Quando ser diferente faz toda a diferença

Escola da Vila

11 Abril 2018 | 12h17

Por Marília Costa, direção da unidade Granja Viana 

O que é ser diferente? Uma vez, em uma palestra, após discursar certo tempo acerca dos conceitos de igualdade e diferença, perguntei ao público por que é tão frequente rejeitarmos o que é diferente. Uma professora, muito espontaneamente me respondeu: porque o diferente assusta. Outros complementaram: porque o diferente é desconhecido e dá medo! Diante dessas respostas, eu perguntei: então por que vocês não se assustam com quem está sentado ao seu lado? Afinal, nós somos essencialmente diferentes!

É interessante pensar o que faz rejeitarmos as religiões diferentes da nossa, rejeitarmos ideias diferentes do nosso modo de pensar ou, mesmo, rejeitarmos o aluno que aprende de um modo diferente, o amigo que fala diferente ou gosta de coisas diferentes. Não é qualquer diferença que nos assusta e não é qualquer diferença que gera sentimentos de rejeição.

David Rodrigues, educador português, ressalta que a igualdade é uma construção humana, ancorada em determinados valores e no conceito de justiça, e data do século XVIII, portanto, só existe, conceitualmente, do ponto de vista ético, e só muito recentemente passou a ser objeto de reflexão nas relações humanas. Concretamente, o que existe são diferenças, do ponto de vista biopsicossocial. Diferenças que são naturais e outras que são produzidas socialmente, diferenças que são visíveis, tangíveis e outras que são invisíveis, intangíveis. Contudo, muitas vezes o que reconhecemos como diferença é uma mistura de diferença e desigualdade (RODRIGUES, 2014), pois percebemos o que é diferente das características que atendem aos padrões hegemônicos como não desejável ou negativo (SILVA, 2000). Todas as características humanas e formas de ser humano, que não se encaixam nesses padrões, tendem a ser vistas como desvios, como é o caso dos alunos com deficiência ou com dificuldade de aprendizagem ou dos alunos pertencentes a minorias linguísticas, dos alunos obesos, entre tantos outros exemplos.

Não existe um ser humano igual ao outro, pois somos naturalmente diferentes em relação a vários aspectos relacionados à etnia, sexualidade, cultura, subjetividade, genética, entre outros. Apesar disso, com frequência atribuímos valores a essas diferenças que nos fazem rejeitá-las ou desejá-las.

Compreender a diferença como expressão da diversidade humana e valorizá-la como fonte de enriquecimento requer uma formação ética que dê sustentação a uma convivência pautada no respeito mútuo, na colaboração, na participação, no senso de justiça. Isso exige um equilíbrio entre o reconhecimento da igualdade e da diferença. Como diz Boaventura Souza Santos (2002, p.75): “Temos direito à igualdade sempre que a diferença nos inferioriza. Temos direito à diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza”. Na nossa escola, esse é um desafio cotidiano. São muitas as situações em que refletimos a respeito de quando tratar todos os alunos da mesma forma e quando utilizar estratégias diferenciadas, quando oferecer apoios específicos, quando dar mais tempo para realizar uma atividade, entre tantas outras decisões que tomamos almejando que todos aprendam os conteúdos curriculares no máximo do seu potencial. Não existe resposta certa para cada uma dessas situações, pois é necessário avaliar o contexto, tomar decisões e avaliá-las constantemente.

Crianças e adolescentes, que crescem entendendo que as diferenças fazem parte da diversidade humana e que uma sociedade justa é aquela em que todos têm e podem exercer os mesmos direitos, convivem valorizando a diversidade, pois reconhecem o quanto ela agrega, soma.

Na nossa escola, diferença e diversidade são alicerces da proposta pedagógica, pois entendemos que a aprendizagem, em todas as suas dimensões, é mais significativa quando existe pluralidade de ideias, opiniões, versões, jeitos de ser e tantas outras diferenças. A homogeneidade limita. A heterogeneidade amplia. Portanto, para nós, a diferença é mola propulsora, é fator de enriquecimento.


Referências

RODRIGUES, David. Os desafios da Equidade e da Inclusão na formação de professores. RODRIGUES, David; ARMSTRONG, Felicity. A inclusão nas escolas. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.

SANTOS, Boaventura de Souza (Org). Reconhecer para libertar – os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

SILVA, Tomás Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomás Tadeu (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis/RJ: Vozes, 2000.