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Todos Pela Inclusão: projeto incentiva o protagonismo de estudantes com deficiência

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, conheça história que pode inspirar cumprimento da Meta 4 do PNE

Todos Pela Educação

21 Setembro 2017 | 11h20

Fernando jogando capoeira/arquivo pessoal

 

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

Que tal uma roda de capoeira adaptada para alunos com deficiência? Essa foi a ideia do estudante Fernando de Melo, 17 anos, que tem deficiência física e intelectual. Com a ajuda da professora de Educação Especial Elisângela Felix Santana, 39 anos, ele levou à Escola Municipal Antônio Heráclio do Rêgo, em Recife (PE), uma proposta inclusiva por meio de uma representação cultural – a capoeira. A unidade foi uma das beneficiadas, em 2016, pelo projeto Portas Abertas para a Inclusão – Educação Física Inclusiva , uma parceria formada em 2012 entre o Instituto Rodrigo Mendes, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Fundação FC Barcelona (FCB).

“Promover uma ação que instiga os educadores a repensarem suas atitudes, possibilitando uma nova forma de trabalhar com os estudantes, entre eles os com deficiência, tem sido muito prazeroso. Vimos a mudança efetiva na vida dos envolvidos ao longo dos últimos cinco anos, o que reforça nossa disposição em ajudar a construir uma sociedade cada vez mais inclusiva”, afirma Luiz Henrique Conceição, coordenador de formação do Portas Abertas.

Contemplada pela iniciativa, a escola precisou elaborar um planejamento sobre as atividades que seriam desenvolvidas durante o projeto. A professora Elisângela lembra que foram incluídas várias demandas, como por exemplo, retirar as barreiras arquitetônicas para ampliar a acessibilidade dentro do ambiente escolar. Para além de mudanças na infraestrutura, a educadora também sentiu a necessidade de promover, dentro do Portas Abertas, a interação social entre as crianças e os jovens.

Foi quando ela se lembrou de Fernando ter comentado que participava de um grupo de capoeira e tinha vontade de mostrar o trabalho na escola. Elisângela então defendeu a sugestão dada por ele, ajudando o aluno a levar a proposta inclusiva para a unidade escolar.

Muito empolgada, a educadora entrou em contato com o mestre de capoeira (do grupo do aluno) para convidá-lo a realizar o projeto na escola. “O mestre de capoeira foi um grande facilitador, não cobrou nada e fez tudo de boa vontade”, afirma.

Protagonismo

Cadeirante, Fernando foi protagonista do projeto de capoeira que durou sete meses na instituição. Mas nem sempre foi assim. Elisângela conta que o aluno era muito faltoso e bastante ríspido. As faltas corriqueiras eram, segundo ele, devido à falta de estímulo para os estudos. Assim, a docente teve, a princípio, o desafio de mostrar ao aluno que a Educação valia a pena, explicando a sua importância para a vida. “Depois que conversei com o Fernando [sobre o papel da Educação], ele começou a ir todos os dias à escola e finalmente sentiu-se importante no processo de construção do conhecimento, fazendo todas as atividades”, comenta Elisângela.

Semanas antes da apresentação da roda de capoeira, professora e o aluno foram de sala em sala na escola para divulgar a palestra e a roda de capoeira. Mesmo não sabendo ler e escrever, ele segurou os cartazes, informou aos estudantes sobre o evento. “O Fernando precisava se sentir pertencente ao grupo. Meu objetivo era que os demais pudessem perceber e respeitar os [alunos] especiais”, conta. Com a divulgação, a animação tomou conta das salas e todos ficaram ansiosos para a apresentação.

Divulgação da Palestra e da Roda de Capoeira/ arquivo pessoal

O evento serviu para a docente sensibilizar os estudantes sobre a própria realidade deles: a escola tem uma quantidade grande de crianças e adolescentes com deficiência, e a iniciativa teve o papel de mostrar que todos são capazes e merecem ter oportunidades. “Foi muito impactante porque as pessoas não esperavam que alguém com deficiência física pudesse jogar capoeira”, conta a educadora. A atuação de Fernando na roda de capoeira instigou outros alunos com deficiência a participar. “Hoje, enxergamos o respeito à diversidade dentro da escola”, completa a professora.  

Trajetória

Atendendo duas vezes por semana cada aluno, em um período mínimo de 50 minutos – a depender da necessidade do estudante, Elisângela é responsável pelo acompanhando dos estudantes com deficiência na sala de recursos multifuncionais, espaço pleiteado pela Meta 4 do PNE, que obriga a universalização do acesso à Educação para a população com deficiência. Entre as atividades trabalhadas estão a coordenação motora, conteúdos de português e matemática e a alfabetização por meio de figuras. São realizados também atendimentos em grupo, a fim de estimular a socialização entre eles.

A relação que Elisângela tem tanto com os jovens da escola quanto com seus responsáveis é de cumplicidade e companheirismo. “Com essa experiência eu me sinto realizada e tenho a sensação de dever cumprido, pois fiz minha parte”, conta emocionada.

Apesar do sucesso na experiência com Fernando e outros alunos, para a docente, a verdadeira inclusão caminha a passos lentos. Ela enfatiza a necessidade da formação inicial pautar o assunto, sensibilizando, desde o início, os professores, como manda a estratégia  4.16 do PNE, que preconiza a inclusão dos processos de aprendizagem relacionados ao atendimento de estudantes com deficiência.

Especializada em Estimulação Essencial em Paralisia Cerebral, a pedagoga teve um motivo familiar pela escolha: seu irmão. Assim como Fernando, o irmão de Elisângela tem deficiência física e intelectual, mas não foi estimulado na infância e, portanto, não pôde avançar no desenvolvimento de habilidades físicas e mentais. “É por isso que eu estou na luta: quero que as crianças com deficiência tenham acesso, oportunidade e estímulo ”, finaliza.

Professora Elisângela, aluno Fernando e Mestre de capoeira Márcio/ arquivo pessoal

Elisângela Felix Santana, 39, é pedagoga especializada em Educação Especial na rede municipal de Recife há seis anos. Trabalha com a inclusão (atividades lúdicas, exercícios de coordenação motora e expressão corporal) de alunos com deficiência do Ensino Fundamental II na sala de recursos multifuncionais da Escola Municipal Antônio Heráclio do Rêgo – Recife (PE)