Silêncio, turma: quando os problemas vocais impedem o professor de lecionar
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Silêncio, turma: quando os problemas vocais impedem o professor de lecionar

Docente da rede estadual de São Paulo relata os problemas que acometeram sua saúde vocal

Todos Pela Educação

06 Setembro 2017 | 11h30

Professor Carlos Eduardo Siqueira

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

“Silêncio, pessoal”, “Prestem atenção!”. Essas eram as frases mais utilizadas pelo professor Carlos Eduardo Siqueira, 32, durante as aulas de história na rede estadual de São Paulo, em 2015. Dono de uma voz potente, o educador não imaginava que seus pedidos de silêncio em timbres mais graves fossem comprometer de tal forma sua saúde vocal.

Carlos atua como professor temporário na rede paulista há dois anos. Em seu primeiro ano, quando lecionava para o Ensino Fundamental II e  Ensino Médio na Escola Estadual Caetano de Campos, o educador foi surpreendido por um grave problema nas cordas vocais.  

Apesar de as turmas do Ensino Médio serem agitadas e conversarem bastante, segundo ele, as salas mais barulhentas eram as dos Anos Finais do Fundamental. “As turmas  do Fundamental II gritavam muito. Tinham de 36 a 40 alunos por sala e, quase sem perceber, eu já estava falando muito alto, praticamente gritando para que eles me ouvissem”, lembra o professor.

A descoberta

Tudo começou com uma rouquidão extrema nos últimos meses de 2015. À época, a Escola Estadual Caetano de Campos havia sido ocupada por estudantes secundaristas contrários à reorganização escolar, proposta pelo governo (leia mais).  

O número de alunos por sala de aula deveria levar em consideração estudos de especialistas sobre o quanto o professor consegue falar sem desgastar a voz
– Carlos Eduardo Siqueira, professor

No início, Carlos achou que fosse um problema banal. Mesmo com a voz debilitada, ele conseguiu dar aulas até o final do ano letivo de 2015. No entanto, ele percebia que, a cada dia, sua voz estava pior. Quando chegava em casa, por exemplo, sua garganta ficava muito sensível e dolorida – suas cordas vocais estavam desgastadas de tanto ele forçar a voz.

Percebendo que a rouquidão só se agravava, ele decidiu procurar um especialista em janeiro de 2016. Uma amiga indicou-lhe uma fonoaudióloga particular, pois pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ele só conseguiria vaga em três meses.

Após a consulta, Carlos foi diagnosticado com desgaste das cordas vocais e sulco vocal. Ele lembra que a especialista fez muitas perguntas sobre os seus hábitos – como, por exemplo, com que frequência ele bebia água. “Eu não bebia muita [água] e precisei adotar esse hábito, pois descobri que a água é responsável pela lubrificação das cordas vocais”, comenta o professor.

Exercícios vocais foram outro fator determinante. No caminho de casa para a escola e ao trocar de uma sala para outra, a tarefa dada pela fonoaudióloga era pronunciar as letras V, Z G e, para o aquecimento, a letra M. Alguns hábitos alimentares noturnos também tinham forte influência como, por exemplo, consumir carne à noite, o que ocasionava refluxo gastroesofágico e prejudicava as suas cordas vocais.

“Durante o tratamento eu aprendi a como utilizar minha voz da melhor forma”, conta o professor. “Antes, eu não tinha nenhum cuidado com ela. Não tinha preocupação com meu principal instrumento de trabalho”, afirma Carlos. 

Para “poupar” sua voz, a fonoaudióloga recomendou, além de tentar falar sempre mais  baixo, o uso de microfone em sala de aula. Com isso, sua voz, que chegava normalmente a 92 decibéis, passou para 62 com o microfone. “No início, eu tive receio de que [o microfone] criasse uma barreira entre mim e os alunos, então passei a brincar com ele, imitando, por exemplo, um camelô da 25 de Março vendendo produtos”, ri o professor. 

Mudança

Hoje, Carlos atua em uma classe hospitalar dentro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por meio do programa Classe Hospitalar, uma parceria da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo com hospitais e centros de saúde, na qual professores inscritos no projeto ministram aulas para jovens afastados da escola por motivos de saúde.

A escolha de Carlos por lecionar nesse tipo de classe teve bastante relação com sua experiência ao ser diagnosticado com o problema vocal, uma vez que, além desses alunos estarem inseridos em um ambiente mais silencioso, a quantidade de estudantes é bem menor. “O número de alunos por sala de aula deveria levar em consideração estudos de especialistas sobre o quanto o professor consegue falar sem desgastar a voz”, completa ele.


Como cuidar da sua saúde vocal: fonoaudióloga dá dicas

Para cuidar e prevenir a saúde vocal das complicações por conta do ofício docente, alguns cuidados são fundamentais. A fonoaudióloga Andréa Oliveira, que atua no Instituto de Saúde de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica os problemas vocais enfrentados pelos professores. Veja abaixo uma entrevista com ela.

 

TPE- Quais aspectos do ambiente escolar facilita o desenvolvimento de problemas vocais nos docentes?

Dra. Andréa Oliveira- Uma série de fatores pode influenciar o desenvolvimento dos problemas vocais. Por exemplo: a utilização de quadro negro e giz por diversas instituições escolares, favorecendo o desencadeamento de quadros alérgicos; a alocação de um número excessivo de alunos por turma; o isolamento acústico inadequado das salas de aula; a falta de treinamento vocal e da competência comunicativa dos professores e a falta de remuneração adequada, o que leva a grande maioria a trabalhar em dois ou três turnos por dia, sobrecarregando não apenas as vozes, mas a saúde física e mental deles.

 

TPE- Existe uma maneira de evitar os problemas vocais tão frequentes nos professores?

Dra. Andréa Oliveira- Sim. Isso deve ocorrer com investimento em treinamento vocal e competência comunicativa, desde a formação de futuros docentes aos que já atuam no mercado de trabalho. Assim, todos poderão empoderar-se de suas ferramentas de comunicação, utilizando-as de modo saudável e efetivo. Além disso, o investimento em infraestrutura adequada, que inclua a amplificação sonora para cada sala de aula, sistemas de ventilação silenciosos e com higienização regular e mobiliário adequado para professores e alunos, pois estes também precisam estar bem no ambiente em que permanecem boa parte do dia.

 

TPE- Quais os principais problemas vocais desenvolvidos pelos professores? Eles podem evoluir para algo grave?

Dra. Andréa Oliveira- Os principais problemas são as manifestações iniciais de alguns sintomas vocais, como: dor ou sensação de aperto na região do pescoço e ao falar; piora vocal ao longo do dia; rouquidão e falhas na voz. A persistência dessas complicações pode indicar inadequações no funcionamento das pregas vocais – as conhecidas fendas glóticas -, que podem levar ao desenvolvimento de lesões como nódulos e pólipos de pregas vocais. Além disso, em associação com outros fatores, como o refluxo gastroesofágico e o tabagismo, outras lesões como úlceras de contato, leucoplasias e edemas de Reinke podem surgir. Quando um profissional tem a voz atingida, isso interfere em sua qualidade de vida e motivação para trabalhar, o que pode ser considerado grave.


TPE- Quando o professor está em tratamento por problemas vocais, ele pode ser afastado de suas atividades?

Dra. Andréa Oliveira- Sim. O afastamento do professor deve estar vinculado ao tratamento do problema apresentado por uma equipe que incluirá, no mínimo, um fonoaudiólogo e um otorrinolaringologista. Estes avaliarão de modo multidimensional o professor e definirão o tempo inicial de tratamento. Após esse período, o docente será reavaliado para saber se está apto ao retorno de suas atividades.

 

TPE- Como estimular alunos e professores para utilizarem suas vozes e comunicação de modo adequado?

Dra. Andréa Oliveira- Por meio de treinamentos, conduzidos por fonoaudiólogos. Esse é o melhor caminho.

 

TPE- Há cura para alguns casos ou somente tratamentos contínuos?

Dra. Andréa Oliveira- Os problemas desenvolvidos por comportamentos vocais inadequados são passíveis de cura. Aqueles decorrentes do refluxo gastroesofágico também. Há pessoas que possuem pequenas alterações, chamadas de alterações estruturais mínimas da cobertura das pregas vocais (AEMC). Quando elas passam a fazer uso intenso da voz também podem desenvolver outras alterações, passíveis de resolução (Behlau e cols, 2001 e 2005). Cabe ressaltar que o tratamento na maioria dos casos é interdisciplinar, incluindo fonoaudiólogo, otorrinolaringologista, gastroenterologista e nutricionista entre outros.

 

TPE- Existe algum estudo  que indique o número ideal  de alunos, em sala de aula, para  que o professor consiga  lecionar sem desgastar sua voz?

Dra. Andréa Oliveira- Vários estudos mostram que o número excessivo de alunos, acrescido de outros fatores de risco, são prejudiciais. A pesquisadora Regina Penteado discute o tema em seus trabalhos, onde aborda também o cuidado com a Promoção da Saúde para professores. Deste modo, a definição de um número é um passo, porém insuficiente se analisado isoladamente.

 

TPE- Existe um número ideal de decibéis para a voz de um professor?

Dra. Andréa Oliveira- Em um de seus ensaios clínicos controlados e aleatorizados, o pesquisador Nelson Roy (2002) demonstrou que professores que usam amplificação sonora para lecionar são beneficiados em seus trabalhos, uma vez que isso os protege de problemas vocais. Deste modo, promover a amplificação é mais importante que a definição da capacidade em decibéis. Em termos gerais, o ideal é que o professor utilize uma voz natural, produzida sem esforço, com boa articulação dos sons e ressonância deles, sem sobrecarregar cavidade nasal e laringe, bem como ter um apoio respiratório adequado.

 

Esse post faz parte da série “Como vai a saúde dos nossos professores?” produzida pelo Todos Pela Educação. Os outros posts podem ser lidos por meio dos links abaixo:

Como vai a saúde dos nossos professores?

Lesões por esforço repetitivo: uma doença comum entre professores

Depressão: como combater a principal causa de afastamento dos docentes?


Sobre a especialista:

Dra. Andréa Oliveira

Universidade Federal Fluminense

Instituto de Saúde de Nova Friburgo

Depto de Formação Específica em Fonoaudiologia

Professora Adjunta da Área de Voz

Doutora em Ciências (USP)

Especialista em Voz (CEV/CFFa)

Especialista em Comunicação e Saúde (Fiocruz)

FACS Certified Coder, do FM-Group International