Depressão: como combater a principal causa de afastamento dos docentes?
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Depressão: como combater a principal causa de afastamento dos docentes?

Prevista no Plano Nacional de Educação, a valorização docente depende de boas condições de trabalho para assegurar a saúde dos nossos educadores

Todos Pela Educação

27 Setembro 2017 | 10h31

João Bittar/MEC

Por Denise Crescêncio, do Todos Pela Educação

Lucilene de Araújo Braga, 53, é professora de história há 27 anos na rede estadual de São Paulo. Atualmente está afastada por conta dos problemas de saúde que desenvolveu durante a docência. Foi na Escola Estadual Professor Cândido Gonçalves Gomide, em Pirituba, que começaram a surgir os primeiros sinais da depressão, quando lecionava para as turmas do Ensino Fundamental II e Ensino Médio.

Apesar de se dizer calma, a educadora confessa que a indisciplina dos alunos, comum nessa etapa de ensino, atrapalhava suas aulas. “Eram estudantes que brigavam muito entre si. Os jovens dos primeiros anos do Ensino Médio, principalmente, eram muito difíceis”, lembra a docente.

Os sintomas começaram a aparecer depois de a professora vivenciar uma situação de tensão com um aluno em liberdade assistida. Ao detectar que o estudante não mostrava interesse pelas aulas, ela o chamou à atenção, provocando uma reação exagerada do aluno, que a respondeu de forma grosseira e ameaçadora.

Depois desse acontecimento, o prazer que Lucilene tinha ao entrar na sala de aula foi substituído por medo e insegurança. Foram as filhas da docente que perceberam que a mãe já não era mais a mesma: dormia demais, faltava com frequência ao trabalho, não tinha mais prazer em se arrumar e sofria de constantes dores de cabeça. Elas decidiram, então, levar a mãe ao médico, que diagnosticou a depressão e afastou a docente da sala de aula para a realização de tratamento médico. “Foi muito difícil para mim. Eu não aceitava estar doente [com depressão] e não queria sair da escola, pois ela representava meu sonho de profissão. Foi muito duro ter de me afastar”, afirma.


Tratamento

Após o diagnóstico, além da medicação e das terapias constantes, o médico indicou exercícios físicos. Para Lucilene, que era sedentária, os exercícios contribuíram muito para aumentar a qualidade de vida e autoestima.

Embora o quadro clínico tenha melhorado, a opinião da docente em relação à atenção dada a seus colegas continua crítica. Ela não vê valorização da carreira docente na rede pública de ensino, inclusive no que diz respeito à saúde do professor, questão pautada na estratégia 7.31 do Plano Nacional de Educação (PNE), que visa assegurar o bem-estar dos profissionais de Educação.

“A gente tem que trabalhar, no mínimo, em duas escolas para conseguir se manter financeiramente. Além disso, também comprometemos nosso tempo livre com os conteúdos de aula. Tudo isso demanda muito dos educadores”, critica a professora, que no momento aguarda uma readaptação na rede estadual.

 

Psicólogo aponta meios de combater a depressão docente

Wanderley Codo, doutor em psicologia social e professor da Universidade de Brasília (UNB), dá dicas de como a escola pode contribuir para a garantia da saúde psicológica dos professores. O especialista explica que o profissional docente desenvolve problemas físicos e psicológicos diferentes dos demais. Por exemplo, a Síndrome de Burnout que afeta especialmente professores. A doença é diferente do estresse, termo extremamente genérico para casos que envolvam a produtividade profissional. Abaixo, confira a entrevista que o especialista concedeu ao blog.


TPE:
A idade dos alunos pode influenciar no agravamento de problemas de saúde dos professores?

Wanderley: Quanto mais novo for o aluno, mais Síndrome de Burnout o professor pode ter. Como o professor é um cuidador, os estudantes mais novos necessitam de maior cuidado e atenção particular, ou seja, é mais difícil para o docente se controlar emocionalmente. Já no Ensino Médio, por exemplo, é um professor de 25 anos e um aluno de 17, as relações são mais maduras, de igual para igual.

 

TPE: Como envolver os alunos no processo de melhoria das condições de trabalho dos docentes?

Wanderley: O segredo é, acima de tudo, a participação dos estudantes no processo educacional. Eles têm que discutir com a escola o programa pedagógico e as formas de intervenção. A instituição escolar tem que funcionar como uma comunidade na qual pais, alunos, professores e diretores trabalhem, em conjunto, a partir de um projeto político-pedagógico. Isso traz mudanças positivas, inclusive reduz a violência.

 

TPE: Você pode citar algum estudo de sua autoria que trate deste assunto?

Wanderley: Realizei uma pesquisa em âmbito nacional, com 52 mil professores e educadores, que envolveu o tema violência, e a conclusão foi que quanto mais aberta está a escola, menos casos de violência ela tem. Este estudo está no livro chamado “Educação: carinho e trabalho”(Editora Vozes, 1998), que trata inteiramente sobre a questão do trabalho do professor. 

 

Esse post faz parte da série “Como vai a saúde dos nossos professores?” produzida pelo Todos Pela Educação. Os outros posts podem ser lidos por meio dos links abaixo:

Como vai a saúde dos nossos professores?

Silêncio, turma: quando os problemas vocais impedem o professor de lecionar

Lesões por esforço repetitivo: uma doença comum entre professores


Sobre o especialista:

Wanderley Codo concluiu doutorado em em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC),  em 1981. Atualmente é professor titular da Universidade de Brasília, (UNB). Possui 33 capítulos de livros e 14 livros publicados, entre eles, “Educação: Carinho e Trabalho” . Em seu currículo lattes os termos mais frequentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural sao: trabalho, saúde-mental, educação, alienação, psicologia social, comportamento, subjetividade e diagnóstico. Ele  desenvolveu uma concepção de psicologia do trabalho que aplicou em pesquisas e publicações ao longo dos anos, desde 1981.