Periferia em versos: literatura marginal como caminho para o processo de aprendizagem
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Periferia em versos: literatura marginal como caminho para o processo de aprendizagem

Ao transformar a realidade das periferias em poesia, educador desperta nos estudantes o interesse pela leitura

Todos Pela Educação

08 Novembro 2017 | 11h00

Educador Rodrigo Ciríaco/ arquivo pessoal

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

Frequentador assíduo do Sarau da Cooperifa, desde 2005,  Rodrigo Ciríaco, professor de história, encantou-se, desde o início, com as interpretações poéticas realizadas no Jardim Guarujá, na periferia de São Paulo. Os encontros aconteciam nas noites de quartas-feiras, quando mais de cem pessoas se reuniam, deixando de lado a novela das 9 e até o futebol, para ouvir poesias marginais periféricas que versavam a vida no extremo sul da capital paulista.

“Se essa literatura periférica consegue atrair dezenas de pessoas de forma artística e prazerosa, em pleno horário nobre da televisão brasileira, por que não levá-la também à escola?”, questionou-se o professor. A ideia ganhou corpo e ele passou a trabalhar a literatura marginal em sala de aula como forma de apoiar a aprendizagem dos alunos. Durante os encontros, levava também alguns livros de seu acervo particular e organizava saraus com os estudantes.

No início, a tarefa foi um grande desafio, pois Ciríaco não encontrava referências pedagógicas que abordassem a temática. Ele também se deparou com muito preconceito daqueles que desconheciam esse gênero literário. “Por ser uma linguagem coloquial e urbana, com a presença de muitas gírias, havia uma certa hostilidade”, afirma o educador.

Junto aos adolescentes e jovens, por outro lado, a proposta provocou imediatamente um grande impacto, instigando a vontade de participar dos saraus. Seja pela inovação – eles nunca tinham visto a literatura e a poesia de forma viva, oral e performática -, seja pelos temas abordados – o cotidiano das periferias, racismo e violência -, todos demonstraram interesse. “Transformar a realidade dura das periferias em poesia é um processo prazeroso, mas também chega a ser doloroso, pois escrever é retomar feridas”, diz.

“Dar uma nova roupagem a um determinado assunto que não tem a devida atenção na sociedade significa uma oportunidade de discuti-lo, colocá-lo em pauta, e a poesia funciona dessa forma” completa.

Trajetória
Formado em História, Ciríaco revela que, desde pequeno, sempre foi muito comprometido com os estudos. Apesar de seus pais não terem o hábito da leitura, sempre o incentivaram comprando mensalmente os gibis da Turma da Mônica, de Maurício de Souza, que, mais tarde, deram lugar às histórias em quadrinhos dos heróis da Marvel. Já no Ensino Médio, ele teve o primeiro contato com a poesia por meio das obras do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que de forma lírica e objetiva, segundo ele, fazia críticas sociais. E assim foi despertado o gosto por poesia e literatura.

Aprendizado

Há, na opinião de Ciríaco, inúmeras formas de utilizar a literatura marginal nas salas de aula, principalmente de maneira transversal. Uma delas é a associação de textos literários ao aprendizado da disciplina de história, principalmente no que toca a questões de desigualdade social e cultural. Essa abordagem está afinada com o que propõe a versão preliminar da Base Nacional Comum Curricular, em debate no Conselho Nacional de Educação, que recomenda entre os eixos de Língua Portuguesa, o da Educação Literária, cujo objetivo é possibilitar a fruição estética e crítica presentes nos textos artísticos.

Outra alternativa proposta pelo poeta é fazer uma leitura comparada, relacionando poemas e escritores contemporâneos aos de outras épocas, de modo a analisar as obras a partir do contexto vivido e das referências. Um exemplo desse modelo seria a abordagem que o poeta Antônio Frederico de Castro Alves (conhecido apenas por Castro Alves) fazia, na década de 1860, sobre o tráfico negreiro e a violência hoje contra  juventude negra. “Eu levanto a bandeira dos saraus nas escolas como processo educativo e artístico, prática importante para a formação de um estudante, pois o ajuda a desenvolver habilidades de leitura-escrita crítica”, diz o professor. Aspectos relevantes para um processo contínuo de alfabetização ao longo da trajetória escolar.

O formato de sarau também contribui para o desenvolvimento de competências socioemocionais, habilidades que estão também contempladas na BNCC, que prevê o desenvolvimento integral dos indivíduos e não apenas os aspectos cognitivos. Ciríaco destaca que as atividades artísticas em grupo colocam os adolescentes diante de questões como tolerância, trabalho em grupo, respeito e autoestima para valorização das individualidades.

Rodrigo Ciríaco é educador, escritor e mediador de leitura