O que significa ensinar e aprender por homologia de processos?
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O que significa ensinar e aprender por homologia de processos?

Instituto Singularidades

02 Maio 2018 | 14h20

As propostas desenvolvidas no curso de Pedagogia do Instituto Singularidades trazem um olhar voltado para o aluno do século XXI e propiciam o trabalho com as competências socioemocionais.

Uma das abordagens que inspiram as práticas no Instituto Singularidades advém do pensamento de John Dewey[i]. Para o autor, a escola não pode ser apenas entendida como uma preparação para a vida, pois a escola é a própria vida. Em crítica a escola tradicional e a modelos cristalizados de ensino ele afirma que o resultado desse engessamento é “a perda da própria vontade de aprender; da curiosidade intelectual para aquisição do conhecimento”. Sendo assim, uma de nossas principais preocupações é formar o aluno de Pedagogia, futuro professor, por meio de estratégias diferenciadas, que possam ser transpostas para a sua prática.

Em outras palavras, falamos daquilo que Donald Schön[ii] chamou de “Homologia dos Processos”. Trata-se de um princípio para a formação, cuja aplicação não é direta, mas que pode ser apreendido ao ensinarmos utilizando e problematizando as estratégias mesmas que pretendemos que nossos alunos aprendam e incorporem em seu cotidiano profissional. Assim, se falamos de autonomia, não podemos ensinar de forma hierarquizada, de modo a promover a heteronomia, por exemplo.

Gestão compartilhada da sala de aula

Um dos aspectos enfatizados na formação de professores, e vivenciado pelos alunos, é a experiência de gestão compartilhada da sala de aula.  Entre as disciplinas em que os alunos atuam desta maneira, é a de Práticas Educacionais na Educação Infantil que se desenvolve de forma articulada com os estágios curriculares que se propõem a tematizar as propostas pedagógicas realizadas com crianças de 0 a 3 anos e de 4 e 5 anos.

Alunos do 2º Semestre de Pedagogia na gestão da sala de aula. Fonte: arquivo pessoal da autora.

No decorrer das aulas, há a possibilidade de participação ativa no processo de tomada de decisões, o que envolve diversas atividades em que os futuros professores experienciam a organização dos agrupamentos, dos espaços, materiais e conteúdos, antevendo possíveis problemas, regulando os tempos de preparo, de execução e de socialização da atividade, as formas de registro e as interações com os colegas e com o professor. Isso contribui para que desenvolvam uma didática melhor e também para que se engajem mais e que se corresponsabilizem pelo próprio processo de aprendizagem.

Acreditamos que um trabalho por esta via capacite os futuros professores a aprender de modo mais significativo, uma vez que vivenciam o processo e não apenas o apreendem de forma teórica, desconectada da vida real.

Competências socioemocionais na gestão compartilhada 

Além da gestão compartilhada em sala de aula, outro aspecto muito importante, ligado às competências socioemocionais, tão discutidas nos dias de hoje, diz respeito à possibilidade de desenvolver o trabalho colaborativo e criativo e, neste quesito, temos debatido a influência da tecnologia sobre as formas de ensinar e aprender na atualidade.

O aluno que chega à escola de Educação Básica é um nativo digital e isto traz outra maneira de lidar com os conhecimentos, outra forma de organizar o conhecimento e de questionar os saberes e conteúdos da cultura, exigindo outro posicionamento por parte do professor, incluindo fluência no uso dos recursos digitais e a capacidade de gerir todo o conhecimento prévio que seus alunos trazem, algo que extrapola em muito os conteúdos formais. Por isso, para se constituir um bom profissional em Educação é preciso vivenciar o que é a linguagem tecnológica e seus impactos para a relação entre ensinar e aprender, para as interações na escola.

Por isso, os alunos, futuros professores, trabalham conectados entre si e amparados por diversas ferramentas e recursos tecnológicos que facilitam um fazer criativo, colaborativo e de co-autoria. A utilização de recursos tecnológicos, como o uso de plataformas de aprendizagem online, modelo de sala de aula invertida, rotação por estações e outros elementos da abordagem de Ensino Híbrido, confronta o professor com novas demandas, mas ao mesmo tempo abre espaço para o protagonismo dos alunos, tornando-o mais capacitado para lidar com situações-problema, reais, em sua maioria, advindas do contexto de estágio, no qual os alunos estão inseridos desde o primeiro semestre do curso.

Conexão Mente e Cérebro e o uso de tecnologias digitais. Fonte: arquivo pessoal da autora.

Uma das disciplinas que seguem esta lógica é Conexão entre Mente e Cérebro, em que são ministrados conteúdos relacionados a Neurociências e Educação, e se discute a necessidade de rever as formas de ensinar e de aprender, e de olhar para além das questões cognitivas, admitindo a existência de um ser integrado, que se compõe por aspectos socioemocionais que necessitam ser trabalhados. Para isto, os alunos desenvolvem pesquisas sobre o funcionamento do encéfalo e analisam as consequências da plasticidade cerebral para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças e adolescentes, utilizando a plataforma do Moodle e outros conteúdos da web, como testes de autoconhecimento, vídeos, atividades interativas, entre outros.

Assim, formamos na linha dos quatro pilares da Educação, propostos por Jacques Delors[i], isto é, problematizando e vivenciando o que significa “aprender a aprender”, “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser”, propiciando que os licenciandos atuem efetivamente sobre a realidade, desenvolvendo projetos de intervenção, articulando teoria e prática, trocando pontos de vista com colegas, imersos num ambiente rico em diversidade de percurso acadêmico, social, econômico, étnico, religioso, entre outros perfis que fazem das salas de aula do Instituto Singularidades um recorte do macrocosmo de uma grande cidade como São Paulo, com todas as suas tensões e incoerências, formando na vida como ela é, preparando o aluno para agir no “aqui-agora”.

Diante do fato de que cada aluno possui diferentes formas de aprender, é preciso diversificar as formas de ensinar. Em resposta a esta demanda, o aprendizado contextualizado, vivencial e articulado por diversas estratégias, compartilhado em grupos com integrantes com conhecimentos e experiências diversas, propicia uma enorme gama de trocas, ampliando ainda mais a mapa neuronal dos alunos e possibilitando que eles sejam capazes de ampliar seu repertório de conhecimentos e saberes, podendo se constituir em células reprodutoras desse legado, isto é, agentes transformadores em outros contextos de aprendizagem e dentro da própria sociedade em que atuam.

 

Elizabeth R. Sanada é docente no curso de Pedagogia do Instituto Singularidades. Contato: elizabeth.sanada@singularidades.com.br

 

[i] DELORS, Jacques. Educação – um tesouro a descobrir. 7ª ed. São Paulo: Editora Cortez, 2012.

i] DEWEY, John. A escola e a sociedade e a criança e o currículo. Portugal: Editora Relógio D’Água, 2002.

[ii] SCHÖN, Donald. Educando o profissional reflexivo. Porto Alegre: Artmed, 2000.