Adolescentes e o mundo virtual: que relação é essa? – Parte 1

Adolescentes e o mundo virtual: que relação é essa? – Parte 1

Fernanda Tambelini

30 Maio 2017 | 10h42

As recentes notícias sobre jogos e séries com apologia ao suicídio de jovens chamou a atenção em diversos países. Escolas, pais e adolescentes se chocaram com casos divulgados na imprensa e a relação – muitas vezes conturbada – com o mundo virtual tem sido questionada. Esse mês, a Escola Projeto Vida convidou as famílias do Ensino Fundamental II para uma mesa redonda sobre o tema, como um espaço para a reflexão compartilhada sobre os sabores e dissabores dessa fase tão marcante da vida e a inserção dos adolescentes no mundo virtual.

Silvia Elayne de Oliveira, diretora da Projeto Vida, levantou reflexões sobre o que é ser adolescente na sociedade atual, enquanto Olga Lima, orientadora educacional do Ensino Fundamental II, abordou o período da adolescência como crise na constituição do sujeito. Para complementar a discussão, a psicanalista Vanessa Mosseri esclareceu quando é necessária a intervenção profissional. Confira nos posts de hoje e de amanhã os destaques do evento.

Adolescer no mundo atual

Não há quem negue as intensas mudanças ocorridas em todo o globo nas últimas décadas. Sociedades e culturas são dinâmicas e, independente de sentir saudade do tempo dos nossos avós ou admirar as possibilidades da modernidade, o fato é que nem sempre compreendemos a profundidade e o significado dessas transformações para as novas gerações.

O advento da internet é um dos principais responsáveis por esse dinamismo, impactando as relações humanas. Com a tecnologia, houve a banalização do horror. Redes sociais, aplicativos de comunicação, sites e séries espalham tragédias em palavras, sons e imagens, que já não nos surpreendem ou causam tanta dor.

Há também a transferência dos conhecimentos tradicionais, das comunidades e famílias, para a Ciência e seus especialistas. “O saber construído ancestralmente está se perdendo. As famílias estão inseguras para transmitir suas heranças aos mais novos e dependem cada vez mais do aval da Ciência e dos profissionais”, diz Silvia Elayne de Oliveira, diretora da Projeto Vida.

Informação ou experiência

Em paralelo, vive-se uma mudança na relação do tempo e espaço. Hoje, é possível viver em dois espaços – o real e o virtual – ao mesmo tempo. Mas, que mundo virtual é esse e quem transita por ele? Quando estou no mundo real, estou realmente olhando para o aqui e agora ou estou de olho no virtual? É importante refletir até que ponto adultos e adolescentes têm consciência da distância entre essas duas dimensões e conseguem passar pelo virtual sem perder a conexão com o real.

A fluidez entre essas duas esferas é um verdadeiro alimento para a sociedade do espetáculo. Cada vez mais, nos mostramos na internet como se o olhar fosse o único sentido do corpo humano. Enquanto tiramos e postamos fotos, corremos o risco de não sentirmos o cheiro bom da comida, o arrepio em um show ou a emoção de ver os primeiros passos do bebê. Para Silvia, vivemos um paradoxo: “somos mais olhados, mas estamos mesmo sendo enxergados?”.

A internet nos banha de informações o tempo todo. Em um clique, é possível checar a ortografia de uma palavra difícil, acompanhar a guerra na Síria ou conferir se vai chover. Tornamo-nos sujeitos da informação, e não mais da experiência. O sujeito da informação sente que sabe e pode tudo, mas tamanha facilidade tem um preço. Estamos em constante atividade, num movimento ansioso. Já o sujeito da experiência é transformado pela relação que se dá com a situação vivida. Para isso, é preciso parar, olhar, escutar, suspender o juízo e analisar com calma. Mas hoje o tempo é muito precioso e parar e ouvir demanda tempo!

Diante de todas essas transformações, cabe aos adultos ajudar os jovens a assumir seu papel na sociedade de trazer o novo. “Temos que apresentá-los ao mundo, mas também apresentar o mundo a eles. Estamos usando nossos recursos e saberes, agindo, ou apenas navegando?”, pergunta Silvia. É hora de pararmos e assumirmos o sujeito da experiência.

O post de amanhã trará reflexões sobre o que significa a crise de adolescência e sobre quando é necessário buscar ajuda profissional para passar por esse momento.