“Qual é a lógica por trás de…?” – Revelações sobre o trabalho com meios digitais

Escola da Vila

30 Maio 2017 | 11h23

Por Cristina Maher, professora de Filosofia do Ensino Médio
Luiza Moraes, professora de LPL do F2
Ricardo Buzzo, professor de Ciências Humanas do F2

Já há algum tempo, a equipe de professores da Escola da Vila vem se debruçando sobre o desafio de pensar o lugar e os sentidos do trabalho com meios digitais na escola. Quando viajamos para a Argentina para integrar a Jornada Implementación de Los Medios Digitales en Educación Básica, levávamos na bagagem algumas certezas, entre elas a de que o trabalho com meios digitais não deve ser tomado como um fim em si mesmo. Muitos foram os momentos, ao longo daquela intensa semana de estudos, em que fomos levados a questionar algumas de nossas convicções. Esse questionamento não resultou na desqualificação de nosso ponto de partida, mas certamente nos obrigou a voltar a examiná-lo.

Se continuamos partindo do pressuposto de que os meios digitais são ferramentas para a aprendizagem de outros conteúdos, agora também temos clareza de que eles são conteúdo em si, na medida em que trabalhamos com a formação de práticas de linguagem atrelada à formação cidadã. O que está em jogo é a formação de sujeitos capazes de exercer práticas sociais de interpretação e de produção que passam pelos meios digitais. Não se trataria, dessa forma, nem de conhecer os meios digitais simplesmente porque eles potencializam a aprendizagem de outros conteúdos e muito menos de ensiná-los apenas como técnicas que precisam ser dominadas. Ao contrário, ensinam-se meios porque eles contribuem para a aprendizagem de outros conteúdos e também porque isso é essencial para formarmos leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo. Ou seja, se queremos alfabetizar nossos alunos para que leiam criticamente os discursos que circulam em nossa sociedade, não há outra maneira que não incluir em nossos currículos os meios digitais.

Além de nos ajudar a repensar os objetivos do trabalho, a jornada de estudos organizada por Flora Perelman e Vanina Esteves nos levou a descobrir novas respostas para uma pergunta que nos acompanhava desde o Brasil: de que maneira os meios digitais podem tornar mais significativo aquilo que queremos que os alunos aprendam? Entre as descobertas da viagem pedagógica, encontra-se uma constatação que surpreende justamente por sua aparente simplicidade: os meios digitais podem ajudar a tornar visíveis “processos” que eram invisíveis aos olhos dos estudantes. A potencialidade dessa constatação encontra-se em alguns dos marcos epistemológicos que sustentam o trabalho investigativo comandado por Perelman e Esteves.

Se o trabalho com meios digitais tem como sentido a formação de leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo, ele parte do princípio de que as crianças e os adolescentes são sujeitos sociais que significam o mundo, transformando-o desde suas possibilidades interpretativas e de suas práticas sociais. Ao tirar os estudantes do papel de consumidores passivos dos meios digitais e ao colocá-los no papel de produtores, a escola os ajuda a entender as lógicas envolvidas nos processos de produção desses meios, levando-os a se tornar, por fim, usuários mais críticos. Nessa perspectiva, os meios digitais são tomados como objetos que correspondem a sistemas culturais, históricos, econômicos situados, que não apenas representam o mundo, mas que podem também transformá-lo.

Foi a partir desses marcos epistemológicos que constatamos nossa “simples” descoberta: tornar visíveis processos antes invisíveis parece ser o ponto de partida para a elaboração de propostas de ensino/aprendizagem com meios digitais. Flora Perelman, Vanina Esteves e outros professores e pesquisadores convidados nos apresentaram algumas sequências didáticas que explicitam esse princípio.

O desenho de uma sequência sobre notícias, por exemplo, parte das representações infantis sobre a produção jornalística e torna visível a elaboração desses textos como construção (e a partir daí é possível assisti-las não mais como representação fiel da realidade).

Em um trabalho com o corretor ortográfico de editores de texto, propõe-se um uso analítico e reflexivo da ferramenta que permite ao aluno, além de colocar em jogo os seus conhecimentos sobre ortografia, perceber a língua como construção política. Ao apresentar aos estudantes mapas interativos, problematiza-se o processo colaborativo de produção de um mapa, ajudando-os a perceber a diversidade de forças e de interesses que formam o espaço e as representações sobre ele.

A produção de crônicas fotográficas coloca o aluno diante do desafio de construção de uma narrativa visual e, a partir do olhar sensível, interpretativo e reflexivo, ajuda-o a perceber o “acontecimento” como uma construção. A experiência de jogar determinado videogame foi transformada em situação didática, na medida em que o professor propõe orientações precisas e perguntas certeiras com a finalidade de levar o aluno a pensar em problemas sociais a partir de uma lógica de multicausalidade e de interesses de diferentes atores.

Enfim, processos antes invisíveis para os alunos podem se tornar visíveis com a desconstrução, análise e, por vezes, produção dos meios digitais. A questão “qual é a lógica por trás da produção de notícias, do corretor ortográfico, dos mapas interativos, etc.?” acompanha todas as elaborações das sequências mencionadas. Essa trajetória resulta, intenta-se, na formação de usuários mais críticos dos meios digitais, de sujeitos que dominam as práticas sociais de leitura, escrita, oralidade, próprias de nosso tempo. Dessa forma, não temos mais meros receptores de notícias, ou não se vê mais a fotografia como janela da realidade, mas domina-se a lógica de construção dos discursos que circulam ao nosso redor. Não somos dominados pelas mídias digitais, mas as dominamos.

Assim, ao defender a implementação dos meios digitais na escola, não falamos em adotar uma postura de inovação pela inovação, ingenuamente celebrando as tecnologias. Não assumimos, também, que basta vestir os mesmos conteúdos em novas roupas – digitais. O uso significativo, que acontece a favor da aprendizagem do aluno, depende do saber pedagógico e do planejamento de situações didáticas ajustadas aos objetivos de aprendizagem – percebendo quais são os novos objetivos de aprendizagem que devem ser colocados diante das novas práticas sociais, e quais permanecem. Isso sempre com o intuito de contribuir com a formação de leitores críticos, escritores, falantes e ouvintes nos âmbitos da formação cidadã, da formação literária e da formação do estudante.