A “Droga da Obediência” no ENEM

Mateus Prado

20 Maio 2014 | 16h49

Cursinhos aconselham alunos a obter diagnósticos de Déficit de Atenção para ter uma hora a mais no exame

 

Durante os últimos dias, recebi várias denúncias, em geral de cursinhos contra cursinhos, de que seus concorrentes estariam aconselhando alunos a indicar necessidade de atendimento especial nos dias de prova do ENEM, alegando Déficit de Atenção. Isso garantiria aos alunos, se comprovado o diagnóstico, uma hora a mais para realização do exame a cada dia de aplicação da prova.

O distúrbio é reconhecido pelo MEC como real, tanto que garante tratamento diferenciado na prova para seus portadores, mas ainda há um grande debate na comunidade científica sobre este assunto. Uma parte dos pesquisadores, como 

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  • Cida Moisés, da Faculdade de Medicina da Unicamp, acreditam que o tratamento químico imoderado é uma espécie de genocídio do futuro, e que a maior parte dos diagnosticados é composta simplesmente por pessoas questionadoras, que tem grandes sonhos, que ousam querer mudar o mundo.  Já outros, como Guilherme Polanczyk   PDF
, professor de psiquiatria da USP, acreditam que estes distúrbios e seus tratamentos são subtratados no Brasil.

Um fato que causa estranheza é que apenas 1.656 candidatos declararam Déficit de Atenção e solicitaram atendimento especial no Enem em 2013. Segundo dados de pesquisas científicas, estima-se que, em uma população de cerca de sete milhões e duzentos mil inscritos, entre 70.000 e 400.000 dos candidatos tinham o distúrbio, pelo menos na categoria em que ele é reconhecido pelo MEC e pela comunidade psiquiátrica. Se menos de 2 mil candidatos pediram uma hora a mais de prova, é possível que não o fizeram por que este direito não foi amplamente divulgado.

Acrescento a isto o fato de que muitas das pessoas que hoje fazem a prova do ENEM têm mais de 25 anos. No Brasil, o DDA é conhecido há cerca de 10 anos. Portanto, muitas dessas pessoas sequer sabem quem têm esse distúrbio e, por isso, não chegam a declarar a necessidade de atendimento especial.

 

Isso é fraude?

As denúncias que recebi, e que reproduzi em minhas redes sociais, de que cursinhos estão incentivando alunos a obter diagnósticos de DDA ou de TDAH, podem indicar uma tentativa de fraudar a prova, já que não tem como discutir muito com um atestado de DDA ou de TDAH emitido por um médico (é bom lembrar que boa parte de quem quer uma vaga em Medicina, o curso mais disputado, tem na família médicos, que conhecem outros médicos etc.). A fraude, se existe (no caso de diagnósticos falsos), é, ou será, principalmente, de médicos que emitirem atestados sem consistência para beneficiar os solicitantes, e não dos cursinhos propriamente.

Esta coluna irá pedir ao MEC, depois de consolidados os dados das inscrições, o índice (percentual) de alunos, por cidade, que declararam Déficit de Atenção. Apesar de não comprovar, por si, fraude alguma, a análise de dados pode apontar tendências, já que é quase impossível que uma cidade tenha mais de 5% dos candidatos com declaração do distúrbio.

 

Como resolver

O MEC tem uma forma fácil de resolver este problema, e que resolveria outro muito maior – aumentar o tempo de prova para todos os candidatos, pelo menos no segundo dia.  Qualquer educador que fez as provas do ENEM nos últimos anos sabe que cinco horas e meia são insuficientes para, no segundo dia de exame, redigir uma boa redação, interpretar os longos textos de linguagens e fazer os cálculos, mesmo que simples, de matemática. O aluno dedicado, e que conseguiria fazer toda a prova do segundo dia, hoje é o maior penalizado, pois tem que chutar entre 10 e 20 questões para concluir o Exame a tempo. Uma hora a mais de prova no segundo dia para os alunos sem pedido de atendimento especial iria desencorajar boa parte das pessoas de fraudar as regras para obter vantagens indevidas.

Para mim está claro que qualquer tentativa de fraude é ilegal, mas a insistência do Ministério da Educação em desconsiderar a realidade de tantos bons alunos que não conseguem terminar a prova no segundo diae a falta de pesquisas sérias, por parte do INEP, que demonstrem isso, coloca uma dúvida em minha cabeça: será que o aluno que se dedicou o ano inteiro, ou vários anos, a estudar para entrar em uma Universidade Federal e tem negado o direito de fazer toda a prova, mesmo que sejam somente alguns milhares de casos, está mesmo cometendo uma imoralidade quando encontra uma atalho, que está na regra, para lhe garantir uma hora a mais de prova? Ou é o MEC que erra, de forma imoral, e talvez até ilegal, em negar este direito ao aluno?

 

Controvérsias sobre o Déficit de Atenção

O Diagnostico do Déficit de Atenção é uma questão muito polêmica. Nos EUA, por exemplo, pelo menos 9% das crianças são diagnosticadas e tratadas como portadoras de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Na França, esse índice não chega a 0,5%.

Muitos educadores, como eu, costumam chamar a Ritalina, medicamento mais utilizado para o tratamento do Déficit de Atenção, de “Droga da Obediência”. Como o medicamento traz resultados em relação ao comportamento em casa e na sala de aula mesmo em quem não tem TDAH ou DDA (Desvio de Déficit de Atenção sem Hiperatividade), muitos pais, professores e médicos costumam abusar de seu uso, confundindo, em alguns casos, a mudança do comportamento causada pelo remédio com um diagnóstico errôneo de DDA. Muitas vezes pessoas com problemas sócio-familiares, com depressão, ou com muita energia (resiliência) para enfrentar os desafios do dia a dia são erroneamente diagnosticadas.

Também encontramos o contrário – pessoas que possuem Déficit de Atenção sem Hiperatividade que não são diagnosticadas, principalmente por não apresentarem mau comportamento. São aquelas pessoas sonhadoras, que vivem “no mundo da lua”, e, geralmente, são taxadas de preguiçosas, pouco inteligentes, desinteressadas ou incapazes.

existe a questão econômica envolvida, é claro. Tratar TDAH ou DDA não é coisa barata, sobretudo se o acompanhamento médico não se limitar a emitir a receita do medicamento, se estiver associado a tratamento psiquiátrico, psicológico ou psicopedagógico. Naturalmente vemos que, em escolas particulares, o índice de pessoas diagnosticas com DDA ou TDAH é muito maior que em escolas públicas da periferia.

 

Uma história pessoal

 Tenho TDAH e só descobri após ingressar no Ensino Superior. Antes eu não tinha nem ideia de que isso existia e de que minhas sinapses funcionavam de maneira diferente. Em palestras pelo Brasil, sou sempre perguntado sobre o uso da Ritalina como forma de dopping para a realização de provas e trabalhos. Sempre aconselho que o uso só seja realizado por pessoas que tenham o diagnóstico por um bom médico, e sempre com direito a uma segunda opinião. Também indico textos pró e contra o uso da medicação.

Com o tempo, formei minha opinião contra o uso da medicação. Apesar de ser verdade que ela acalma e ajuda focar no trabalho e/ou nos estudos, minha experiência pessoal demonstrou que ela diminui muito a criatividade e a capacidade de inovação. Como nunca quis estar ma média (ser medíocre), fiz a opção de não usá-la.

A Ritalina é uma espécie de cocaína (causa efeitos similares) legalizada, ou cocaína de farmácia. A ampliação de seu uso de forma indiscriminada como droga que faz com que alunos tenham “bom” comportamento (que fiquem dopados), além de adiar as necessárias reformas pedagógicas que tornem a escola inclusiva e interessante a todos os alunos, coloca em risco toda uma nova geração de pensadores, líderes, cientistas, entre outros.Ela está acabando com as altas habilidades de boa parte de nossos melhores talentos. Neste sentido, acredito que ela pode sim causar um genocídio do nosso futuro.

 

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OBS: É importante ressaltar que, além de pessoas com Déficit de Atenção, também têm direito a atendimento especial na prova do Enem os candidatos com autismo, baixa visão, cegueira, deficiência auditiva, deficiência física, epilepsia e deficiência intelectual. Também é garantido o atendimento específico para estudantes em classe hospitalar, gestantes, idosos, lactantes e sabatistas.