Juventudes, no plural
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Juventudes, no plural

Proposta de Base Nacional do Ensino Médio avança em conceitos associados aos jovens e você precisa saber por que

Todos Pela Educação

13 Abril 2018 | 10h28

Por Lázaro Campos Junior, do Todos Pela Educação
Adulto em formação, rito de passagem, etapa de transição, todos iguais. Essas definições para as juventudes ficaram para trás com a mais recente proposta da Base Nacional do Ensino Médio entregue pelo Ministério da Educação (MEC). Saem os termos que camuflam as diferenças e entram os conceitos que valorizam a diversidade. Afinal, assim como na vida, a escola é lugar de pluralidade – de pessoas, identidades e objetivos.

A Base parte do pressuposto de que os jovens são sujeitos de direitos. A concepção engessada de que os alunos apenas recebem passivamente aquilo que o professor passa de conteúdo dá lugar ao protagonismo, com o aluno participando ativamente de sua trajetória de aprendizagem. Eles e elas possuem legitimidade para pensar sobre o que querem aprender e, muitas vezes, sugerir formatos de atividades que dialoguem com sua realidade. Porém, tudo isso deve estar alinhado a uma formação que lhes permita alcançar seu projeto de vida particular.

E não são apenas os estudantes que ganham com essa mudança. A escola também é beneficiada quando acolhe todas as juventudes. Se são ouvidos e têm os pontos de vistas considerados, os alunos sentem-se valorizados, passam a costurar com a equipe pedagógica o processo de ensino-aprendizagem, e criam uma rede onde todo mundo sai sabendo algo novo. São transformações, no entanto, que requerem adaptações: canais de comunicação permanentes e frequentes; envolvimento dos alunos nas decisões da instituição; devolutivas das sugestões dos jovens, de maneira que o diálogo não seja uma escutatória vazia. Outro fator importante é combater todo tipo de preconceito de classe, cor, crença, gênero e orientação sexual. A escola deve permitir que cada jovem expresse sua cultura e identidade, estabelecendo valores de empatia e diálogo na busca por uma Educação que respeite as diferenças.

Outro destaque da Base é priorizar o contexto da juventude no mundo contemporâneo, afinado com as novas exigências do mundo do trabalho. Diante de um cenário em que muitas das ocupações futuras sequer foram criadas, o objetivo da proposta é que os jovens desenvolvam competências para a inserção ativa, crítica e responsável no mercado de trabalho.

Essa mudança não é por caso. Desde o fim da ditadura, as legislações vêm avançando na garantia da participação dos alunos nas decisões da sociedade e da escola, ainda que a efetividade dessas medidas sejam aindas muito limitadas. Nessa direção, a Base está em diálogo com alguns marcos da área de juventude, como o Estatuto da Juventude, aprovado em 2013, que engloba os direitos de pessoas entre 15 e 29 anos; e o ECA (estatuto da Criança e do Adolescente), aprovado em 1990, que defende as crianças e adolescentes de 0 a 18 anos. O documento entregue pelo MEC aponta defende uma democratização do espaço escolar.

Diálogo, diálogo, diálogo: a Base na prática
Para Anna Penido, diretora-executiva do Instituto Inspirare, a Base não poderia deixar de ter uma concepção plural de juventude, uma vez que seu princípio norteador é de que os alunos podem escolher seu itinerário formativo. No entanto, ela pondera que esse novo princípio exige uma nova atitude. “É preciso uma mudança cultural. Os adultos não podem apenas abrir os canais de diálogos com estudantes, eles devem acreditar que a contribuição dos alunos é válida”, afirma.

Por outro lado, a especialista destaca que o novo conceito exige um posicionamento dos estudantes e a construção de uma cultura participativa, onde toda voz seja importante. “Para ser aplicada, essa nova concepção exige uma também nova postura dos estudantes. Além de críticos, eles deverão saber propor mudanças. Será necessário uma cultura de engajamento”, explica.

Acreditar nos alunos será, na opinião de Anna, fundamental. “Os jovens não serão plenamente desenvolvidos no ensino enquanto as escolas subestimarem a capacidade deles de aprender”, diz. “Os profissionais precisam ter a convicção de que todos os jovens têm potencial e capacidade de aprender, ainda que seja preciso superar dificuldades iniciais. As escolas não podem mais justificar o insucesso em função da uma incapacidade dos estudantes”, afirma.

E você, o que acha? Leia o documento e participe você também desse debate.