Adolescentes e o mundo virtual: que relação é essa? – Parte 2

Adolescentes e o mundo virtual: que relação é essa? – Parte 2

Fernanda Tambelini

31 Maio 2017 | 12h55

No post de hoje, continuamos com os destaques da mesa redonda sobre a inserção dos adolescentes no mundo virtual. Silvia Elayne de Oliveira, diretora da Projeto Vida, Olga Lima, orientadora educacional do Ensino Fundamental II, e a psicanalista Vanessa Mosseri conversaram com pais de alunos sobre mudanças trazidas pela tecnologia e o impacto nas relações humanas. Para ler a primeira parte do texto, acesse aqui.

Rompimento

A adolescência é o período de transição entre a infância e o mundo adulto. O jovem vive um luto pela criança que já não é mais e um intenso trabalho psíquico para intenso trabalho psíquico para compreender o novo corpo que emerge. Há também que compreender o que é o outro sexo, aprender a falar em nome próprio, perceber que os pais são falíveis e a criar novas possibilidades para si e para os outros.

Atualmente, soma-se a isso a enxurrada de informações trazidas pela tecnologia. “Eles têm muita informação, mas poucos recursos internos para entender o que ela representa”, afirma Olga Lima, orientadora educacional do Ensino Fundamental II na Projeto Vida. A velocidade de transmissão das informações e as novas tecnologias impactam toda a sociedade, com o enfraquecimento das relações e das instituições. Como, então, os adolescentes se afirmam nesse momento de transição e onde encontram base para desenvolverem sua subjetividade?

O caminho escolhido pela Projeto Vida para lidar com esse desafio é a conversa. “Diante das notícias dos jogos e séries com apologia ao suicídio, nossa primeira postura foi de conversar com os alunos a respeito. Sempre mantivemos abertura para as crianças e adolescentes se sentirem à vontade para falar com os adultos da escola e saberem que aqui há com quem contar”, diz Olga.

Justamente por ser um período de ruptura, a adolescência traz também certa introspecção e uma dose de tristeza. Nossa cultura está bastante voltada para o hedonismo, com quase nenhum espaço para o sofrimento. Numa sociedade onde felicidade é o mote, a tristeza deve sempre ser corrigida e a Ciência oferece uma gama de medicamentos para isso. Nesse cenário, a fala é fundamental para eles organizarem as ideias e sentimentos e darem significados as suas angústias e reflexões.

Muitas vezes, temos a ideia de que a adolescência é um período de total felicidade, mas há muito se passando em suas vidas e mentes. É o momento em que o jovem olha para os valores e princípios recebidos da família e avalia quais lhe servem realmente.

Postura

No entanto, manter um canal de comunicação claro e eficaz com os adolescentes nem sempre é tarefa fácil. Para Olga, algumas posturas dos pais ou responsáveis transmitem aos filhos a segurança necessária:

– Mantenha a posição de adulto, tenha abertura e compreensão, mas não se coloque na postura de amigo. A criança e o adolescente precisam da figura do adulto, que lhe dê segurança e zele por ele;

– Não desista no primeiro desafio. Adolescentes testam a capacidade dos adultos de lidar com sua crise;

– Problematize o social ao invés de responsabilizar o adolescente;

– Dê a ele a palavra e deixe que fale por si;

– Acolha sua fala, se esforce para compreender sua posição e sentimentos, leve a sério seus problemas e aponte novas possibilidades.

Além da conversa, a psicanalista Vanessa Mosseri defende a ideia da liberdade assistida. Nessa faixa etária, o jovem amplia aos poucos sua autonomia e capacidade de discernimento. Para ela, os pais devem sempre perguntar aonde e com quem o filho vai e estabelecer limites acordados. “É possível fazer combinados para que exercitem sua liberdade, mas sabendo que o adulto está ali e pode olhar o celular, por exemplo”, pontua.

Tão importante quanto a conversa e os limites acordados é a presença. Vanessa conta que sua experiência clínica mostra que muitos pais se queixam pelos adolescentes não os ouvirem, mas na prática eles também não estão muito dispostos a ouvi-los de verdade e a estar ao lado, passar tempo juntos. Essa proximidade facilita a percepção quando algo não está indo bem e exige atenção. O pedido de ajuda pode ser direto ou indireto e o papel dos pais é de escutar e oferecer opções de caminhos. Pode ser necessário, inclusive, ajudá-lo a nomear o que está acontecendo.

Na maioria das vezes, a crise da adolescência passa sem necessidade de intervenção profissional, de terapeutas ou médicos. No entanto, em alguns casos, a intervenção especializada pode ser fundamental. Os indícios de que há algo errado são o excesso, a falta ou a repetição de comportamentos. Se seu filho ou filha mudar as atitudes de forma intensa, deixar de comer, passar o tempo todo trancado sozinho no quarto ou criar hábitos repetitivos, por exemplo, é hora de procurar ajuda.

“Os adolescentes brigam com os pais porque os amam, porque têm dificuldade de se separar e ir para o mundo”, finaliza Vanessa.