Uma sequência didática pode favorecer múltiplas aprendizagens

Uma sequência didática pode favorecer múltiplas aprendizagens

Escola Lourenço Castanho

16 Dezembro 2015 | 10h02

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O professor de Ciências Cristiano Guastelli nos conta como a pergunta “Onde existe água?” desencadeou uma sequência de trabalho que mobilizou os 4ºs anos de 2013.

Como surgiu a ideia desta sequência didática?
“Água” era o tema do 3º trimestre. Os alunos sabem onde existe água, mas a ideia era pensar como se comprova isso, como sabemos. Nos alimentos, por exemplo, os alunos nem sempre percebem que há água. Será que se dão conta de que na laranja há muita água? Nem sempre. O foco dessa sequência didática estava na investigação. Um dos objetivos do Fundamental 1 é o trabalho com o procedimental, aprender como investigar. Realizar experimentos traz novas informações, não há respostas, daí a necessidade de interpretação, discutir é fundamental. Desse modo, é possível estabelecer outra relação com a questão proposta, voltar à questão inicial, pensar caminhos.

A questão disparadora do trabalho – “onde existe água?” Pode ser considerada uma questão potente?
Nem um pouco. Os alunos sabem onde existe água. A pergunta aqui funciona como um contexto, uma forma de levantar conhecimentos prévios. Quando se chega às demais perguntas: existe água nos alimentos? Existe água na batata? Como eu descubro? Aí sim vão surgindo problemas que mobilizam procedimentos que mobilizam sistematização e assim vai.

Essas perguntas que vão se desdobrando, se encadeando uma na outra de algum modo, favorecem a curiosidade dos alunos, muito aguçada nessa faixa etária?
Certamente. No caso da batata, fizemos uma polarização: eu opinei que a batata não tinha água, a auxiliar do laboratório, Marisa, dizia que tinha água sim. Houve todo um desafio de a turma provar que “o professor estava errado”. Depois do experimento com a batata, os alunos fizeram experimentos com outros alimentos: maçã, chuchu, tomate etc. Para cada alimento, foi pensada uma estratégia investigativa diferente. Com o pão, por exemplo, diferentemente do que ocorreu com a batata, o sal não ajudou em nada. A estratégia foi outra. Após o final do experimento, uma nova pergunta surgiu: por que o pão ficou duro? E a partir daí continuamos a investigação. 

Qual a importância de construir respostas numa sequência didática?
Quando os alunos constroem as respostas, a sequência didática fica mais significativa para eles. Há a incorporação do passo a passo, da investigação, do tratamento das hipóteses etc. Se pensarmos só no conceitual, sem questionarmos o porquê, o ensino acontece mais rápido, mas fica empobrecido. Perdemos toda a aprendizagem da construção do pensamento investigativo.
E como lidar com a ansiedade de se chegar ao ponto, ao que é considerado o aprendizado real?
Se eu quisesse apenas chegar ao conceito, a sequência teria acabado quando se comprovou que na batata havia água. Aí é aquele caso em que o procedimento só serve para encaminhar o resultado, mas não partiu do aluno, o trabalho continua na mão do professor. É preciso lembrar que o estudo de estratégias de pesquisa e do tratamento de dados, a revisão de hipóteses é aprendizado também.

Algumas das perguntas trabalhadas nesse projeto fizeram parte do Livro dos Por quês. Como surgiu a ideia desse livro?
Foi um projeto de 2013. As questões deles, curiosidades que discutíamos em sala de aula, eles anotavam e a gente discutia como conseguir as respostas. Ao invés de dar a resposta, eu indicava caminhos para eles chegarem à resposta. Podia ser via internet, livros, experiências.

Há aprendizados para o professor numa sequência didática ou apenas para o aluno?
Claro! É interessante o trabalho com as sequências didáticas porque mostra a forma como os alunos pensam, como se organizam, onde se equivocam no trajeto. E esses dados auxiliam o professor na continuidade do trabalho.

Esse foi um caminho para relacionar o projeto de série com as sequências didáticas?
Sim. No 5º ano, por exemplo, o curso começou com um desafio: havia um balde pesado no laboratório de ciências. A ideia era eles encontrarem alguma alternativa para levantar o balde com mais facilidade, chegar à ideia de alavanca. Essa palavra, inclusive, alavanca, estava na pergunta problema do projeto de série: “Por que o café pode ser considerado uma alavanca para o desenvolvimento de São Paulo?”. Depois de vários experimentos utilizando as alavancas, os alunos passaram a compreender melhor o conceito, o significado da palavra e a interpretar o sentido de alavanca em mais de um contexto.

Para conhecer mais sobre a sequência didática “Onde existe água?”, leia o registro dessa sequência didática, disponível no caderno de Práticas Compatilhadas de 2013.

Por Roberta Alves.