Ensinar a distância ou aprender na convivência?

Ensinar a distância ou aprender na convivência?

Escola da Vila

03 Abril 2018 | 15h26

Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

Eu e minha irmã temos um pacto de sangue. Se prometemos algo uma à outra, essa promessa tem peso absoluto e jamais pode ser quebrada. E eu a fiz esconder de mim o meu celular e me prometer não contar, durante um mês, o seu paradeiro.” “Ah, é? E por quê?” “Porque ele estava me fazendo mal. Desde pequena fico com aquilo na mão, vendo o que vão dizer sobre o que eu disse em muitos grupos, e eu respondo ao que disseram sobre mim, e não termina nunca esse diz-que-diz. E não converso com meus pais, e quero terminar logo o jantar porque estou pensando em tudo o que estão falando no WhatsApp enquanto fico com eles na mesa. Eu sinto que, quando estou com as pessoas, estou perdendo tempo, porque o que acontece de verdade acontece no WhatsApp. E me dei conta de que, se eu penso isso, eu devo estar completamente maluca. E quando me dou conta de que estou maluca, fico mais aflita ainda e mais ansiosa por estar me sentindo maluca. Então achei que o único jeito era tentar aprender a ficar com as pessoas. Estar com elas de verdade, e não esperando que o encontro termine logo.” “E como tem sido esses dias? “Tem sido ótimos. Aprendi a conversar e dar risada com os outros. Claro que acontecem coisas chatas também, mas é uma de cada vez e não tudo ao mesmo tempo. E a gente está vendo a outra pessoa, não está tentando entender se o que ela disse foi uma piada, uma ironia ou uma agressão. É mais… real.”

As linhas acima são a transcrição de um trecho de um depoimento dado na sala da orientação do Ensino Médio, por uma aluna do primeiro ano. Trata-se de apenas um trecho. Foi um depoimento um tanto longo, feito em ritmo bastante acelerado. Cada palavra brotava sem filtro, de forma crua, seca e rápida, a fala entregue a um fluxo frenético de estímulos internos e externos de tudo o que se vive aos 14 anos de idade.

Ela relata, em meio ao caos, uma decisão: pedir o auxílio fraterno para livrá-la do cálice digital que ardia em seus dedos, dia e noite, para conseguir algo elementar à existência humana, desde tempos imemoriais: estar com os outros. Algo que, por momentos, parece estar em risco de extinção nos dias de hoje. A fascinante e meteórica evolução tecnológica nos oferece vagões de metrô lotados, em que todos estão com a cara enfiada no celular. Ou mesmo as rodas de amigos – adolescentes ou não -, na mesma posição, seja nos jardins de uma escola, seja em um restaurante. Ainda assim, pensar na extinção do encontro físico soa um tanto exagerado. Mas não é um equívoco pensar que os encontros entre as pessoas, seja de caráter amistoso, amoroso, esportivo, instrutivo ou profissional, podem estar perdendo certa qualidade.

Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar, como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois com as contribuições do outro uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca a as palavras e limita o desempenho em campo.

Saltando agora para um cenário diverso em tempo e espaço, mas ainda dentro dos muros da escola. Ao longo dos meses, a ânsia por extravasar o furor represado em sala de aula tem levado a uma prática um tanto perigosa: os jogos de futebol no recreio têm ocorrido sem limites de participantes. Em vez de se formarem vários times e quem toma gol sai, formam-se apenas dois, cada um com oito, dez, quinze, dezoito jogadores. Da extinção dessa regra elementar, foi apenas um passo para extinguir as faltas, elemento básico para o andamento razoável de qualquer esporte coletivo. Coisas do contato físico. Por fim, aconteceu o que seria previsto: deu briga. Jogos suspendidos por três dias, a quadra deixou de ser uma arena para se tornar uma ágora. Sentada no chão, a multidão de interessados em retomar os jogos debate sobre forma e modos de reativar as disputas. Quais regras retomar? Como se explica o crescimento da tensão? O que aconteceu exatamente? Precisaremos de um árbitro? Um contrato escrito?

Ambas as situações são típicas e frequentes em qualquer escola que compreenda a aprendizagem não como um processo meramente reprodutivo, no qual uma autoridade dite as explicações para que os alunos as reproduzam. A proposta que subjaz nessas cenas é que a regulação coletiva, se bem tem autoridades mediadoras, é essencial para a mobilização intelectual. Isso vale para erigir conceitos matemáticos, políticos, científicos, como se queira chamá-los. Um pesquisador bielo-russo chamado Vygotsky chamou essas habilidades humanas que se desenvolvem em uma complexa trama de elementos sociais e históricos de conceitos superiores. Dentre as diversas e complexas funções da escola, encontra-se a de promover espaços de elaborações coletivas, as quais favorecem o desenvolvimento dos conceitos superiores.

Olhando agora sob uma ótica mais abrangente, encontramo-nos diante de uma situação social – e, por que não, histórica – de transformações políticas de grandes dimensões, nos últimos anos. Dentre elas, destacamos que em 2017 aprovou-se uma reforma do Ensino Médio que é no mínimo controversa. Alguns aspectos podem ser interessantes, outros podem estar a serviço de motivações que ainda precisam ser mais esclarecidas. Olharemos para apenas uma delas, ainda mais recente: no dia 20 de março a imprensa noticiou que o Governo Federal propõe liberar 40% da carga horária do Ensino Médio a ser realizada a distância.

Não vamos realizar aqui análises sobre o uso didático da tecnologia. Ela tem as suas potencialidades, e não são poucas. Mas a permissão de suprimir quase a metade da convivência física dos alunos que se encontram em idade de constituir a sua subjetividade, por cursos a distância, é uma jogada que pode estar a serviço de muitas coisas, menos à de uma formação consistente de indivíduos, seja como estudantes ou como cidadãos. É uma proposta que abre uma flexibilidade de produtos supostamente educacionais que oferecem situações de interação extremamente limitadas. Se bem pode-se pensar em fóruns de discussões ou trabalhos colaborativos, eles serão uma peça de ficção se essas experiências não estiverem asseguradas em um dia a dia de encontros físicos, profícuos em tensões lexicais, conceituais, lógicas, esportivas – vivenciais, enfim.

Se a escola, em nossa Era Moderna, é uma instituição que nasceu com o intuito de formar cidadãos, não se pode encarar a transmissão de conhecimentos e de valores culturais como um manual de instruções online. A constituição da subjetividade não é um manual a ser baixado na rede. Nem mesmo em 40% – fração que pode se tornar muito mais do que isso, se considerarmos a agressiva evolução tecnológica que arde nas mãos de todos nós e tem potencial para moldar as instituições de todo tipo. Uma coisa seria pensar em um curso técnico ou uma especialização para adultos, outro é o de educar adolescentes que precisam, como dizia a depoente inicial deste relato, crescer e aprender algo tão elementar como “estar com os outros”. É a partir dessa convivência intensa que se dá o desenvolvimento pessoal, com toda a sua complexidade cognitiva e moral.