Ação e Redação

Escola Lourenço Castanho

08 Janeiro 2016 | 18h00

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
[…]
(Caetano Veloso – Livro (CD) 1998)

A sociedade do século XXI é a da imagem. Facebook, blog, instagram. Todos querem ver e ser vistos, numa superexposição constante. Mas não nos esqueçamos de que esta é também a sociedade da palavra, especialmente da palavra escrita: leis, notícias, direitos e deveres, protestos e reivindicações circulam pela via escrita e é o homem letrado quem mais chances tem de inserir-se de forma abrangente e atuante na malha social. A leitura é conhecimento, entretenimento, cultura e, também, poder.
Para o educador pernambucano Paulo Freire, o ato de ler é importante porque amplia nossa possibilidade de ler o mundo. Se ao chegar à escola a criança já é capaz de ler, já que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, será na escola que ela desbravará o universo da palavra escrita, sem perder de perspectiva que ler um texto exige mais do que a decodificação das palavras, exige que se realize uma leitura da realidade ao redor, percebendo a importância social do texto e o contexto em que ele foi escrito.
Nesse sentido, o papel do processo educativo é o de potencializar nossa capacidade leitora. Decifrando palavras e textos, descobrimos novos mundos, aos quais temos direito mais do que dever, diria o crítico literário Antonio Candido. E a literatura ocupa lugar privilegiado no contato com a leitura no espaço escolar. Para Candido, a literatura seria o “sonho acordado das civilizações” e, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, também não seria possível haver equilíbrio social sem a literatura, sem a leitura que fantasia e reconstrói o cotidiano, atribui sentido a desejos, revoltas, frustrações.
O ato de ler foi também problematizado pelo romancista francês Daniel Pennac. Em sua enunciação sobre os 10 direitos do leitor, ele afirma que este contaria com direitos como os de não de ler, de pular páginas, de não terminar um livro. Num primeiro momento, parece quase uma desobrigação preguiçosa da leitura. Mas o que o autor busca reafirmar é o direito amplo de escolha, a liberdade. Sendo possível rechaçar uma leitura, intensificam-se direitos como os de reler, ler qualquer coisa em qualquer lugar, ler em voz alta.
No ano em que a Escola Lourenço Castanho completa 50 anos, o papel social da leitura, aprendizado escolar fundamental, se torna foco do olhar dos alunos na quarta edição de nosso Concurso de Redação. Depois que nos tornamos leitores formados, temos a tendência de esquecer a emoção de decifrar as primeiras letras, de formar palavras e mundos onde as imagens se compõem em nós mesmos e as telas são dispensáveis. Quem não tem uma história de amor, de estranhamento ou de desafio para contar a respeito de uma leitura que tenha feito? Quem não se perde decifrando sentidos que as palavras carregam, arranjadas de modo inusitado num conto, num poema, num ensaio sociológico, num manifesto?
Em 2014, nossos alunos foram desafiados a pensar sobre sua trajetória leitora, sobre a importância que a leitura – de textos e de mundos – teve e tem em sua formação como estudantes. Seja por meio de relatos pessoais, crônicas, poemas, artigos de opinião, dissertações, o foco da escrita está na relação entre o sujeito leitor e aquilo que ele lê, decifra, ressignifica.
Convidamos a comunidade escolar a compartilhar o resultado do concurso e refletir sobre o papel da escola e da leitura, de mundo e de textos – escritos, visuais, multimodais, pictóricos etc. – em nossas vidas.

Por Roberta Alves