Novos Fluxos: trajetórias de jovens nas periferias da cidade
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Novos Fluxos: trajetórias de jovens nas periferias da cidade

"O desafio do PNE está na formulação de estratégias que aprofundem o debate em torno do desenvolvimento integral dos jovens, considerando a relação entre identidade e território", afirma Fernanda Zanelli, da Fundação Itaú Social

Todos Pela Educação

11 Agosto 2017 | 08h00

Marcelo Camargo/Ag. Brasil/Fotos Públicas

As lentes com as quais estamos habituados já não são capazes de desvendar o mundo em que estamos. São ainda mais impróprias ao se tratar das juventudes. A cada momento nos surpreendemos com manifestações juvenis indecifráveis, que pedem novas formas de interpretação. Um olhar sobre as trajetórias de jovens residentes em periferias nos permite coletar pistas sobre os principais obstáculos e estratégias em suas jornadas para desbravar novos fluxos na busca por oportunidades.

Para além de eventos nas ruas, em que multidões se reúnem na órbita de carros com potentes sistemas de som, os Fluxos de Funk representam um movimento juvenil que responde à necessidade de espaços de socialização e de divulgação de produções culturais. O Fluxo é uma metáfora para a compreensão do que a criatividade deste grupo etário é capaz quando o objetivo é inaugurar estradas para aquilo que desejam.

O Ensino Médio também é travessia. O último estágio no ambiente escolar é uma perspectiva angustiante para o jovem que se vê diante de múltiplas portas – Fernanda Zanelli

Toda odisseia tem seu ponto de partida. No caso dos jovens das periferias, os bairros afastados do centro são o início de suas histórias, em que o ponto de interseção está na relação entre identidade e território. À medida que alcançam outros espaços, e lá convivem a maior parte do seu dia para trabalhar ou estudar, questionam-se: ainda sou da quebrada?

Cedo ou tarde, o chamado para a aventura acontece. A escola e as redes online são exemplos de arenas nas quais convites são lançados e deles surgem engajamentos e recusas. Desbravar a cidade é uma intensa e irreversível travessia. Utilizar o transporte público e enxergar a metrópole como uma imensa trama de oportunidades é tarefa árdua, tendo em vista que os muros que os cercam são múltiplos: vão desde a precária mobilidade urbana até barreiras simbólicas, sustentadas principalmente pelo racismo, considerando que a maioria da população periférica é negra.

O Ensino Médio também é travessia. O último estágio no ambiente escolar é uma perspectiva angustiante para o jovem que se vê diante de múltiplas portas. Para abri-las, precisam articular experiências que lhe tragam ampliação de repertório intelectual, reconhecimento de suas potencialidades e concretização de suas produções sociais e culturais. Ao mesmo tempo, eles não podem abrir mão de geração de renda. Aos ofertantes de formações para juventudes, a saída é acolher essas novas dinâmicas de participação, por vezes fragmentadas, já que um único espaço não seria suficiente para suprir todas essas exigências.

Há um descolamento entre a trajetória educacional e o trabalho, pois, mesmo para os que ingressam por meio de oportunidades específicas para o primeiro emprego, não é raro vivenciarem rotinas operacionais que não priorizam o desenvolvimento. Os alunos que trabalham quase sempre precisam estudar à noite. O resultado é uma gangorra em que a escola desce e o trabalho emerge como solução imediata. A consequência é a falta de preparo para o ingresso na Educação Superior, seja para realização dos vestibulares ou para uma escolha de carreira que, de fato, represente um desejo refletido.

O desafio posto ao Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014, está na formulação de estratégias que aprofundem o debate em torno do desenvolvimento integral dos jovens. No âmbito da Meta 6, cuja redação explicita a oferta de Educação em tempo integral, são necessários esforços para a diversificação do currículo, para a articulação dos agentes dos diferentes níveis do sistema de ensino e do território, para a participação juvenil nas instâncias de decisão, a fim de acomodar as demandas da complexa realidade de estudantes da rede pública.

Uma parcela das juventudes periféricas atua no contrafluxo, desvendando meios de produção que associem a geração de renda ao emprego de seus talentos. As periferias mostraram ao longo dos anos que sua vocação para estreitar vínculos de colaboração entre moradores transborda outros mecanismos potentes de sobrevivência econômica e lutas sociais. A força propulsora dessas redes são as juventudes locais, que, especialmente por meio de coletivos culturais, conferem aos territórios o passaporte para novas formas de economia, baseadas em bens e serviços cujo principal ativo é a criatividade. É crucial o debate sobre caminhos e limites do empreendedorismo nesse contexto, mas também é urgente o fomento aos grupos que atuam na periferia, desenvolvendo ações que precisam ser reconhecidas no celeiro da inovação social.

A universidade é um agente importante nesse cenário. Nos últimos anos foi significativo o acesso de egressos de escolas públicas e negros à Educação Superior, fato que não nos livra de questionar as condições de permanência na academia e a existência de mobilidade social. O capital social é peça-chave nessa equação, pressionando as políticas públicas a aproximar as juventudes de periferias de novos conectores e fortalecer os laços já estabelecidos para que possam compartilhar uns com os outros os novos fluxos na busca por oportunidades e enfrentamento das desigualdades.

* Fernanda Zanelli é especialista em gestão de políticas culturais e em globalização e cultura. É gestora de projetos socioculturais para juventudes na Fundação Itaú Social e autora do estudo  “Novos fluxos na busca por oportunidades: trajetória de jovens nas periferias da cidade”