ENEM: A questão que não valeu nenhum ‘Vintém’!

Mateus Prado

08 Novembro 2014 | 23h22

Não da pra começar a comentar o primeiro dia de prova do ENEM de 2014 sem falar de uma questão absurda, sobretudo em um exame que preza pelo respeito aos Direitos Humanos (é um dos cinco eixos cognitivos em que a prova é construída).

Impossível não ter lido a questão que falava da Revolta do Vintém, no governo de Dom Pedro II, e não ter clareza que quem a fez teve a intenção de fazer um paralelo entre aquela Revolta e as Manifestações de Junho de 2013 no Brasil (as dos 0,20 centavos).

Foi agressiva a questão, principalmente considerando que parcela considerável de quem fez o ENEM 2014 estava, de corpo, ou de Face, nas manifestações de Junho, ver uma questão que trata com tanta naturalidade um ‘oficial’ do estado que ‘ordena fogo’ (sic) sobre a população.

E, para piorar, a violência do Estado aconteceu, e parece haver concordância do autor da questão, para “salvaguardar o espaço público” (se o ENEM não decidir mudar o gabarito no dia de sua publicação oficial, o que só pioraria a situação).

Meu profundo desprezo por quem, seja quem for, utilizou a prova do ENEM para justificar as milhares de vezes, contra milhares de pessoas, que os direitos humanos foram desrespeitados, pelo Estado, nas manifestações de 2013 e depois nas de 2014 (Copa).

Ahhhh, e estas questões de Química…

O ENEM veio como de costume. Questões fáceis, questões médias, questões difíceis e questões de Química…

De cara é bom deixar claro que, para quem sabia/conseguia resolver todas as questões da prova as quatro horas e meia não foram suficientes. Isto, que era uma característica do segundo dia (faltar tempo pra fazer todas as questões), agora acontece desde o primeiro dia de prova.

O MEC precisa entender isto. Será que é muito difícil colocar alguns de seus técnicos, ou até mesmo alguns de seus formuladores de questões, para fazer a prova e descobrir que o tempo disponível não é o suficiente para a média dos alunos brasileiros que fazem toda a prova ?

É por este motivo que eu defendo que toda pessoas declarem, já na inscrição, Deficit de Atenção e tenha uma hora a mais de prova. Se o MEC não entende, mesmo depois de mais de cinco anos do novo formato do ENEM, que é preciso mais tempo pra fazer a prova, que os alunos façam o MEC compreender. Que ‘tomem’ a uma hora a mais necessária, a cada dia, pra fazer o exame com tranquilidade e sem ser injustiçado.

Sobre as provas tivemos um exame muito melhor do que o de 2013. As questões de Humanas estavam mais fáceis e a grande maioria interpretativas. Simples, fora duas ou três questões em que o gabarito não ficava muito claro para o aluno, ou para professores, que não conhecem as competências e habilidades propostas pelo ENEM.

Em Natureza a prova seguiu a lógica de ser, em biologia e física, uma inter relação entre conteúdo e cognição, mas com um conteúdo muito menor do que o do ensino médio. Já em Química, como em todos os anos, apesar do ENEM cobrar em sua maioria, nesta matéria, somente quatro ou cinco capítulos das dezenas que estão nas apostilas dos cursinhos pré vestibulares, veio muito mais difícil do que as Demais questões da prova. Mas isto não é nenhuma novidade pra quem se preparou resolvendo as provas antigas do ENEM (a partir de 2009). Sempre foi assim. E, além do mais, NÃO é necessário acertar todas as questões para passar em qualquer curso oferecido pelo SISU ou pelo PROUNI, nem mesmo em Medicina.

Você também se sentiu na balada ?

Po, e aquele detector de metal de balada ? Não é igualzinho os detectores usados em baladas pra saber se os seus frequentadores estão armados ou para verificar se tem algum tipo de droga dentro do celular ? Pois é, é um avanço do ENEM o uso destes detectores (foram usados quando as pessoas iam ao banheiro). Mas tem um problema. É verdade que ele é capaz de detectar equipamentos de comunicação como celulares. Mas ele não consegue detectar, por exemplo, equipamentos como baterias auxiliares e modens de internet. E, se não consegue detectar estes equipamentos, também não consegue/conseguiria detectar equipamentos de comunicação menores e de maior tecnologia, como ‘pontos’ ou equipamentos similares aos antigos Bips. Parabéns ao ENEM pela iniciativa, mas precisa utilizar detectores de maior precisão.

Um ano para fazer uma questão ???

Uma coisa não sai da minha cabeça. Como um examinador demorou sete meses pra fazer uma questão ? Onde ele ficou este tempo todo ? Preso no INEP em uma salinha com câmeras, sem comer e sem poder ir ao banheiro?

Sim, a questão que tem dois textos que falam sobre a defesa da Democracia tem o primeiro texto base retirado da Internet em 2013 e o segundo em 2014. Não imagino o que, no manual de construção de Item, do ENEM, de margem para isto.

(nem vou comentar o ENEM levar a sério, depois que a sociedade brasileira já compreendeu, inclusive boa parte de quem apoiou o golpe de 64, que ele não ajudou em nada a democracia, um depoimento, de 84, que defende o legado da Ditadura Militar)

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