Um ano difícil de ler nas entrelinhas
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Um ano difícil de ler nas entrelinhas

"Se acompanhar as reviravoltas no noticiário do Brasil e do Mundo não foi tarefa fácil nem para o leitor habilidoso, imagine para os 80% dos brasileiros que não dominam plenamente a leitura", afirma Ana Lúcia D´Império Lima, da Rede Conhecimento Social e do Instituto Paulo Montenegro

Todos Pela Educação

08 Dezembro 2017 | 09h47

Chega ao final mais um ano, e que ano! Ao fazer uma retrospectiva das notícias, tweets, posts, vídeos e memes que marcam a narrativa desse 2017, é fácil ficar confuso. O ano teve início com uma crise econômica que condenava fatalmente o Brasil e os brasileiros a mais algumas décadas perdidas de estagnação, e muitos apontavam como única solução a aprovação imediata e integral de radicais mudanças nas regras que definem as relações de trabalho, da Previdência e até o papel do Estado. O ano termina com a menor taxa de juros da história, inflação controlada, perspectivas positivas de crescimento para o PIB no ano que vem e retomada do emprego – ou melhor, da ocupação, porque emprego mesmo, daqueles bons, vai continuar difícil.

Conduções coercitivas, instâncias e jurisdições, prerrogativa de foro e outras tantas – data venia – firulas jurídicas de difícil compreensão mantém dentro da cadeia (ou pelo menos fora de circulação) alguns daqueles que estiveram associados a etapas marcantes do cenário político tanto no âmbito nacional quanto nos Estados. Gestores municipais que começam seu primeiro ano de mandato com grandes expectativas chegam ao final desse 2017 lutando para não ultrapassar os níveis de impopularidade
de seus antecessores, para não falar, evidentemente, dos níveis atingidos pelo principal mandatário da nação, aparentemente imbatíveis.

O time que começou o Campeonato Brasileiro de futebol como “quarta força” ganha a competição com folga, com 3 jornadas de antecipação. A surpreendente Chapecoense, que parecia destinada ao desaparecimento depois da tragédia que levou todo seu elenco, se classifica mais uma vez para a Libertadores.

Um candidato ridicularizado até o final do ano passado hoje ocupa a presidência da maior economia do planeta, e um outro presidente ridicularizado, governando um país que mal consegue alimentar sua população, ameaça uma guerra atômica. As notícias não param, e fica cada vez mais difícil “ler” o mundo, mesmo para quem domina as habilidades de leitura e compreensão de textos e dados. Tal grupo de leitores hábeis representa um contingente diminuto. Segundo a última edição do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), de 2015, apenas 27% dos brasileiros com entre 15 e 64 anos são considerados plenamente alfabetizados (23%) ou de fato proficientes (8%) em letramento e numeramento.

Somos um país no qual 4 a cada 10 pessoas são alfabetizadas apenas de maneira elementar – Ana Lúcia D´Império Lima

Quão mais desafiador é poder informar-se, discutir, refletir, construir opiniões próprias e tomar decisões guiadas por uma percepção qualificada das causas e consequências de nossas escolhas quando nos foi negado o acesso a uma leitura crítica da realidade que nos cerca! No País, somos 31% de analfabetos funcionais, cujas habilidades de leitura e escrita não superam a leitura de palavras isoladas, em textos curtos ou a utilização de noções de matemática apenas para operações muito simples e quotidianas. Somos um País no qual 4 a cada 10 pessoas (42%), muitas delas com 8 ou 12 anos de escolaridade, são alfabetizadas apenas de maneira elementar, ainda com grandes limitações para interpretar textos mais elaborados, discernir entre fatos e opiniões, perceber uma ironia, comparar informações de diferentes fontes ou compreender representações numéricas em gráficos e tabelas.

O Plano Nacional de Educação (PNE) propõe, em sua Meta 9, que o analfabetismo seja reduzido pela metade até 2024. Temos, como nação, severas limitações para avançar na construção de um projeto de País que garanta caminhos sustentáveis e justos de desenvolvimento. Enfrentar esse desafio não é uma missão apenas da escola, do governo, do outro. É dos empresário, das famílias, das organizações sociais: de todos nós.

Obviamente, garantir uma melhor Educação Básica com êxito na aprendizagem, de acordo com a Meta 7 do PNE,  é fundamental para que jovens não terminem o Ensino Fundamental (ou mesmo o Médio) sem compreender o significado de um texto, de um gráfico ou tabela. Mas não é possível cruzar os braços e esperar pelas novas gerações para, enfim, termos um País de homens e mulheres capazes de entender a complexidade das informações que o mundo demanda. É preciso que governo e sociedade civil atuem pela formação de leitores plenos, sejam eles crianças, jovens ou adultos: todos devem estar alfabetizados, como manda a Meta 5 do PNE. Mais do que apenas apontar o problema, os dados do Inaf podem inspirar reflexões, ampliar o debate e mobilizar diferentes setores por ações concretas nesta direção.

*Ana Lúcia D´Império Lima
Conhecimento Social – Estratégia e Gestão

Ana Lucia D’Império Lima, economista. Foi CEO do IBOPE Media e Diretora Executiva
do Instituto Paulo Montenegro. Criou e dirige a consultoria Conhecimento Social –
Estratégia e Gestão, especializada na assessoria em produção de conhecimento,
planejamento e avaliação no campo social