Alimentação saudável: temos fome de quê?

Alimentação saudável: temos fome de quê?

Fernanda Tambelini

03 Julho 2017 | 16h51

O tema alimentação está definitivamente em pauta. Programas de televisão ensinam a cozinhar, a internet traz receitas para todos os gostos e um sem número de novas dietas e tendências prometem saúde perfeita a partir dos alimentos. Mas como, afinal, deve ser a alimentação das crianças? Com tanta informação disponível (e, muitas vezes, contraditória) pouco tempo dos pais e as facilidades da indústria alimentícia, pode ficar difícil encontrar o equilíbrio no prato e nas lancheiras. Engajada no movimento por uma nutrição adequada às crianças, a Escola Projeto Vida tem se unido às famílias nessa busca.

Recentemente, a escola organizou uma mesa redonda sobre o tema, para as famílias tirarem dúvidas com profissionais da área e trocarem ideias e experiências entre si. Participaram do evento a nutricionista da Projeto Vida, Michele Cristina Ferreira, a psicóloga Fabíola Freire Melo e a pediatra nutróloga Tânia Regina Caserta Martini. A conversa abordou a alimentação sob diferentes aspectos, desde os nutrientes necessários para o crescimento e desenvolvimento saudável até os sociais e emocionais envolvidos no ato de comer.

Pesquisas indicam que os hábitos alimentares interferem na saúde desde a formação do embrião, ainda na barriga da mãe. O cérebro se desenvolve a partir da terceira semana de gestação e continua a crescer após o nascimento, especialmente nos dois primeiros anos de vida. E, claro, o crescimento da massa encefálica influencia o aprendizado e a capacidade cognitiva.  Tânia explica que alguns nutrientes são fundamentais para o desenvolvimento adequado do sistema nervoso, são os chamados neuronutrientes, como por exemplo DHA, ferro, colina, zinco e iodo. “Proporcionamos isso tudo por meio de uma alimentação saudável, de todos os alimentos da pirâmide nutricional, e sem restrições. A não ser em alguns poucos casos de diagnósticos fechados, não se deve restringir nenhuma classe de alimentos às crianças”, afirma.

Entretanto, para muitos pais, a dificuldade está justamente em convencer os pequenos a comerem alimentos feitos em casa a partir de ingredientes naturais e sem o apelo do marketing da indústria alimentícia. Para combater essa resistência é preciso rever os próprios hábitos. “Comer é um comportamento aprendido. Temos uma relação emocional com a comida, não comemos apenas quando estamos com fome e somente o que mata a fome”, diz Fabíola.

Algumas dicas ajudam a reconstruir nossos hábitos e a acompanharmos as crianças na construção de suas próprias histórias e relações com os alimentos:

– dê o exemplo!

– os pais devem controlar o que, quando e onde a criança deve se alimentar, mas ela mesma deve controlar o quanto vai comer;

– criança também tem paladar e é preciso respeitar isso. Ofereça o mesmo alimento diversas vezes, em diferentes situações, mas nunca obrigue seu filho a comer. Isso pode gerar aversão à comida;

– apetite e preferências oscilam ao longo do tempo. Permita que os pequenos não queiram algo de que gostavam antes e ofereça novamente itens rejeitados anteriormente;

– ofereça pequenas quantidades;

– lance mão da ludicidade e da fantasia ao preparar refeições;

– envolva as crianças no preparo dos alimentos;

– refeições devem ser momentos de autonomia e prazer. A mesa não é lugar para medir forças, descarregar tensões ou expressar autoridade;

– os filhos são parte da família e podem se envolver nas atividades domésticas, inclusive no preparo da comida. Estudos mostram que participar do preparo estimula as crianças a comerem melhor;

– amplie a oferta de alimentos saudáveis na sua casa;

– retire as embalagens dos produtos industrializados. Pesquisas indicam que o interesse das crianças é maior quando há embalagens e publicidade associadas;

– leia e ensine a ler rótulos;

– beba água;

– cultive uma pequena horta.

Comer é explorar o mundo e os sentidos. Comida tem cor, forma, cheiro, consistência e gosto. “Podemos pensar a comida também como representante simbólica do mundo: ao apresentar a comida aos nossos filhos, apresentamos o mundo. Que mundo queremos apresentar a eles e de que forma?”, reflete Fabíola. Para aprofundar esses questionamentos sobre a alimentação das crianças, ela indica os documentários Muito além do peso e The kids menu.

Entre as ações adotadas pela Projeto Vida para estimular a adoção de hábitos alimentares sadios, está a contratação de uma nutricionista não apenas para acompanhar tecnicamente a produção dos lanches e refeições na escola, mas também para trabalhar a educação alimentar diretamente com professores e alunos de forma integrada aos conteúdos curriculares. “Além dos alimentos oferecidos por nós, também nos preocupamos com a lancheira trazida de casa. Estamos enviando uma série de textos para ajudar os pais a montarem lanches saudáveis”, conta Michele.

Nos próximos posts, publicaremos orientações de como montar uma lancheira saudável. Acompanhe!

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