Protagonismo na escola: as ações são mesmo voltadas para as crianças? – Parte 2

Protagonismo na escola: as ações são mesmo voltadas para as crianças? – Parte 2

Fernanda Tambelini

16 Maio 2017 | 08h00

No post de hoje, continuamos com as reflexões sobre protagonismo e participação infantil, levantadas pela mestre em Educação Queila Almeida Vasconcelos, na palestra “O cotidiano da Educação Infantil e suas possibilidades de participação.

 Para ler a primeira parte, acesse o post de ontem aqui.

 Como a participação está relacionada ao protagonismo?

Quando falamos que participar significa ter suas especificidades levadas em conta. O protagonista é o principal ator, mas ele precisa ter com quem se relacionar. Acontece muito nas escolas a confusão entre protagonismo e abandono. Os professores abandonam as crianças sem perceberem, relegando a elas a tomada de decisões que não lhes cabem, para as quais ainda não estão prontas. Protagonismo não é fazer tudo o que se quer e tem curiosidade! Protagonismo é ser o principal ator nos acontecimentos, de forma que as ações sejam voltadas para si e suas necessidades. O aluno não é o único ator, mas é aquele para quem as ações são voltadas e que promove a história. Acolher seus interesses faz parte de constituí-lo como protagonista. Ele intervém nos episódios da vida cotidiana. A ponte entre participação e protagonismo se dá justamente nos acontecimentos do dia a dia e em como acolhemos os interesses das crianças. Acolher os interesses já é um grande passo, mas na Educação Infantil, lidamos o tempo todo com a vida cotidiana, onde não é permitido que as crianças sejam protagonistas. Schier fez uma escala de níveis de participação infantil, na qual o nível mais alto é o protagonismo.

Como promover o protagonismo dos alunos na Educação Infantil?

Muitas vezes, o termo protagonismo passa aos adultos a ideia de atentado à figura de autoridade, como se as crianças pudessem tudo. O termo co-protagonismo pode ser mais adequado, à medida em que é compartilhado e as decisões são tomadas em conjunto. E esse receio de dividir o protagonismo com os pequenos se dá principalmente porque analisamos as crianças a partir dos nossos referenciais adultos, temos ideias pré-concebidas do que é ser criança e o que é bom para elas.

Hoje em dia, o principal nível de participação que alcançamos nas escolas é o de permitir que os alunos participem em atividades que nós, adultos, definimos. Abrimos um espaço para algumas coisas, mas as questões da vida cotidiana – como dormir, comer, lavar as mãos – ainda são muito controladas e padronizadas. Acolher o interesse da turma em investigar uma lagarta encontrada no jardim, por exemplo, faz parte do protagonismo, mas é apenas um nível. As crianças não são feitas só de aprendizagem na escola. A Educação Infantil trabalha também com outras esferas e, para chegarmos em um indivíduo protagonista, temos que acolher o interesse dele pela lagarta, mas também na hora de dormir, de comer. E não se trata apenas de uma questão de interesse, mas de especificidade.

No entanto, a escola é um ambiente coletivo e muitas vezes não é viável atender todas as necessidades de cada um. O importante é pensarmos em como acolher o máximo possível  e dizer ao aluno por que não é possível atender suas necessidades em determinado momento. Considerar a participação e o protagonismo como experiência de aprendizagem pressupõe permitir que a pessoa entenda por que alguma coisa não pode acontecer.

As crianças estão chegando agora no mundo e, desde o primeiro dia, dizemos a elas como se faz as coisas. Depois, colocamos nelas a expectativa de salvarem a sociedade!

Qual o papel do professor?

Estamos muito preocupados com a aprendizagem formal e nos esquecemos da informal, que atualmente acontece muito mais na instituição de ensino do que em casa, porque os pequenos vêm para a escola cada vez mais cedo e ficam cada vez mais horas por dia. Nós temos que aprender a conhecer as crianças! Temos em mente um ideal de infância, mas trabalhamos com crianças reais. Para construir uma escola ou mesmo uma turma com a proposta do protagonismo infantil, é preciso se apropriar de outro chavão que está na moda: o professor pesquisador. É o que tem perguntas sobre as crianças e busca conhecê-las em suas especificidades, para traçar estratégias de trabalho.

Outro ponto essencial é a escuta. Estar aberto para as falas dos alunos e considerá-las como algo sério e importante, pois o protagonismo se dá na relação. Refletir sobre o que elas estão falando e como nós estamos ouvindo. Estamos escutando com ouvidos de criança ou de adulto? É muito difícil ouvir como criança, é preciso treinar o tempo todo!

Também é importante ressaltar que só vamos mudar esse cenário se tivermos um espaço efetivo e sistemático dedicado à discussão das rotinas com as famílias. A relação de comunidade com as famílias é elemento-chave de todas as escolas que realmente trabalham com protagonismo infantil.