As marcas da Lourenço: A avaliação e a devolutiva na história da Escola

As marcas da Lourenço: A avaliação e a devolutiva na história da Escola

Escola Lourenço Castanho

10 Fevereiro 2016 | 12h00

08Em um texto escrito há cerca de um ano, à época da inauguração do Centro de Memória e das comemorações do cinquentenário da Escola Lourenço Castanho, escrevemos o seguinte:
“Quais eram as práticas pedagógicas do passado? Como estavam organizadas as salas de aula? Quais eram as propostas de alfabetização de outros tempos e como elas se transformaram? Quem eram os pensadores mais lidos pela Escola, quais eram os referenciais teóricos? Como se ensinava Matemática, Português, Música e tantos outros componentes nas séries iniciais do Ensino Fundamental 1? Quais foram as primeiras saídas de estudo de campo promovidas no Ensino Fundamental 2 e como elas estavam articuladas ao dia a dia da sala de aula? Como eram escritos os planejamentos dos cursos nos anos 1970 ou 1980? Como era visto o papel do aluno na sala de aula há 20 ou 30 anos? Como estava organizada a Orientação Educacional desde os anos iniciais da Educação Infantil? Como a Lourenço lidou com os desafios da formação dos jovens e a sua preparação para os exames externos depois que abriu o Ensino Médio? Como a Escola foi crescendo, ampliando os seus horizontes e inaugurando novos ciclos?”
Tratava-se de uma consideração sobre as perguntas que o Centro de Memória pode nos ajudar a responder e que nos levam a importantes reflexões acerca das práticas em sala de aula e de como elas vêm se transformando, além de nos contarem um pouco da história da instituição. Tratava-se, enfim, de perguntar o que mudou e o que permaneceu na Lourenço Castanho ao longo dos últimos 50 anos.
Com o texto que segue, temos a intenção de levar adiante algumas dessas perguntas. Inauguramos, aqui, uma sessão permanente da Revista do NIDP, denominada “As marcas da Lourenço”, em que pretendemos, a cada edição, eleger temas ou questões contemporâneas e resgatá-los na história da Escola, em suas publicações, em suas práticas do passado. Para tanto, é importante ressaltar que o Centro de Memória constitui-se como um espaço privilegiado de pesquisa e investigação aberto a toda comunidade escolar. Esta sessão passa a ser, também, um convite aos educadores para que se aproximem da história da Lourenço a partir do contato com o Centro de Memória.
Em um momento em que se fala tanto sobre “novas e modernas” práticas pedagógicas, o lugar da “inovação” na sala de aula e a necessidade de “atualização permanente” dos fazeres pedagógico e educacional, é interessante olhar para o passado da Escola e reconhecer, no percurso da Lourenço, a presença de ações hoje consideradas fundamentais. Em alguns aspectos, uma das marcas da Escola ao longo da sua história é estar na vanguarda das práticas pedagógicas e educacionais, discutindo e implementando propostas que só mais tarde ganhariam destaque nos debates sobre a educação.
Da mesma forma, destaca-se o fato de que a Lourenço esteja passando por um processo de revitalização da proposta curricular em que muitas das suas marcas históricas se fazem presentes. É possível reconhecer, na Escola do presente, práticas que nos remetem ao passado da Lourenço e que não perderam o seu vigor e a sua atualidade – pelo contrário: tornaram-se ainda mais atuais e necessárias, o que ilumina, de maneira interessante, a trajetória pretérita da Escola.
Para este primeiro texto, escolhemos um tema bastante atual e que tem sido objeto de muita reflexão em todas as unidades da Lourenço: o tema da avaliação e da devolutiva. Chama a atenção o fato de que algumas de nossas questões contemporâneas sobre avaliação já estivessem sendo pensadas, discutidas e praticadas há mais de 40 anos.
No início de sua história, uma parte das discussões realizadas pela Escola se transformava depois em artigos e dossiês publicados na revista Educação para o desenvolvimento, que foi criada com o objetivo inicial de divulgar o trabalho da Lourenço entre os pais e, depois, de contribuir com o debate público sobre educação e difundir um pouco da experiência da Escola, a partir das questões práticas e teóricas que se colocavam no dia a dia do fazer escolar.
Entre os exemplos, encontramos um interessante debate sobre a questão da avaliação e da devolutiva realizado na Educação para o desenvolvimento nº 26, de novembro de 1971. Reproduzimos aqui um trecho do artigo “Planejamento do Ensino”:

“O processo de avaliação deve ser contínuo. A fim de se avaliar o estágio de crescimento do aluno, a Escola necessita conhecer a situação do aluno antes dele entrar na Escola ou então antes de ser desenvolvido aqueles conceitos. (…) O sistema de avaliação requer, por parte da equipe, uma percepção clara dos critérios de avaliação, isto é, de que pontos de vista o aluno será avaliado, qual o valor relativo de cada um desses critérios, em que bases esses critérios serão selecionados, qual a justificativa para o uso desses critérios e dos diferentes pesos atribuídos a eles. Por exemplo, serão avaliados os trabalhos de casa? Será levada em consideração a participação em classe? (…) Os resultados da avaliação deverão ser apresentados aos alunos o mais breve possível, uma vez que devem levar os alunos a conhecer suas deficiências e possibilidades em cada área de atividade: feedback. De posse dos resultados apresentados pelo processo de avaliação, o professor poderá saber o grau em que os objetivos foram atingidos pelos alunos. Ele deverá identificar e anotar dificuldades e progressos individuais, deverá questionar as estratégias instrucionais usadas, bem como a sequência de testagem, ou seja, os critérios selecionados para avaliação e as tarefas propostas. Tal feedback deve levar o professor a adquirir informações necessárias que constituirão a base para novo estudo e replanejamento que produzirá reformulação nos objetivos, conteúdo, procedimentos instrucionais e no próprio procedimento de avaliação. O processo de avaliação deve dar ênfase à participação ativa do aluno. Uma vez que se espera que o aluno se responsabilize por sua própria aprendizagem, é preciso considerar que isto só ocorrerá se o aluno tiver uma visão clara de como está realizando, onde precisa melhorar e como fazê-lo. Se o sentimento de necessidade para aperfeiçoar provém do próprio aluno, como resultado de suas percepções e análises, ele terá melhores condições para aperfeiçoar-se do que se alguém lhe disser que precisa melhorar. O aluno precisa ver o problema como seu, a fim de poder resolvê-lo com mais eficiência. A análise que o aluno fará de sua realização, porém, atingirá efetivamente os objetivos a que se propõe se for feita em termos positivos e realísticos.”

O tema da devolutiva e a relação entre avaliação, devolutiva e planejamento é de tal forma atual que a “Carta ao professor” (que abre o “Material de apoio ao professor” da Proposta curricular, publicado em 2015 e entregue aos professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio) sugere uma reflexão sobre o tema na elaboração do planejamento deste ano:

“Ao longo de suas sequências você incluiu tempo de aula para dar devolutiva aos alunos? Os alunos conseguiram, durante as aulas, identificar seus erros e seus avanços por meio dos instrumentos de avaliação e das atividades propostas? Os indicadores foram apresentados aos alunos e retomados ao longo do trimestre? Lembre-se de que a clareza na proposta de critérios e indicadores auxilia e potencializa a aprendizagem dos alunos, sua autoavaliação e sua autorregulação, conduzindo-o a uma autonomia sempre desejada.”

Outro artigo publicado na mesma edição de 1971 da revista Educação para o desenvolvimento, “Avaliação da aprendizagem do ensino”, avança na discussão sobre a relação entre avaliação e planejamento:

“Avaliação não é uma forma de julgamento da criança, antes porém, constitui um processo de iluminação das forças das crianças, de suas fraquezas, de seus ganhos e de suas falhas, de tal forma que a criança possa usar as informações obtidas para melhorar sua aprendizagem e desenvolver-se, e o professor possa usar aquilo que ele vê para melhorar a forma como ensina e produzir aprendizagem. Neste sentido, a avaliação torna-se uma parte integral do processo de aprendizagem. Avaliação já não pode mais ser considerada como um processo final marcando uma conclusão. Ela se realiza continuamente como parte da aprendizagem e não apenas como um aspecto final desta. A avaliação produz-se sempre em relação aos objetivos referentes à maturidade. Quanto mais claro o objetivo, tanto mais eficiente a avaliação. Com este conceito de avaliação verifica-se maior importância do planejamento na construção do plano e no conhecimento exato dos objetivos estabelecidos para coisas planejadas. (…) Figurativamente, seria como se os professores estivessem continuamente perguntando a si próprios:
– Estarei caminhando realmente em direção aos meus objetivos?
– Estarei seguindo o melhor caminho, isto é, aquele que deverá produzir as experiências mais ricas?
– Que mudanças serão necessárias introduzir no roteiro que estou seguindo a fim de atingir os meus objetivos?
– Terei eu chegado onde me havia proposto chegar inicialmente? Que resultados consegui obter?
– Se eu não alcancei os meus objetivos, porque teria eu falhado?
– Que é que eu fiz diferentemente daquilo que eu havia planejado?
– Que é que eu deveria ter realizado diferentemente?
– Que outras coisas poderia eu ter feito e que não foram feitas?
– Agora que eu cheguei a este ponto de trabalho qual será a atividade seguinte?
Analisando este conjunto de proposições que o professor faz-se a si próprio, é possível verificar como o processo de planejamento e de avaliação caminham juntamente.”

Até mesmo a estratégia de sugerir ao professor que faça perguntas a si mesmo ao analisar o seu curso e o seu planejamento se mantém atual. Na análise das sequências didáticas, por exemplo, sugere-se ao professor que considere algumas questões, como “A sequência didática apresentou um desafio, uma questão ou uma pergunta?”, “Assegurou a clareza da percepção do estudante em relação ao desafio e aos assuntos tratados?”, “Estimulou o comportamento exploratório dos estudantes?” ou, de forma a reafirmar a importância da devolutiva, “Como e quando foi feito o feedback para o estudante?”.
Essa breve retomada histórica da questão da avaliação e da devolutiva nos conta um pouco da atualidade desse debate e da sua importância nas práticas pedagógicas desde os anos iniciais da escola até os dias de hoje. Ainda que seja necessário nos atualizarmos constantemente, não podemos perder de vista algumas reflexões que vêm sendo feitas há bastante tempo: não é possível formar um estudante autônomo sem que se dê a devida atenção à avaliação e à devolutiva, e isso vem sendo pensado desde pelo menos os anos 1970.

Por Eduardo Zayat Chammas.