Quatro especialistas apontam desafios para a implementação da BNCC
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Quatro especialistas apontam desafios para a implementação da BNCC

Apesar de o documento estar em fase final de discussão, comunidade educacional aponta questionamentos como formação docente e capacidade técnica das redes

Todos Pela Educação

06 Dezembro 2017 | 10h50

Foto: João Bittar/ Unesco – MEC 
Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais
Escola Municipal Prof. Doriol Beato

 

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

Estamos na semana da votação da 4º versão da Base Nacional Comum Curricular, documento que define os direitos de aprendizagens para as etapas da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, como consta nas metas  1 e 2 do Plano Nacional de Educação, respectivamente. Além das discussões acerca do conteúdo do documento, também é preciso debater os muitos desafios de sua implementação.


O Blog conversou com os especialistas Patricia Mota Guedes, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Fundação Itaú Social; Luis Carlos Menezes, membro do Conselho Estadual de Educação  e Professor Sênior da Universidade de São Paulo (USP); Beatriz Abuchaim, coordenadora de Educação Infantil na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, e Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), que apontaram as principais dificuldades a serem enfrentadas no processo. Confira abaixo:

REGIME DE COLABORAÇÃO

Na análise de Patrícia, é fundamental pensar no regime de colaboração entre a União, os estados e os municípios para que a base, de fato, saia do papel e seja exitosa. Ao pensar na proporção de matrículas do Ensino Fundamental I, responsabilidade dos municípios, será necessário estabelecer uma cooperação para que, por exemplo, os municípios pequenos consigam gerir bem e qualificar o ensino. Já Beatriz destaca que a cooperação entre estados e municípios efortalecem as iniciativas de implementação da BNCC no sentido de sistematizar trocas de experiências e de elaborar documentos curriculares.

FORMAÇÃO INICIAL

De acordo com Anna Helena, a base deve ser parte integrante da formação docente, servindo como objeto de discussão e reflexão no processo de formação inicial. “Hoje a grande discussão sobre a formação docente é a desarticulação entre a teoria e prática, e a BNCC deve ser um instrumento que aproxime esses dois campos”, afirma.

Já Patrícia ressalta a importância da implementação do material para que as redes municipais estruturem seus currículos, o que impacta a vida de professores e gestores escolares, pois são eles quem vão tornar a base viva por meio de suas práticas. “Além de os cursos de Licenciatura e Pedagogia terem de reformular seus currículos, há ainda a necessidade de articulação entre universidades e secretarias de Educação tanto para revisar a formação quanto para dar apoio técnico às secretarias, como parceiras nesse desenvolvimento”, pontua ela.

Quanto ao novo programa de residência pedagógica anunciado recentemente pelo Ministério da Educação (MEC), a gerente de pesquisa e desenvolvimento da Fundação Itaú Social pondera que a iniciativa deve ser mais detalhada. “Há evidências da eficácia da residência pedagógica, pois essa prática oferece tanto a formação docente quanto a da equipe de professores que oferecem a residência. É pensado também qual será o perfil dos educadores-modelo para a residência e como as escolas se preparam para receber os programas de residência”, completa.

Ainda segundo Patrícia, a residência  permite que o professor vivencie o dia a dia da sala de aula, mas ainda numa posição intermediária, em que ele não é o líder nem o observador passivo e, com isso, ele é exposto de uma forma mais intensa, acompanhando o professor mentor, aprendendo e refletindo não só de forma pontual mas por um tempo significativo.

FORMAÇÃO CONTINUADA

Os especialistas destacam que há evidências na literatura, inclusive internacional, de que as estratégias de formação docente estão caminhando cada vez mais para conteúdos e técnicas que tragam sempre a prática da escola como foco. “As práticas mais exitosas tendem a ser aquelas que acontecem na escola. É a chamada ‘formação em serviço’, que visa realizar a formação na própria instituição em, por exemplo, reuniões de professores, oficinas com os profissionais da instituição e estratégias de mentoria com a observação da prática”, explica Patrícia.  

Beatriz acrescenta que a formação continuada deve ocorrer de forma sistemática, no sentido de traduzir aos professores os conteúdos e modos de trabalhar propostos na Base Nacional. “Essas formações têm um potencial maior de gerar transformações na prática do professor quando estão atreladas ao seu cotidiano de trabalho”, completa. Nesse sentido, a atuação do coordenador pedagógico ou do supervisor da secretaria municipal de Educação é essencial, uma vez que eles estão aptos a acompanhar a atuação dos grupos de professores de uma unidade de maneira próxima e dialógica, tornando possível alinhar, junto com os docentes, meios de modificação de seu trabalho junto às crianças e jovens.

EDUCAÇÃO INFANTIL

No que diz respeito à Educação Infantil, o desafio para os  municípios brasileiros será grande, principalmente para os menores, onde a capacidade técnica é reduzida para organizar essa etapa da Educação Básica. “A Educação Infantil requer um olhar especial, dadas as especificidades das necessidades das crianças pequenas e de suas famílias, que possuem aspectos diferentes das demandas das demais etapas escolares. É muito importante que a gestão municipal se preocupe com adequações na infraestrutura, no sentido de aprimorar os recursos materiais à proposta da base”, aponta Beatriz.

Trabalhar expressões artísticas com as crianças, por exemplo, requer que as unidades estejam minimamente equipadas nesse sentido, tendo materiais que propiciem o desenvolvimento desse tipo de atividade. Por outro lado, aponta ela, a formação dos recursos humanos é um aspecto chave na implementação do documento. A base para essa etapa prevê o trabalho com campos de experiência que integrem diferentes áreas de conhecimento e habilidades em uma mesma iniciativa. Essa maneira de trabalhar é complexa quando comparada a modelos que separam conteúdos por disciplinas. Portanto, o professor tem que estar atento para explorar a riqueza de um tema, atrelando a ele diversos conteúdos e habilidades a serem trabalhados com as crianças de forma interativa e lúdica, o que requer do educador um bom entendimento do desenvolvimento infantil, bem como capacidade de escutar e observar as reações das crianças nesse processo.

ENSINO FUNDAMENTAL I

Anna Helena aponta que a língua portuguesa precisa ser revista, e que, inclusive, especialistas já apontaram na base as dificuldades desse componente curricular. “Há alguns consensos que precisam ser construídos, por exemplo, o aperfeiçoamento da progressão continuada e dos objetivos de aprendizagem que se repetem ao longo dos anos sem que a progressão fique clara”, afirma ela. Existem também tópicos muito centrados, como questões gramaticais com contexto de aspectos expressivos e assuntos mais específicos que precisam ser aprimorados para que a língua seja trabalhada no contexto e na sua função social. Assim, será preciso olhar de forma integrada essas diferentes áreas, pensar meios de articulação entre elas, e a base não faz isso, ressalta Anna Helena. “Essa tarefa precisa ser realizada nas escolas, entre as distintas disciplinas e áreas. As 10 competências anunciadas no texto introdutório do documento, que fala de uma Educação Integral – meta 6 do PNE , deverão ser transversais e se concretizarem aos objetivos de aprendizagem”, explica.

ENSINO FUNDAMENTAL II

Na análise de Luis Carlos de Menezes, a dificuldade central é transformar a cultura escolar atual do que ele chama de “Pedagogia do discurso” . “Precisamos produzir uma Educação mais participativa, fomentando o protagonismo dos estudantes e a aprendizagem em um contexto real”, acrescenta.

Anna Helena completa que essa etapa escolar é conhecida como o “ciclo esquecido”, o menos abordado tanto no campo de pesquisa quanto nas políticas públicas e, portanto, é preciso dar notoriedade a esse ciclo pois é nele que se agravam questões como repetência e evasão escolar. “É necessário pensar a implementação com mecanismos de acompanhamento da aprendizagem dos estudantes dessa etapa. Há pesquisas que mostram que o ganho de estudo no Fundamental II é pequeno e há pouco avanço na motivação dos alunos”, afirma.