNI. Seguimos juntos.