A prática na formação inicial e a complexidade de formar professores
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A prática na formação inicial e a complexidade de formar professores

Instituto Singularidades

15 Outubro 2017 | 15h10

Em diferentes pesquisas, debates, notícias e reportagens sobre a formação de professores no Brasil, reiteradamente se coloca a importância da prática na formação inicial. Há uma crítica generalizada de que os cursos de formação de professores são muito teóricos.

Formar professores é tarefa bastante complexa. Por isso, resolvi abordar neste texto, mesmo que de forma breve, a questão da prática na formação inicial, apresentando alguns princípios e experiências que construímos no curso de Pedagogia do Instituto Singularidades.

 

A formação para a prática docente

Vários autores apontam que os primeiros anos na profissão são momentos muito importantes e determinantes para a carreira do professor, mas a formação inicial é preponderante para o modo como o estudante, futuro professor, será inserido na prática docente.

Já se nota a preocupação com essa inserção quando chegam candidatos para conhecer o curso de Pedagogia e uma afirmação se repete: vocês formam para a prática, os outros cursos são muito teóricos. Mas, como é formar o professor para a prática?

É preciso ter uma concepção de prática. Prática não é sinônimo de fazeção. Além disso, estamos nos referindo a uma prática específica: a prática docente.

Para formar o professor para a prática é preciso ter ações estratégicas. Quais são elas? É aqui que vamos nos centrar.

Algo bastante comum de lermos e escutarmos é que é preciso articular a teoria e a prática. A expressão “articular teoria e prática” é inquietante. Justifico: falar nessa articulação pode, subliminarmente, dar um sentido de que teoria e prática são dicotômicas, o que não deveria ocorrer. E um princípio na concepção de prática na formação profissional é que deve existir um movimento entre teoria e prática. Não há como mobilizar o futuro professor para aprender se a teoria não conversar com a realidade educacional. Do mesmo modo, para entender a realidade educacional, e sair do senso comum, é preciso fundamentar teoricamente essa prática. Ainda mais: no que se refere à prática docente, a teoria pode ser formulada a partir da prática. Por isso, preferimos falar em inter-relação entre teoria e prática, em uma mútua regulação.

Há algumas diretrizes que precisam fundamentar essa inter-relação e vou discorrer sobre algumas:

  1. O estágio curricular.
  2. Níveis de concretização da matriz curricular.
  3. Os formadores dos futuros professores.
  4. E, claro, os futuros professores.

Essas diretrizes compõem o que, aqui, eu indico como currículo em ação, ou seja, o que é efetivamente realizado na formação.

 

O estágio curricular

No currículo do curso de Pedagogia o estágio tem início desde o 1º. Semestre: é preciso ir para a escola, vivenciá-la em uma perspectiva pré-profissional e aprender a fazer perguntas sobre a realidade educacional. A reflexão e a compreensão do embasamento teórico ocorrem concomitantemente com essa vivência. Quando o estudante retorna para a prática, terá avançado conceitualmente e, se for preciso, redimensionado o entendimento da teoria. Nessa perspectiva, o movimento é bastante dialético: prática1 ⇒ teoria1⇒ prática2. Ou seja, a prática não é uma aplicação da teoria.

Alunos do curso de Pedagogia. Fonte: Arquivo institucional.

 

Níveis de concretização da matriz curricular

Sobre a matriz curricular, vou abordar um dos níveis de concretização e que se refere às ações que serão realizadas nas aulas: como o conteúdo selecionado é desenvolvido para preparar o estudante para a prática docente. Quando, por exemplo, as disciplinas que abordam a didática das diferentes áreas (Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Arte, etc.) trazem concomitantemente os conhecimentos específicos de área e os conhecimentos sobre como se aprende, a mediação entre esses dois conhecimentos é feita pelo viés da prática docente. Na mediação entre esses conhecimentos, forma-se o futuro professor ao se propor que ele:

  • Analise e elabore documentos pedagógicos específicos da docência como: planos de aula, sequências didáticas, atividades permanentes, projetos e outros;
  • planeje intervenções considerando o a realidade do aluno e o seu conhecimento prévio;
  • analise e elabore jogos e materiais didáticos;
  • aprenda a gerir uma sala de aula considerando os conteúdos, os recursos, os vínculos, as interações, o tempo e o espaço.

 

Os formadores dos futuros professores

Para desenvolver todo esse conteúdo e aproximar da prática, precisamos saber quem é o formador dos futuros professores. Uma pergunta é essencial: o formador dos futuros professores conhece a escola e a sala de aula da Educação Básica? Se não conhece, não haverá teoria ensinada e nem inter-relação com a prática que faça sentido para os futuros professores.

O formador dos futuros professores precisa saber responder com precisão às seguintes questões sobre a disciplina que irá lecionar: Como a sua disciplina se relaciona com a prática do professor e quais são as estratégias didáticas utilizadas para que isso se efetive? O que o futuro professor aprenderá na sua disciplina que vai prepará-lo para docência?

 

Quem são os futuros professores?

Há algo bastante especial na formação de professor: todo estudante dos cursos de licenciaturas foi aluno da Educação Básica e, obviamente, traz consigo essa experiência para a sua formação profissional e que precisa ser tematizada e resgatada nos cursos de formação de professores.

Como significar as experiências vividas? Isso envolve autoconhecimento e autorreflexão. Durante a formação inicial, o futuro professor precisa retomar e refletir sobre suas histórias pessoais e sobre a sua experiência escolar, isto é, sobre as histórias de sua vida. Esse percurso biográfico aparece, transversalmente, no curso de Pedagogia, quando os futuros professores relatam e documentam a sua experiência com a cidade nos diferentes momentos de sua vida (infância, adolescência e idade adulta); quem foi o seu professor inesquecível e por que; as suas experiências como leitores desde a infância – na escola e fora da escola; como foram alfabetizados; como foram avaliados durante a vida escolar. Esse é um processo contínuo no curso. Com tudo isso relatado, compartilhado, sentido, percebido, entendido e contextualizado, cria-se um ambiente favorável para que o estudante compreenda melhor o ofício de professor, sua identidade e seu projeto de desenvolvimento profissional.

 

A integração entre as diretrizes para fundamentar a prática  

As diretrizes apontadas anteriormente, para nós, faz muito sentido quando consideramos, na formação inicial, que o conceito de “homologia de processos”, em que se busca uma coerência entre a formação vivida e a futura ação do professor, é preponderante. Na formação de professores também é importante que toda aula seja uma meta aula, ou seja, além do conteúdo desenvolvido, o modo como foi desenvolvido também faz parte da aprendizagem. Por fim, é preciso ter atenção para o fato que toda aprendizagem é decorrente de mobilização e, para mobilizar o futuro professor, é preciso que ele conheça e vivencie o seu locus de atuação e dê um novo significado para suas experiências pessoais e escolares a partir de uma perspectiva profissional.

 

A complexidade de se formar professor

A construção desta identidade profissional começa no dia em que se escolhe ser professor. Essa formação envolve: histórias, vivências, valores, compromisso pessoal, disponibilidade para aprender e ensinar. O professor é um profissional do conhecimento, da prática e da reflexão. A sua ação exige uma atitude permanente de investigação, formulação de perguntas sobre si, sobre o outro e sobre seu fazer, na busca de caminhos para o sucesso da aprendizagem de seu aluno. Estudar para ser professor é um trabalho exigente. Formar-se professor é bastante complexo.

 

Cristina Nogueira Barelli

Coordenadora do Curso de Pedagogia do Instituto Singularidades

Contato: crisnogueira@singularidades.com.br

 

Para saber mais:

MARCELO, Carlos. Formação de Professores: por uma mudança Educativa. Porto: Porto Editora, 2013.

SCHON, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e aprendizagem. Porto Alegre: Editora Penso, 2003.

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2012.